O trunfo de Trump

donald-trump-turnberry-lpga_t780A gente sabe que começou a corrida eleitoral americana quando Alan e eu começamos a discordar radicalmente quanto ao que seria o melhor para os Estados Unidos, e, por extensão, para o mundo. Certo?

Bem. Mais ou menos. Até há pouco tempo nossa vida política — melhor, politizada — era assim mesmo, ele, claro, me imputando sua vantagem indiscutível devido à minha ignorância intrínseca, que seria descrita mais acuradamente como “falta de familiaridade com o jeito americano de ser”. Mas devo confessar que mudei, estou mudando, desde que me mudei para os Estados Unidos, meu Deus, será que ele estava mesmo certo?

A bola da vez, impossível deixar passar em branco, é a impositiva “estrela ascendente do Partido Republicano”, Donald Trump, e seu cabelo esquisito. O cabelo de Trump, aliás, vem se transformando a meu ver numa metáfora perfeita, seu maior trunfo eleitoral.

Vejamos. Lá pelos idos de não sei quando algo deve ter acontecido, porque aquela coisa encobrindo seu crânio certamente tem muito pouco a ver com uma cobertura capilar humana natural, atualmente agravada pela mais artificial ainda cor de burro-quando-foge. O adereço dá ao candidato uma aparência de freak (aberração, anomalia, imaginem, precisei ir ao tradutor para chegar a um bom termo em português). E ele sabe disso. Melhor, ele explora isso, insistindo em demonstrar em seus frequentadíssimos comícios que o cabelo, embora esquisito, é dele mesmo. Cheguei a aconselhar (mentalmente, é claro) que sempre o escondesse por baixo daquele boné vermelho que ele tentou, em certo momento, transformar em sua marca registrada, com seu slogan (este sim, devidamente registrado no Escritório de Patentes americano) “Make America Great Again” (“Tornar a América novamente grandiosa”, em tradução livre). Afinal de contas, Trump parece bem mais distinto com ele, mas a verdade é que ele, sendo muito esperto, deve ter percebido que seria muito mais eficaz enfatizar sua “esquisitice” em lugar de tentar disfarçá-la. Funcionou. Ponto pra ele.

Apesar de nada ter em comum com o povo que o aplaude, sendo, muito pelo contrário, um dos mais legítimos representantes da elite dos hipermilionários que jamais se aventurou na arena política — vamos combinar, o “povão” nada entende de “elite”, e de política muito pouco — Trump vem se provando o candidato mais capaz de todos ao traduzir fielmente os anseios de alma deste mesmo povo, embora a mídia venha se esforçando um bocado para provar que não é assim: apenas os idiotas, os racistas, os violentos, enfim, a escória da (falta de) humanidade americana o estaria apoiando apoiando (ele esteve em Greenville na última quinta-feira), enquanto a “banda boa” estaria se bandeando, vamos dizer, para os lados do liberal-socialista Bernie Sanders. Que, aliás, também se destaca pela cabeleira branca… Ironia!

A mídia “direitista” — é, aqui nos Estados Unidos a mídia tem dois lados bem declarados, e ambos têm força — no outro dia deu o troco: o hilário (desculpem, mas o sujeito é muito inteligente e engraçado, além de simpático) Jesse Watters provou claramente que os “empolgados de Bernie” não tinham a menor ideia de pelo que estavam se empolgando, chegando a definir “socialismo” como “sociedade de livre iniciativa, completamente livre do controle do governo”, enfim, uma espécie de laissez-faire, isso então é que eles desconhecem mesmo. Até eu, pra dizer a verdade, ando me confundindo, porque aquilo que parece ser “liberal” em termos de economia é na verdade nos Estados Unidos a definição do “conservadorismo”, vai entender.

