Paulista com Consolação

No meu eu não sei, pois estou acostumada, mas no coração do Alan alguma coisa certamente aconteceu quando ele a cruzou pela primeira vez: a dura poesia concreta daquela esquina famosa bem ali, em Sampa, contra um céu de agosto muito azul, muito claro e raro, conquistou o refinado gosto de meu exigente marido em busca de um Brasil urbano que, vamos combinar, morando no mato ele até hoje desconhecia, e nem acreditava que na verdade existia.

Quanto à deselegância discreta, virou lenda, ou letra de música, sei lá, diga aí, Neguinha. A verdade é que pelo menos no inverno, e nas cercanias da Paulista, o povo nas ruas hoje em dia desfila um charme europeu de botas e abrigos de botar qualquer carioca no chinelo: de volta ao Rio, já no desembarque do Tom Jobim, é chocante o franco domínio das havaianas em destaque, faça chuva, frio ou sol. Francamente.

Mas não estamos aqui pra falar de roupa, nem de sapatos, nem de frio congelante e muito menos de maridos americanos delirantes, ex-patrões do universo salvo um bom milagre que os recarregue, mas da ousadia desta mínima editorazinha neopetropolitana que vos escreve a cada domingo e que na vida ao vivo, fora da cotidiana telinha, surpreende não pela desenvoltura, mas pela humilhante baixa estatura, meus queridos autores que o digam.

Pois é. Menos de dois meses depois de ter declarado ao mundo, ao meu mundinho de amigos, digo, que pararia a Avenida Paulista por conta do meu pretensioso evento de lançamento de livros, lá estava eu pontualmente — egressa da toca da qual pouco saio e a muito duras penas —, comandando o show que pouco tempo antes só existia na minha mente. Fui. Vi. Aconteci: e na superlivraria metropolitana, imaginem, a maior e melhor comerciante de livros do vasto Império Paulista, a Cultura do Conjunto Nacional, uma verdadeira cidade a serviço da cultura e de amplo reconhecimento internacional, tudo bem. Sem falsa modéstia: arrasei. Arrasamos realmente, Alan, eu e meu grupo integrado de autores competentes.

Foi uma Farra, bem como eu disse que seria. E pra vocês posso até confessar que eu igualmente duvidava de que tudo funcionaria, mas não desisti. Não me deixei intimidar.

Públicos relatos do que foi essa nossa louca incursão de adolescente digital no vasto mundo, adulto e analógico de modo geral, do vetusto mercado de literatura nacional, não devem faltar na internet. Acompanhem. Foi um trabalho e tanto.

Agora. Cá entre nós. O que motivaria, de verdade, uma louca criaturinha de alma interiorana, uma típica webiana, a se arriscar desse jeito? Cobiça? Desejo? Mania de grandeza ou outras manhas? Sem essa, aranhas…

Despeito. Namoros desfeitos. E um coração ferido que em certa e concreta medida ainda de certa maneira sangra, tantos anos depois do mal que um dia ela imagina que lhe foi feito.

O que me move, e que a ninguém deveria espantar, é aquela sementinha de baixaestima muito bem enterradinha na minha traumatizada psique de eterna mineira rejeitadinha, e que quando menos se espera insiste em brotar novamente: nem precisa de água que a alimente, fertilizante, nada. Bastam vagas lembranças pra que ela se apresente, até que um dia… voilà: a gente descobre que nada mais tem a lamentar. Custou caro, mas finalmente a consegui matar, essa erva-daninha do árduo romance epistolar.

Pois todos os meus queridos, brilhantes, bem-sucedidos, famosos e preciosos parceiros, convidados e autores que me desculpem, mas todo esse épico esforço, descontado o óbvio exagero de cronista, tinha como primordial objetivo provar àqueles detestados e por outro lado ainda amados ex-namorados da minha adolescência, ufa, todos eles registrados em livro e sei lá por que cargas d’água ou carma todos paulistas, até os egressos de Minas e mesmo do Rio — quem diria, hein, tem carioca que se exila em São Paulo! —, que apesar do descaso por eles a mim devotado venho vivendo muito bem, obrigada. E até nisso me dei bastante bem, não custa lembrar. Estavam todos lá pra que eu os pudesse autografar, os mais marcantes, pelo menos, e que a partir daquele momento lindo deixaram de me marcar, um alívio, nossa. “Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio, nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada”, sabem como é. Fui. Ri. Hahaha. Não me sobrou nenhuma razão pra chorar.

E antes de me despedir de vocês com esta curta — e grossa — volta por cima, e meu coração renovado ainda por cima, ui, vendo que a vida de certa maneira não passa de uma coleção — eternamente remasterizada — de doces memórias de menina, velha poeira acumulada, pairando, parada, mera nuvem romântica pausada… Ah. Deixa esse espirro pra lá.

Cansei. Cresci. Esqueci. Belo prêmio de consolação, taí.

E um amoroso domingo procês, ok?

 

4 Responses

  1. Noga: PARABÉNS!!!! SHALOM!

  2. Gustavo says:

    Noga,parabéns!voce merece esse sucesso1

  3. Maria Anna Machado says:

    Voce pra mim sempre foi e sera, gigante, na estatura de uma grande pensante que e’.
    Sua sensibilidade aparece no meio do concreto ou no campo, escrevendo como uma mulher ingenua e bem intencionada. Parabens.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *