O verdadeiro Trump

trumpvoldemortEstava eu muito bem assistindo a um episódio (de 2006) de “Supernatural” enquanto corria na esteira (não me julguem por favor), quando o diálogo final chamou minha atenção:

— Quem é você afinal? — perguntou o rapaz com a etiqueta “do bem” estampada, tanto na testa como em sua icônica camisa xadrez.

— Mas você é um demônio! — ele prosseguiu, examinando com óbvia surpresa sua interlocutora.

— Não seja racista — respondeu a loura, que até seria angelical, não fossem os olhos estranhos, completamente negros e cobrindo a córnea inteira. — Nem todos os demônios são iguais.

Corta!

***

Era segunda à noite e assistíamos na TV, desta vez ao vivo, ao discurso de Donald Trump para uma sala lotada, jovens em sua maioria, reunidos aqui pertinho, em Mount Pleasant, uma cidade próxima de Charleston.

Eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. A cada bombástica afirmação de Trump, que vai ficando cada vez mais radical e violento, a turba urrava, fazendo uma “onda” que nem aquelas em estádio de futebol. Quando uma vozinha veio lá do fundo tentando protestar foi praticamente esmagada pelo vozerio, saudado pelo imediato comentário de Trump, talvez com segundas e até terceiras intenções:

— A segurança aqui está mesmo deixando a desejar! Prestem atenção!

Foi nessa noite, no dia seguinte ao pasteurizado discurso de Obama sobre os ataques de San Bernardino, que Trump fez sua “histórica” declaração que o empurrou para o “limbo da nação” (será mesmo?), recomendando o “banimento” de todos os muçulmanos e a temporária proibição de entrada nos Estados Unidos de todos os adeptos dessa religião (a palavra “temporária” foi obviamente eliminada da maioria dos comentários que se seguiram). Como dizem os americanos, “o inferno inteiro se soltou”.

Uns dois dias depois me “baixou” um completo entendimento do que está se passando no país neste momento, entendimento este inevitavelmente desafiado por horas e horas de comentários ao vivo de todas as procedências, criticando violentamente as sugestões do candidato a candidato. Segundo a Fox News, na terça-feira “The Donald” obteve mais de 8 horas de TV ao vivo, a um preço inestimável, resta saber se o resultado dessa maratona vai para cima ou para baixo, segundo as pesquisas.

A verdade é que quando Trump diz essas coisas ele está, para o bem ou para o mal, refletindo o pensamento de boa parte dos americanos, que em público, no entanto, gostam de agir segundo os cansados cânones do politicamente correto. Eu mesma chego a concordar com alguns desses pontos, devo confessar, principalmente porque não ligo a mínima para esse “código público de conduta” que chega às raias do absurdo quando privilegiado pela “esquerda”.

Mas o que entendi não foi nada disso, e sim que Trump estava servindo à muito necessária contrapropaganda para fazer frente à habilidade de propagação demonstrada pelos grupos terroristas. Como assim, deixamos com eles a primazia do convencimento e da doutrinação?

Trump não fala para “gente como a gente”, que não se deixa influenciar por slogans nem pelo que vê na TV (nem vou contar que hoje estamos planejando jantar num restaurante aí, para comemorar nossos 10 anos de casamento “no papel”, só por causa do excelente anúncio deles na TV). Muito “patrioticamente” até, Donald J. fala para os mesmos desesperados, prontos a serem radicalizados, só que localizados do “nosso lado” da disputa ideológica e muito bem armados. É um contraterrorista por excelência, e usando as mesmas ferramentas que os facínoras adotam, talvez incorrendo em perigos parecidos. Por outro lado, pode estar mandando um recado, não o recado errado como enfatizaram esta semana tantos comentaristas, mas o recado adequado: “Não se metam conosco, pois vocês serão dizimados”.

Tudo isso multiplicado por mil através da propagação conectada, nas TVs, na internet e em redes sociais. Se qualquer dessas sugestões será efetivada ainda fica por ser comprovado, o que provavelmente jamais irá acontecer, pois na última hora estamos esperando que apareça um legítimo salvador da pátria, salvador do Partido Republicano, pelo menos. Porque com todo radicalismo não estou nada disposta a apoiar os democratas, que já nos fizeram mal suficiente, pelo menos no que se refere a esse assunto de terrorismo, ou alguém vai negar que durante o governo Obama a “radicalização” atingiu níveis nunca vistos? Até mesmo a palavra “radicalização”, em sua forma verbal “radicalizado”, pelo que sei, é um neologismo inventado como resposta a uma situação que a gente antes desconhecia, é ou não é? Eu, pelo menos, a escutei esta semana pela primeira vez. Mas posso estar errada, claro.

O que para mim está mais do que provado é que os recursos utilizados para examinar o “currículo” de novos imigrantes têm sérias falhas, ou a “Mãe Radical” de San Bernardino jamais teria sido admitida e aprovada.

Outra medida de utilidade pública oferecida por Donald Trump é a coragem que ele tem de dizer em público sem nenhuma censura o que pensa, o que muita gente pensa, sem se deixar intimidar por ameaças midiáticas, e não estou falando da nossa mídia, nada disso, mas da mídia jihadista que tantos riscos tem nos imputado, e na qual Obama demonstra acreditar piamente como qualquer cooptado (não estou afirmando nada, me contem fora dessa).

Nem é que eu queira ver sangue, mas uma delas é a crença nessa besteira de que se houver um exército em terra ele certamente será derrotado pelas forças do califado, de acordo com alguma previsão idiota da Idade Média ainda sob o impacto do império otomano, que era realmente invencível naquela época, e igualmente aterrorizante. Estamos falando do século 13, minha gente! No qual, descontando suas incríveis habilidades de TI, os jihadistas parecem ter estacionado!

Vamos ver quem é “mais macho”, apesar de que agora as forças armadas americanas aceitam mulheres em todas as posições. Já ouvi até uma conversa aí de que Putin está se preparando para disparar sobre eles um artefato nuclear. Ai, ai.

Certamente as comunidades muçulmanas no mundo inteiro têm um sério problema com o qual terão de lidar mais cedo ou mais tarde, o problema do crescente radicalismo que os fatos infelizmente não falham em comprovar, ou alguém aí vai negar que nos últimos ataques todos os nomes dos criminosos envolvidos denotavam uma ascendência muçulmana?

Como deveríamos reagir? Oferecendo a outra face? Abraçando e beijando um estranho em meio a uma multidão? Como convencer a todos os demais de que não se trata de crimes com fundo religioso, e de que tudo não passa de um preconceito injustificado?

Tá difícil. Mas eles que se virem com isso.

No mais, lá estava eu de novo correndo na esteira quando me deparei com outra frase seminal, desta vez num velho episódio de “Law & Order”. Então lá vai, parafreaseando Mariska Hargitay, a Olívia do seriado (a frase original se referia ao amor): “Não se trata de fé, mas de lavagem cerebral”.

Aliás, ficamos sabendo pelo FBI que ao se encontrar online em 2013, em vez de conversar sobre sexo ou amor como todos os apaixonados, o casal endemoninhado falava de martírio, jihad e ataques terroristas, que horror.

Olha aí o verdadeiro perigo.

 

 

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