Pobreza americana

mercedes“Na América, os pobres têm carro”, já me dizia o Alan há mais de dez anos, quando a gente se encontrou. Algo meio sonhador, que até poderia incluir um Mercedes dourado, como o que compramos por apenas 5 mil dólares está fazendo um ano, e ainda não está estragado — calculando com base no salário mínimo que descrevo abaixo, apenas dois meses de trabalho americano, e transcrevendo para a realidade salarial brasileira, aí por volta de uns R$1.500.

Será que ainda é assim?

A confiar nos candidatos à presidência dos Estados Unidos, de “ambos os lados do corredor”, a resposta é não. “Os americanos estão ficando mais pobres, e pela primeira vez não deixaremos para os nossos filhos um país melhor do aquele em que vivemos”, dizem todos eles, com poucas diferenças, descontada a violenta ideologia política.

Só que “pobreza”, aqui nos Estados Unidos, é um salário anual de 25 mil dólares, cem mil reais no nosso rico dinheirinho. A “luta” dos democratas em campanha é por um salário “mínimo” de 15 dólares a hora, o que dá mais ou menos uns US$600 por semana, US$2.400 por mês — quase dez mil reais no nosso “rico dinheirinho”!

Isso, contando um dia de oito horas e uma semana de cinco dias, o que, vamos combinar, não é mais a realidade de ninguém. Eu, por exemplo, editora e designer altamente especializada e capacitada, trabalho umas 12 horas por dia, sete dias por semana. Nem vou dizer a quantas anda a minha hora, mas se não fosse por amor ao ofício já estaria optando por limpar casas aqui nos Estados Unidos, embora nesse quesito não tenha a mesma “expertise” da minha faxineira venezuelana, bem ruinzinha por sinal. A 25 dólares a hora.

Tá certo que não se pode levar em conta esse câmbio absurdo, e se “quem não converte não se diverte”, imaginem então quem trabalha em dois países simultaneamente. É de enlouquecer.

Ando esperançosa com os novos planos da KBR internacional, esperança grandemente aumentada desde que encontrei uma parceira local, que compartilha comigo o mesmo amor à literatura mundial, a mesma falta de hesitação quando se trata de enfiar a cara no trabalho (seja a que câmbio for) e a cara de pau de se enfiar em tudo quanto é atalho. Assim como eu, mas com o sotaque adequado, entenderam?

Só que o “modelo” da KBR teve que ser largamente adaptado, e confesso que estou cortando um dobrado para me encaixar na “forma” capitalista de mercado. Na minha “Gestalt” é crime inafiançável pegar dinheiro emprestado, já numa economia capitalista… bem, confesso que não sei o que fazer com juros anuais subsidiados oscilando de 0 a 3%… Ao ano, isso mesmo!

Enquanto isso, no Brasil varonil, vai se confirmando aquele velho adágio que iguala empresários direitos a empresários idiotas, aqueles que nunca, em tempo algum, não importa o talento nem a capacidade de trabalho, farão algum dinheiro caso insistam nessa besteira de permanecerem honestos. É de amargar. Um a um os grandes “capitães de indústria” vão caindo para trás das grades, tendo desvendados seus esqueminhas favoritos de “capitalismo governamental”, ao estilo petista, por favor.

Já nos Estados Unidos está fazendo o maior sucesso aquele candidato de “esquerda” que promete ao povo mundos e fundos, cada vez mais peixe grátis e menos instruções para a pescaria, se é que vocês me entendem: a receita perfeita para a dependência dos votos e a quebradeira do tesouro, quem duvida de sua eficácia pode perguntar à nossa querida Dilma. Fico só pensando como esse “esquema de bondades” funcionaria nos Estados Unidos com o nível de pobreza a 25 mil. Dólares, é claro.

Vamos combinar. Cada vez mais acredito naquele ditado que afirma que “velho que não é de direita não tem cérebro e jovem que não é de esquerda não tem coração”, Arnaldo Jabor que me perdoe (não custa lembrar que Jabor parece traumatizado por ter sido “achacado” pelos filhotes dos bambambãs de direita durante sua adolescência na Flórida nos anos 1950, uma espécie de bullying em vigor já naquele tempo). Estou velha, meus amigos. Acredito cada vez mais no cérebro e na razão, e cada vez menos no “milagre da multiplicação”. Não quero soar cruel, mas ainda acho que o trabalho duro é o melhor caminho para garantir a sobrevivência e todo mundo tem que se virar, dando o seu melhor. Apesar de todas as insistentes evidências em contrário.

Tá certo. Eu não aprendo nunca.

Se tudo falhar, ou quando a velhice atacar, aí, sim, deve entrar algum governo para favorecer o quadro adverso. Mas não para mim, Deus me livre e guarde de precisar da ajuda de algum sistema sócio-assistencialista, coisa mais humilhante, tá doido, sô. Tomara que nos próximos poucos anos que me restam eu aprenda a me virar na economia mais capitalista do mundo (e que o voto a conserve assim, capitalista até a medula de todos os capitais disponíveis), e arranje um jeito de produzir meu próprio pé de meia. Ou de chinelo.

Resta observar que com todo o idealismo obamista, no qual no passado acreditei de coração aberto, sem restrições, a verdade é que não vi o mundo melhorar um tiquinho durante os quase oito anos de gestão do atual presidente, muito antes pelo contrário.

Não estou certa de que o radicalismo de direita seja o melhor caminho, nada disso. Acho a retórica exagerada de Donald Trump um perigoso equívoco, mas não deixo de concluir que não deu muito certo fingir que não vemos o que andam fazendo nossos cada vez mais terríveis inimigos, ou que não entendemos como a justa política de “igualdade racial” pode ter desembocado justamente no seu pior contrário, no maior clima público de divisão e violência dos últimos anos.

Ruim com Obama? Pior com Hillary.

E estamos conversados.

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