Onde há fumaça, há fogo

895_Bombeiros de Óbidos - Foto Arquivo CMO(crônica dupla)

 

Era pra gente ter celebrado nosso primeiro Shabat em solo americano. Pela primeira vez tínhamos tudo comme il faut, parece pouco, eu sei, mas nos custou: cadeiras, mesa, vinho, taças, velas, uma chalá deliciosa comprada no supermercado do bairro, salmão fresco, brócolis, pratos. Os outros três sábados passados, aliás, foram os únicos de nosso longo relacionamento em que o Shabat foi deixado de lado por absoluta falta de condição, Alan fez sempre questão.

Estávamos esgotados. Semaninha dura, como todas as outras desde que por aqui aportamos, coisas pra resolver, exigências (nem tão) legais, além da falta que nos faz nosso tranquilo paraíso que, por falar nisso, deixamos para trás pegando fogo, literalmente.

Nem sobrou energia pra contar pra vocês o que passamos por conta da simples necessidade de comprar um carro. E não foi por dinheiro, posso garantir: como outros milhões de brasileiros, viramos estatística entre aqueles que, com patriotismo ou sem, pelos mais variados motivos e inseguranças várias transportaram para fora do país seu nem tão rico dinheirinho, valendo cada vez menos no incêndio dos mercados. Foi dureza.

Mas tudo deu certo no final, quer dizer, ainda estamos sem carro, última condição antes das centenas que se seguirão com a obra da casa, mas aí já num outro momento, com a nossa base assentada. Temos em mãos a vasta documentação e já estamos de olho em um ou dois, tá bem, vou contar: por incrível que pareça, para comprar um carro na Carolina do Sul é preciso uma carteira de motorista de residente na Carolina do Sul, o que não é nada fácil com visto de turista, que é o que tenho por enquanto.

Alan não podia ajudar. Sendo residente da Flórida e estando há dez anos fora do país, coitado, teve que deixar de lado suas convicções de “desobediência civil” e se enquadrar no Seguro Social, sem cuja carteira oficial, que de todo jeito demoraria mais 10 dias para ser entregue pelo correio, não poderia transferir seu domicílio automotivo e facilitar a nossa vida. Restava a gringa aqui para garantir a maçada, e lá fui eu num périplo inclemente pelas repartições legais, coisa que no Brasil não faria nem morta, devo confessar, logo contrataria um despachante, vamos combinar.

Comecei pelo mesmo Seguro Social a que Alan teria que se submeter, do qual precisava uma carta declarando não estar apta a me registrar… no mesmo Seguro Social. Foi moleza. Só precisamos acordar cedo e ficar umas três horas na fila dos remediados, digo, segurados, da qual destoei com meus saltos altos, roupas de seda e brilhante no dedo, requisitos obrigatórios segundo o Alan para (eu) obter credibilidade nos Estados Unidos. Então tá.

Já de posse da carta, voltamos pela segunda vez ao Detran local, cuja burocracia e baixa estima do funcionalismo público deixaria qualquer repartição brasileira no chinelo, para não mencionar as filas. Não adiantou nada. Faltava agora um formulário baixado da internet repetindo as mesmas informações que constavam no carimbo do passaporte, et voilà, voltamos para casa e imprimimos o tal documento sem nenhuma dificuldade, a não ser o meu cansaço e impaciência crescentes.

Ficou tarde, e só no dia seguinte (depois vocês podem me perguntar por que ainda não consegui voltar a trabalhar desde que cheguei aos Estados Unidos, tá?) pudemos voltar ao posto, desta vez para nos depararmos com a exigência absurda de um recibo de imposto territorial na Carolina do Sul, pois é, quem não é residente tem que ser dono de uma propriedade na Carolina do Sul para ter a carteira de motorista local e poder comprar um carro no Estado, entenderam? Nem eu. Mas é assim.

Alan já estava desconfiado de que aquelas funcionárias estavam se divertindo às nossas custas, e enquanto nos dirigíamos para o departamento de taxas no outro extremo da cidade (sempre com um carro alugado que, por causa do Priceline, temos que trocar no aeroporto de três em três dias mais ou menos, nunca frequentei tanto aeroporto na minha vida), decidimos que voltaríamos pela quarta vez, sim, mas não para o mesmo posto do DMV (Department of Motor Vehicles, segundo o Alan tão conhecido por sua burocracia que é tema constante de piadas, exatamente como o nosso Detran, uma dor de cabeça mundial).

Aqui tenho que interromper o meu relato para ressaltar duas coisas: a primeira, a diferença radical com que Alan e eu encaramos essa experiência, ele com a confiança inata nos meandros legais de seu país e eu com a minha desconfiança inata reafirmada nos meandros burocráticos do meu país, se é que vocês me entendem, e posso afirmar que com desconfiança tudo dói bem mais; a outra é que, apesar de tanta exigência, estar na Carolina do Sul — em Greenville, especialmente — é bom demais da conta, francamente. Alan folheia aquele livro que comprei pra ele na Amazon — The Blue Wall, sobre as montanhas e águas de Greenville, vocês se lembram — e vejo seu queixo cair enquanto olha as imagens e deixa escapar seu espanto, digo, maravilhamento: “Look! It’s God’s land!

