Pacto sinistro

A-Noiva-do-ChuckyDiz o dito popular que “há males que vêm para o bem”, mas na vida real, isto é, na minha vida real que já é bem longa, nunca vi isso acontecer. Verdade que num horizonte infinito de tempo tudo pode acabar acontecendo, até um macaco, dizem, batucando num teclado aleatoriamente, pode vir a escrever uma obra tão incrível quanto a de Shakespeare, ou, sob outro ponto de vista, coisas terríveis que nos acontecem podem vir a fazer sentido se observadas no contexto de um passado extenso, um truque do cérebro para garantir que um humano sobreviva intacto a uma dor inominável, como, digamos, um holocausto que dizimou toda a sua família. Eu, por exemplo, se não tivesse aos 20 anos perdido meu pai tragicamente num acidente de carro, terminaria não conhecendo o Alan nem me tornando escritora nem me mudando esta semana para os Estados Unidos enquanto o Brasil voluntariamente se enfia no buraco, ui, arrepio.

Mas é claro que minha crônica de hoje não é sobre isso. Faz algum tempo, críticos ferrenhos da obra literária de Paulo Coelho, entre os quais, aliás, me incluo, costumavam dizer que seu inexplicável sucesso se devia a um pacto com o diabo feito há muito tempo, ainda na época da parceria “maldita” com Raul Seixas (claro que não me incluo nessa segunda parte, não acredito em maldições, nem em bruxarias, nem em olho gordo, mas deveria, não é mesmo, uma espécie de “proteção” contra a provável desgraça deflagrada pela inveja ou outra bobagem do tipo). Só não sei o que PC teria dado em troca, porque que eu saiba quando o diabo veio cobrar sua parte não havia nenhuma filha atrás do moinho para ser abduzida, sorte dele, teria sido o preço o saudoso Raulzito?

Mas é claro que a crônica de hoje tampouco é sobre isso, só estou procurando uma maneira lógica, ou qualquer outra coisa que se aproxime de alguma lógica, de conseguir entender o que está se passando em nosso país na reta final desta tétrica temporada eleitoral cujo acento sinistro ocorreu na “destruição pelo fogo” de certo avião, que não era de carreira — uma profecia apocalíptica clássica. Raciocinem comigo: nos últimos dois, três anos, sei lá, nos vimos afogados por uma onda de lama que em vez de amansar com tantas e tão terríveis revelações, só faz aumentar, e mesmo assim, a candidata da lamentável situação  tem crescido nas pesquisas e com boa probabilidade será reeleita para mais um ciclo de vexames e absurdos, todos com consequências gravíssimas para todos os cidadãos, estejam cientes ou não, pois o Brasil, que não faz muito tempo chegou a ser considerado um país bacana, charmoso, promissor, agora está novamente relegado à categoria de república de bananas, onde os bananas somos nós, é claro, que nem tirar do poder pela via democrática uma corja de bandidos estamos conseguindo.

“Bananas” é o mínimo, meus compatriotas e amigos. Pior que isso, estamos correndo o risco de sermos colocados no mesmo perigoso saco não só com ditadores e facínoras da pior espécie, mas também com terroristas assassinos e cortadores de cabeças, e não se trata de uma ficção sobre a “noiva de Chucky”, garanto que não, são cabeças humanas, gente de verdade mesmo. Obviamente uma opção de gente cujas cabeças não podem ser categorizadas como “pensantes”.

Pois voltando à premissa inicial, a única explicação para isso parece ser meio ilusória, demencial, algo tão anormal quanto um “pacto com o demo”. O que teria dado em troca o PT? Não creio que tenha sido o falecido precursor de Marina Silva, acho que não, isso seria muito pouco para o poder em questão, menos que uma macieira frondosa. Mais provável é que atrás do moinho estejamos todos, todo o povo brasileiro, que sem saber se vendeu como galinha cega caída no atoleiro, sem a piedade de nenhum carroceiro. Pobre povo brasileiro. No qual me incluo, de corpo presente pelo menos até a próxima sexta-feira.

Deveríamos pensar sobre isso seriamente. Num país reconhecido globalmente como democrático e agraciado com eleições livres, fica meio estranho, digo, quando visto por um estranho, acreditar que sua presidente não o represente, então somos todos nós discursando na ONU, todos nós envolvidos num tipo qualquer de pacto sinistro, todos nós ladrões, corruptos, abjetos, embora não sobre para nós nenhum centavo desses conchavos pseudocapitalistas que tanto têm nos envergonhado, o telhado de vidro é nosso, e sobre nós a lama respingará, ainda que façamos de tudo para negar. Cada bandido envolvido na roubalheira reinante é nosso vizinho, nosso parente, corolário indesejado de nossa vontade leniente, da minha não, eu, hein.

Mas tem algo bom vindo aí pela frente: esta, por exemplo, é minha última crônica em que protesto, porque depois dela, nada havendo de minha parte capaz de alterar pelos próximos quatro anos o rumo dos acontecimentos, a eles me integrarei com boa vontade, e tendo sobrado um pouco de sanidade estarei satisfeita num futuro próximo, vendo, ainda que de longe, um Brasil onde, certamente, tendo imperado, certa feita, um mal indecente, tudo terá chegado a bom termo, tendo sido o veneno purgado pelo tempo. Fiquem bem.

Esta também é uma crônica de despedida, despedida real, porque em nosso conectado mundo virtual a gente não se despede nunca, e nem precisa. Da próxima vez em que estiver escrevendo estarei no outro lado do mundo. Quanto aos que ficam, peço que reflitam, esta semana principalmente. A decisão é nossa, boa gente.

Adeus, até logo, au revoir. Tiro uns dias de folga, mas logo estarei no batente, tendo deixado de lado, I hope, o meu lado reativo, “combatente”.

E um bom domingo procês! Em meados de outubro eu volto! Oxalá bem mais contente!

 

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