Pátria desalmada

lifelibertyandthepursuitofhappiness400__1309544250_5727Semana passada, ou livro passado, entendam como quiserem, dei até uma dica de que, como o Arthur Dapieve, com quem, aliás, me agastei no ano passado e nem contei, estava na minha hora de fazer uma pausa e ir refrescar as ideias. Mas minha vida tem estado muito tensa, então, como perder a oportunidade de estripar em público tais tensões?

Alan recebeu um telefonema e saiu cedo, foi exercer seu recém-reforçado machismo caroliniano numa reunião com o “empreiteiro de ‘escavação’” muito contra a minha vontade, mas larguei de mão, a emocionalidade nesta casa está, como bem diagnosticou meu amigo Caetano, num nível de maturidade máximo de jovens de 25 anos, um constrangimento, mas como a palavra “constrangimento” acabou de ser riscada do dicionário, deixa pra lá. Os dois, tendo o empreiteiro, aliás, sido descoberto por mim e recomendado pelo arquiteto que escolhi, terão sua reunião de “homens” onde “mulher não entra”, mas, de duas uma: ou ele dará palpite errado como outros tantos que o precederam (ou vocês imaginavam que aqui nos EUA isso não existia?) e será sumariamente descartado, ou será aproveitado sob as ordens do empreiteiro que vou encontrar semana que vem, então é tudo teatro, deixa que encenem enquanto aproveito meu momento de calma e privacidade para escrever a crônica.

Tenho cortado um dobrado para aprender a “lidar” com situações que, para mim, acostumada a falar tudo na lata, são imensamente ridículas, mas cobram seu preço assim mesmo. Semana passada, por exemplo, não sei se já contei, resolvi que estava precisando de umas dores, ops, doses diárias de adrenalina, mesmo porque aqui nos Estados Unidos não tenho apoio médico nenhum e para conseguir alguma medicação, só roubando do meu marido, o que me deixa poucas opções, pois não sofro de hipertensão, só de uma tensão hiper, e arranjar um ansiolítico particular por essas bandas, nem pensar: estando fora da “malha médica” local teria que vender o carro para financiar, e aí teria outra fonte de tensão muito maior para atrapalhar, não é mesmo? E toca a buscar dentro de mim recursos já exauridos, ou no mínimo adormecidos.

Pois dentro do programa pro-adrenalina, a atividade mais eficiente é a corrida, algo que aos 50 anos me serviu às mil maravilhas, até a meia Maratona de Revezamento da Petrobras resolvi enfrentar, e não me saí nada mal, o problema é que agora tenho andado sedentária demais da conta, enquanto a Petrobras enfrenta sua própria maratona com as contas. Por falar em Petrobras, e teria pra falar muito mais, lembram do tempo em que a empresa disfarçava suas vilezas com o mais extenso programa de apoio às artes de que esse país aí de vocês já ouviu falar? Secundado apenas pelo orçamento cultural da Oi, mas este vamos deixar pra depois, pois a Oi ainda não começou a estrebuchar. Nem vou me ocupar em provocar ao dizer que a tal generosidade intelectual nada mais seria do que uma imensa lavanderia, testa de ferro, patrocínio de fachada, mas por um bom tempo era tudo o que a gente do setor cultural queria.

Um de nossos autores mais queridos, por exemplo, recebeu um prêmio aí, assinou contrato com a gente e desapareceu do cenário, primeiro por problemas pessoais, agora tenho certeza de que por impossibilidades operacionais, ou vocês imaginam que a Petrobras continuará enviando religiosamente seus cheques beneficentes? A conferir.

Mas, como dizia Jack o Estripador… primeiro a obrigação, depois a devoção. E depois que Alan, dando uma de Matheus (males de maridos candidatos a ex), criticou minha forma física, cuidadosamente desesculpida em quatro anos de dura cadeira editorial, decidi que precisava fazer alguma coisa, mesmo porque por baixo de tudo estava a tal dose que ninguém pode reputar como ilegal da maior droga natural que o corpo humano já consumiu, a endorfina. O problema é que para produzir uma dose genuína, só correndo atrás (sem trocadilho).

Então, comecei. Não sei se vocês sabem, mas aquela outra Noga, a que não era casada, muito menos com americano, e vivia uma vida castrada com sua mãe doente, punha na malhação a confiança última na possibilidade de um compensador expediente, eram três horas por dia divididas entre a corrida e a musculação, com um leve fecho de alongamento, e eu era, modéstia à parte, uma campeã de academia, “quase” tão flexível quanto uma Margot Fonteyn aos 60 anos, faltando, é claro, os braços delgados e toda aquela leveza.

Pra encurtar essa história, que, se preparem, será uma longa meguile (termo em iídiche que designa não sei bem o quê, envolvendo a leitura de histórias que ninguém mais lê, longas e detalhadas, esta em particular muito a propósito relatando a estratégia da Rainha Esther para ludibriar seu apaixonado Rei da Assíria e salvar os cornes de seu povo semita eternamente perseguido, fait accompli e festejado com o Purim que vem aí, o carnaval judeu, e vocês sabiam que isso existia? Para rimar eu poderia dizer “nem eu”, mas na verdade soube disso a vida inteira, só não sacava nas idas e vindas da história o claro antissemitismo que continham, me concentrava no favoritismo do rei por sua rainha heroína que culminou em carnaval, taí um bom enredo para a Escola de Samba Mosaico Tropical.

Elaborei um programa dentro de todo o conhecimento que acumulei, mas já no quinto dia, que revezava sprints de dois minutos com relaxamentos de três, senti que o joelho me chamava. Teimosa, prossegui, ainda caminhei sábado e domingo com ladeira na esteira (que a caminhada no plano não é “nada” para mim), e acabei manca.

Mas se havia uma coisa que Esther fazia era que não pregava prego sem estopa, se é que vocês me entendem, não perdia tempo com estratégias bobas, o negócio dela era sacrifício arriscado mesmo, ou tudo ou nada, e ela era ousada, arriscava a própria segurança idealista num suicídio assistido de alcova, um tipo de heroísmo que está hoje em dia sete palmos de terra enfiados numa cova, estamos num buraco negro moral, meus amigos, que nos suga tudo o que poderia ser prova.

Só que percebi hoje de manhã que meu novo estilo claudicante anda periclitante como a mente de sua genitora, e não é a primeira vez, porque em certas horas do dia, ou da noite, durante o sono profundo, a tal dor lancinante desaparece completamente. O que fazer? Vou confessar meu crime para vocês: enquanto Alan se divertia em seu encontro machista com o empreiteiro fui ao banheiro e me vinguei, roubei metade do calmante dele como ele roubou tantos na minha gaveta brasileira, porque a agora a situação se inverteu, e aqui estou escrevendo essas besteiras, algo que contribui espetacularmente para o derramamento da depressão, esperando que a minha dor se transforme em revelação. Depois eu conto.

Se ainda fosse “espiritualista”, afirmaria sem pejo que a dor no joelho esquerdo se refere “à minha atual dificuldade como autoexilada em conectar o passado ao futuro, passando pelo presente de visto obscuro, e sendo do lado esquerdo, isso envolveria com certeza questões do feminino, na misoginia da Carolina quase um diagnóstico inconfundível de “loucura generacional”, imaginem só. Mas isso tudo são firulas, um racionalismo ilusório como todos sabemos, resta-me chegar por recursos próprios ao fundo profundo da história, onde há relatos abalizados de santos milagreiros: “Levanta-te e anda!”

Duas coisas foram determinantes neste meu ato de cancelamento das minhas curtas férias de cronista na obrigatória entressafra entre um livro e outro: a primeira é que tenho sonhado um bocado, sonhos marcantes e estranhos dos quais me lembro com perfeição ao despertar. No da noite passada, por exemplo, eu tomava um chuveiro num lugar aberto, parecendo um depósito de ferramentas ou algo assim. Comecei a dançar no banho e havia um cara olhando, eu disse, “por favor, estou tomando banho, é um momento privado”, e no momento seguinte o chuveiro elétrico foi desligado por um blackout momentâneo, mas que droga! Puxei o chuveiro, que com facilidade se desprendeu do cano, e vi que tinha havido um curto-circuito, nada a ver, obviamente, com a falta d’água e racionamento de energia no Brasil. Reclamei com o sujeito, ele disse que ia falar com o Lula, pois este tinha se comprometido a comprar outro chuveiro em troca de um cargo no ministério, pode?

Outra é que ontem estive trocando desgraças latino-americanas com minha faxineira venezuelana — uma melhorzinha desta vez —, no meu espanhol quebrado:

A señora habla español muy bien.

— Nada, é portunhol mismo, todo brasileño cree que habla español… Vino para acá por causa de los hijos de mi marido, que es Americano, pero la situación en Latino-América está cada vez peor…no podría más vivir en Brasil… todo lo que quieren es robar…

Si, en Venezuela es lo mismo. Alla escuchamos que el hijo de Lula es el mayor millonario de Brasil!!

Não respondi por uns momentos, mas Luz (vejam que o nome também tem tudo a ver com o sonho) insistiu:

¿Usted escucho lo que dijo?

¿Qué? Creo que no te entendí.

¿Que el hijo de Lula es el hombre más rico de Brasil?

Ah, sí, lo más rico no sé… mas es rico suficiente!

Ah, pátria desalmada, a ponto de me sentir irmanada nesse vexame moral bolivariano… e agradecida como a Luz por estar amparada na terra dos “bravos”, cuja lista de direitos básicos (Bill of Rights) inclui “the pursuit of happiness”, “a busca da felicidade”. Estou tentando.

Só não fiquei arrasada por uns dois dias porque na noite daquele mesmo dia assisti a “Gloria”, um filme chileno entre o instigante e o deprimido onde a melhor glória é a música brasileira.

É pau, é terra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um corpo sozinho (adaptei), ufa, a crônica que não ia nem ser escrita ficou tão longa que deveria ser dividida entre “Pátria desalmada I” e Pátria desalmada II”, mas como aqui na minha empresa reina o despotismo, vou publicar assim mesmo. Aproveitem.

E um bom domingo procês.

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