Paz na terra nunca mais

 

Imaginem que noutro dia mesmo eu estava lendo um artigo que descrevia o desejo de paz no mundo como uma iludida, indesculpável passividade. Segundo o autor, a única solução atual para os problemas da humanidade é a desbragada combatividade, sem a qual seríamos todos ovelhas no pastoreio condenados a abrir mão de nossa identidade.

Pois agora que o momento passou, e que as minhas poderosas palavras já não podem conduzir os destinos do mundo nem matar ninguém, ainda bem, já posso confessar pra vocês: sou incorrigível, reconheço, continuo me deixando enganar pela simpatia, por um rosto bonitinho e pelas melhores intenções, é isso aí; “votei” em Herzog nessas últimas eleições.

Lesse português e o Alan me mataria (não perco por esperar, já que agora tenho uma tradutora para me interpretar), despejaria sobre mim os dardos de sua vidência com sua melhor pontaria e impertinência:

— Eu avisei.

Agora vou ter que dizer que tenho outra confissão a fazer, esta muito pior, muito mais deprimente. Já não odeio o Hannity da Fox (News) como antigamente, ando até prometendo a mim mesma parar com aquele meu trocadilho infame e sem graça, “Heinity” — melhor explicar de uma vez, heinous + Hannity, sendo heinous “odioso”, “abominável” em inglês. De qualquer maneira Alan cansou de me alertar, de me explicar com toda a impaciência que lhe apraz que não estou apta a fazer piadas na língua dele e que meus trocadilhos locais não funcionam de jeito nenhum, como viver num país onde sou incapaz de avacalhar o dia a dia para conseguir sobreviver?

Ah, Hannity. Pois é. Um terror. Ando até acreditando nas coisas horríveis que o homem diz e nas opiniões radicais que professa em público sem nenhum pudor. Imaginem.

Alan segue muito à vontade derrubando alguns de meus ídolos e decepando outros pela metade. Segundo ele, como vocês sabem, somos eu e meu verbo incauto os desprezíveis responsáveis pela praga que hoje assola os Estados Unidos, isso, devido à minha calorosa campanha de 2008 em favor de Obama, lá se vão quase 7 anos, durante os quais, vamos combinar, não aprendi nada, pois intimamente continuo a insistir na minha cegueira política intercontinental.

Não consigo acreditar no que meus olhos veem e meus ouvidos escutam. Obama vem fazendo de tudo para se transformar no líder absoluto da democracia de terceiro mundo, com suas propostas de voto obrigatório, por exemplo. Isso mesmo. Seguindo o mesmo modelo adotado no Brasil — em cujos rincões distantes, como todo mundo sabe, ainda se pratica a velha rotina do voto comprado —, mas convenientemente adaptado ao capitalismo mais selvagem, o inepto presidente do mundo anunciou na Austrália esta semana sua intenção de multar quem não votar em absurdos US$20, pois é, no Brasil a multa é só R$5. Ou era, antes da recrudescida inflação, de obsoleta e deplorável reimplantação no país.

E não é só isso. Obama segue firme em sua política — ops, “diplomacia” — de se alinhar aos piores tiranos que ainda sobram no mundo, como os iranianos, por exemplo, descontado o bom cinema uma das nações mais perigosas da atualidade, não se enganem, eles não gostam de liberdade. E ainda por cima, depois da vitória estrondosa de seu principal oponente esta semana, pior ainda, depois que o insolente Bibi, imaginem, fez pouco do chefe na sala de visitas da sua própria casa, vem ameaçando por cima da mesa tirar seu apoio secular de uma das poucas nações-símbolo da democracia e modernidade.

Quem será o vilão nessa história mal ajambrada, e por que não dizer, mancomunada?

A verdade parece óbvia, mas, incorrigível, reluto em aceitá-la. No fundo no fundo, acho que tem alguma coisa errada, não consigo acreditar que o doce, charmoso, carismático, bem-vestido e nobelizado Obama não é nada disso que mostra para a arquibancada. Que trapalhada!

Eu já devia ter desconfiado quando ainda em campanha, com todo aquele corretismo novaerista bem-comportado, Obama, imaginem, confessou que fumava. Que horror! Cigarros comerciais, claro, mas com o andar da carruagem e o neopoderoso lobby da maconha nos Estados Unidos, não custará a confessar que fuma muito mais, nem que seja pelo bem da mais nova potência econômica de seu reinado.

Ok. Pouco ou nada disso interessa ao meu leitor habitual, que sendo partidário de um regionalismo umbilical, pouca atenção presta às misérias do mundo, já lhe bastam as suas próprias. Mas devido às minhas mais íntimas instâncias e ao meu circunstancial casamento, meu mundo cotidiano inclui tudo isso que está aí, das cozinhas brancas do Brasil onde cresci ao quintal conflagrado do Oriente Médio onde nasci, suportar, quem há de?

O mundo inteiro está de pernas pro ar, meus amigos, não é só com os absurdos do Brasil que temos de lidar, embora tenhamos em comum com a miséria global a insistência da grande imprensa em nos “educar” o paladar. Tanto o Globo quanto o NY Times advogam total isenção ao conceder espaços de expressão para as piores vozes da atualidade, que, obviamente, e com todo esse apoio de primeira categoria, avançam em seu nobre objetivo de influenciar milhões, os angariando em causa própria. O terror.

Mas vamos combinar que mesmo as vozes mais bacanas, aquelas que ainda leio com mente alerta e algum respeito, têm tropeçado em suas ideias paradoxais, e uma vez disparada a artilharia conceitual, a bala não volta mais. Esta semana, por exemplo, em que no mundo que conta findou-se o inverno, Thomas Friedman confessou em sua coluna no NY Times sua iludida inépcia ao festejar cedo demais aquela outra primavera primordial, que quatro anos passados, ao contrário do que ele preconizou, acabou resultando não na liberdade de expressão, mas em muito mais mortes nos países árabes. Foi a besta que acabou beneficiada, não o pobre cidadão engajado, bem-intencionado, sempre vilipendiado.

Ok. Bem sei que as minhas palavras nesta crônica estão distorcidas, camufladas, enevoadas, mas não se incomodem, não é por causa de nenhum baseado que andei fumando, mas sim porque me custa engolir em seco minhas próprias furadas previsões, um bom-mocismo sem solução que não basta para nenhuma explicação. Shame on me. O mundo anda mesmo difícil de digerir, e de interpretar também.

Só nos resta pular miudinho. E um bom domingo procês.

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