Amém. E ainda tem uma terceira coisa: por mais que você se perca em Greenville, sempre acaba chegando a seu destino por conta de uma mágica inteligência no design urbano que ainda não entendo, não pude parar para estudar o mapa e perceber o que se passa, deve ser algum padrão circular das ruas por onde a gente passa, sei lá, enfim, ninguém se perde por muito tempo na linda Greenville.

Voltando à carteira de motorista, é claro que não conseguimos o documento solicitado, por um descompasso desses que só Kafka explica: tínhamos comprado o terreno há dez dias, os impostos do ano passado estavam pagos em nome do antigo proprietário e os deste ano só serão enviados em novembro, nem foram calculados ainda segundo a funcionária. Conversa vai, conversa vem — na América também se (passa a) conversa —, conseguimos um recibo no nome do proprietário antigo e uma declaração de que a nova proprietária era eu, assinada e carimbada pela chefe da repartição. A burocrata do primeiro posto do DMV, no entanto, já tinha nos avisado que se fosse este o caso “infelizmente teríamos que esperar até novembro”, portanto, fomos direto para o segundo posto nos fingindo de desentendidos.

Lá chegando, tudo aceito (para nosso espanto, sem nenhuma menção ao tal recibo de impostos), faltava fazer o teste de conhecimento de trânsito, que como eu tinha estudado em casa tirei de letra, e o temível teste de direção, deixa eu explicar mais uma vez: para os países que não têm acordo com a Carolina do Sul, entre eles o Brasil, é preciso fazer teste de direção… e lá fui eu, 44 anos de motorista, enfrentar a exigente examinadora.

Eu sei que esta história já está ficando longa, mas, gente, não paro de me surpreender com o fato de que meus profundamente arraigados instintos de motorista, já tendo dirigido quase no mundo inteiro, inclusive no lado direto no Reino Unido, nada valem aqui nos Estados Unidos, onde todos cumprem (outras) regras no trânsito, entre elas o hábito espantoso de parar no sinal sempre deixando o espaço de um veículo entre um carro e outro. To make a long story short, tudo ia muito bem quando a examinadora veio com uma história estranha de sair da estrada e parar num acostamento de grama cuja inclinação me fez temer causar danos ao carro alugado. Daí para frente, me confundi completamente. Os pneus, explicou ela, deveriam estar virados para a estrada; em seguida eu deveria “assumir o controle do veículo” (era aí que estava o catch 22 da coisa) e sair de ré para a estrada até que ela me mandasse parar. Quando vi, estava no meio da estrada na pista da contramão! Levei pau na hora! Que humilhação!

Nossa sorte foi que solicitei e consegui uma “permissão para dirigir” que exige um adulto sempre do meu lado, hahaha. Isso me permitiria comprar imediatamente um carro, embora para me tornar adulta eu mesma deva voltar e fazer outro teste de direção, e mais outro, até ser aprovada pelas duras regras do trânsito dos Estados Unidos, sabe-se lá quando me disporei a fazer isso. Ah, na hora agá da emissão da carteira temporária com cara de cartão de crédito, com foto e tudo e emitida por uma máquina no próprio local, embora não pudesse me ser entregue devendo ser enviada pelo correio… bingo! Pediram o tal recibo de taxas da propriedade, que para sorte nossa foi aceito daquele jeito mesmo, num gesto de “boa-vontade” da examinadora. Ufa.

Pois é, esta crônica era para ser sobre o nosso primeiro Shabat em solo americano, não é? Mas havia o debate entre Dilma e Aécio, e eu tinha descoberto que poderia assisti-lo na nossa esperta televisão, propagando direto do site do G1 através do abandonado Chromecast. Enquanto preparava o jantar, o debate estava para começar. Coloquei o salmão na frigideira, e para não ter que enfrentar a barulheira do que eu julgava ser uma coifa como outra qualquer, desliguei, ah, gente, pra quê. Assim que subiram os fumos do salmão começou a tocar não sei onde uma sirene ensurdecedora. No teto do apartamento uma luz vermelha girava agitada, como uma vulva inchada, e entrei em pânico antes mesmo que D. Dilma começasse a proferir seus revoltantes absurdos. Seria um sinal? De que esta eleição finalmente poria fogo (mais fogo) ao Brasil?

Enquanto D. Dilma propagava seu “governo de união”, aquele que implantou no país uma tal desunião que quase nos levou à guerra civil, Alan veio em meu socorro e ligou a coifa que não era coifa coisa nenhuma, mas uma chaminé para absorver a fumaça do fogão. Levou uns dez minutos para o alarme do detentor de fumaça parar de girar e apitar como um carro de emergência do Corpo de Bombeiros, outro tanto para eu me acalmar e mais outro tanto para eu servir o jantar,  entre taças de vinho e palavrões em português a cada mentira jogada na nossa cara cansada pela candidata da corrupção, que cara de pau! Nossa mãe!

Bem, quando esta crônica for ao ar já será tarde para tentar influir nos destinos da nossa grande nação, a sorte já estará lançada e o dia da votação avançado por conta da diferença de horário. Faço votos que a razão prevaleça em nosso meio, e que a gente se livre dos hábitos mafiosos dessa gangue que nos invadiu, pois como diz a sabedoria ancestral, onde há fumaça, há fogo, com raríssimas exceções.

E um bom domingo procês! Vida nova se deus quiser!

 

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