Mas, só para variar, não é sobre nada disso que eu queria escrever. Já deu pra entender que Alan, a cada dia que passa, está cada vez mais fã de Donald Trump, enquanto eu, embora não esteja mais me aferrando tanto à minha contrária opinião… Bem. Embora não consiga vê-lo como presidente dos Estados Unidos, reconheço que ele vem nos prestando um grande serviço ao demolir cuidadosa e objetivamente a ditadura do “politicamente correto” que vem há anos nos sufocando, e está piorando. Imaginem que li num artigo que hoje em dia nas universidades americanas está se estabelecendo um status quo que busca “proteger os alunos de palavras e conceitos que os incomodam”, imaginem só a geração unilateral e burra que poderá sair disso, nossa mãe. As alunas de direito, por exemplo, não querem que lhes seja ensinada a lei relativa ao estupro, porque a simples ideia do estupro as perturba. É considerado ofensivo, outro exemplo, perguntar a uma pessoa de aparência asiática “onde ela nasceu”, quase um crime de racismo punível por lei.

Pois imaginem que noutro dia, movida apenas por uma benigna curiosidade (e busca de solidariedade) de estrangeira, perguntei à minha simpática oftalmologista de aparência oriental e forte sotaque chinês se ela “era americana”. Meu Deus! Poderia ter ido para a cadeia e nem sabia!

Pois os “politicamente emparedados” se veem desesperados com a retórica incorreta de Trump, que não hesita um segundo em usar os termos mais desprezíveis convenientemente ejetados do nosso vocabulário de “conectados”, como, por exemplo, o horrorífico “bebês-âncora” contra o qual um editorial do New York Times completamente equivocado — ou conscientemente manipulador, sei lá —se declarou horrorizado.

Poderíamos evocar a sabedoria tupiniquim de Elio Gaspari, que explica com didática clareza a inconveniência de uma pessoa sem nenhum traquejo político, como a “nossa” Dilma, ocupar a presidência de um país, o que também ocorreria no caso de uma impensável vitória de Donald Trump nas próximas eleições presidenciais americanas. A habilidade de debater com o congresso, afinal de contas, é um dado importante numa democracia — um dado que, aliás, pasmem, tem falhado consistentemente na Era Obama.

Agora, o que tem contribuído de fato para o sucesso de Trump não é sua retórica extremista, mas sim o fato de que o que ele diz reflete o que pensa em silêncio a maioria dos americanos, mesmo que, massacrados (ui!) pelo poder da mídia, se encontrem impedidos de expressar livremente tal pensamento, apesar da 1ª Emenda (da Constituição dos Estados Unidos, que garante a livre expressão). Em bom português: estão todos de saco cheio, não dos políticos, mas dos maus políticos, é o que eu entendo. E a coisa está claramente se encaminhando para um “estado-limite”, para além do qual ninguém sabe direito o que vai acontecer.

Antes de encerrar esta crônica com uma nota de esperança, citando uma outra amiga (não aquela que é favorável a Bernie Sanders) que há poucos anos me disse que o mundo se encaminhava para uma crise fatal, da qual emergiríamos todos num “admirável mundo novo”, vou deixar um bom conselho, e de graça, para a mídia “liberal e esquerdista” como o NY Times: não é com mentiras óbvias que vocês manterão seu status de formadores de opinião, francamente. Pois em seu polêmico discurso do Alabama Donald Trump deixou bem claro o que entende por “bebês-âncora”, e o termo se refere não a filhos de imigrantes em geral, o que ofenderia a hoje famosa 14ª Emenda “garantidora da pluralidade”, mas sim a pessoas que “entram ilegalmente no país às vésperas de dar à luz, só para que seus filhos recém-nascidos sejam considerados cidadãos dos Estados Unidos”, e por tabela garantam os pais também, entenderam? É golpe. Simplesmente.

Quanto a mim, confesso não compartilhar deste pânico crescente contra os imigrantes — latinos, em especial, entre os quais me incluo. O que me pergunto todo dia é por que fiz tanta questão de solicitar meu Green Card imediatamente, me certificando de ter todas as condições legais para obtê-lo; e por que me sinto muito mais tranquila e livre no país em que vivo porque finalmente o obtive.

Ah, bom. Está na TV: solicitar o Green Card e imigrar legalmente vale apenas para quem “tem dinheiro”, em suma, mudo de país, mas não consigo me livrar da maldição de ser “elite”.

Shalom!

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