O segundo cérebro

rosaQuem me lê com frequência sabe que uma das minhas maiores preocupações é a quase certa futura (e próxima) disfunção do cérebro devido à herança do alzheimer de mamãe, mas, aparentemente, tenho me focado no problema errado.

A ciência, como todos sabem, faz tempo tem classificado os intestinos como “segundo cérebro” e, francamente, é aí que as coisas parecem ir de verdade para o brejo. No outro dia um de meus amigos prediletos, por quem tive até uma quedinha no ano passado, declarou que tem quantidade de gases razoável para a idade. Mas outro amigo, desta vez um por quem arrastei um bonde no passado e com quem me diverti um bocado, confessou que há coisa de uns dois anos percebeu ter se tornado um “saco ambulante de peidos”, ok, desculpem a linguagem pesada, mas se preparem: até o final desta crônica muita gente vai se arrepender de eu ter me desculpado.

Esse mesmo amigo por quem fui tão apaixonada, chamemo-lo “Mr. M”, era bem louco na juventude, vamos combinar. Com o tempo foi se tornando mais moderado, limitando-se a um esporádico baseado, ah, deveria ter tido paciência o meu ex-amado, já que num futuro breve, como em todo o mundo os países têm divulgado, o uso de cannabis será completamente liberado, oba. Aqui no Brasil, a ANVISA já deu o “start” para a liberação total… pela porta dos fundos, como sempre acontece, sabem como é (e o que seria o propagado segundo cérebro, senão a enrolação que antecede a nossa “porta dos fundos”?).

Pois imaginem que ao ultrapassar uma certa idade, desesperançado, meu amigo começou a beber, a exagerar na bebida, digo. Até aí, nada demais. Mas em nosso encontro mais recente me confessou, entre divertido e humilhado, que quando bebe demais os intestinos o têm, no mínimo, embaraçado. No outro dia, imaginem, escapou por um triz de virar viral no YouTube, quando, visivelmente tocado, deixou escapar da ponta de seu rabo… bem, já deu pra entender. O tapete persa teve que ser urgentemente enviado à lavanderia, com a habitual desculpa do cachorro mal-educado, vocês me entendem.

Quanto a mim, muita gente sabe que cultivo o hábito matinal de trabalhar no “escritório” reservado do segundo andar. Mas, ultimamente, minhas sessões por lá têm se prolongado um bocado, frequentemente com um resultado frustrado. Frustração, aliás, tem sido meu nome do meio. Todas as minhas brilhantes ideias acabam mais cedo do que tarde sendo materializadas… embora, infelizmente, por outras pessoas, pior, sempre fora do Brasil, como foi o caso esta semana de nossa excelente série Singles K, que venho tentando inutilmente oferecer aos leitores em forma de assinatura, um alto nível de expectativa que já está em seus estertores, devo confessar. Tô quase desistindo, mas, se desistisse, que vida me restaria?

Voltando ao “escritório”: em outros tempos, eu lia o Globo impresso em meu espaço sagrado, como tanta gente fazia. Depois, passei a ler o Globo na internet, editar as crônicas do dia, e, em certos dias, devo confessar, chego até a diagramar algum novo livro, enquanto aguardo o assunto se desenrolar. É de amargar. Num episódio recente fiquei seriamente preocupada com os rumos da minha saúde, e um dos sintomas era um intestino sempre me lembrando que estava lá, fosse falando ou se recusando a se expressar. Em matéria de cérebro, francamente, é com este que devemos nos preocupar.

E não é só isso, nem é só esse folclore que pouca gente se atreve a relatar. No outro dia fiquei sabendo de uma coisa de arrepiar: nos “lares de idosos” é considerado uma vantagem o paciente ser “ostomizado”, ah, vocês não querem saber o que quer dizer ostomizado, e não sou eu que irei contar. Vai ao Google, deixa de preguiça. De preguiçoso na idade madura basta o… deixa pra lá. Até pacientes de câncer em estado avançado às vezes se preocupam menos com a doença do que com a humilhação que isso pode causar, e dá pra entender muito bem.

Agora, vocês podem me perguntar, com tanta coisa séria acontecendo, por que fui optar por um tema tão instigante como o desta crônica?

Bem. Depois que Veríssimo — em sua coluna no Globo, sempre ele —, comentou um livro sobre uma hipotética volta de Hitler sob o título “Volta, volta!” — ui, arrepio —, nenhuma metáfora pode ser considerada excessiva, o que inclui a noção nada sutil de que o Brasil anda sendo governado por… uma espécie de “segundo cérebro”, sim, é isso mesmo que vocês estão pensando.

Estamos numa merda de dar gosto, meus amigos, e não estou falando de cocô boiando na Baía de Guanabara, não, nada disso, embora o assunto tenha sido destaque na impressa internacional também esta semana, gente, nossa, a ideia petista de mostrar o Brazil ao mundo como uma sociedade avançadíssima parece que está escorrendo pelo esgoto, junto com a descarga, digo.

Também, convenhamos, o povo não está ajudando, com tantas greves e episódios incendiários bem às vésperas da Copa do Mundo, isso, pra nem mencionar as latrinas voando. Segundo cérebro, estou falando.

Ou, como diria mamãe, entre a merda e a bosta…

Agora, falando sério, eu faria a mala e sairia correndo, mas tá tudo tão parado que acabei sem a grana da passagem, o “síndico do meu tédio” — achado brilhante do Chico, aliás — sendo o menor dos meus problemas atualmente. Embora, claro, ainda me restem milhas, afinal, pertenço à eterna classe dos clássicos endinheirados.

O que me consola é que no meu jardim lá fora o alecrim continua vivo, as rosas perfumadas, viu, e abundantes, nem aí para os disparates do nosso Brasil.

Só a natureza salva. Fui.

E um bom domingo procês.

***

Ah, é, já ia esquecendo, momentinho para o comercial: está sendo lançado hoje, na Amazon, meu novo livro de crônicas, Na poltrona do editor. Vai lá. Saiu muito bom.

 

 

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