Política de proveito próprio

hillaryConforme revelado na semana passada, uma antiga rival de Hillary na busca pelo amor de Bill está saindo do armário de forma bombástica: “Hillary Clinton certa vez chamou crianças deficientes numa festa de páscoa de ‘retardados desgraçados’, referiu-se aos judeus como ‘judas idiotas’ (desculpem, mas não consegui encontrar em português um termo tão pejorativo para descrever os judeus como o que Hillary usou: ‘kikes’),  enquanto Bill chamou Jesse Jackson de ‘crioulo filho da mãe’” são alguns dos “temas” que ela apontou em seu livro recentemente publicado.

No início desta semana, por conta de uma reunião, fui correr mais cedo que o de costume, e em vez dos costumeiros restos humanos da série “Bones” fui forçada a assistir outra série que hoje em dia acho sem sentido, “Supernatural”. O episódio estava na metade, e como não assisto nunca, não dava para entender, só pela aparência, quem era mocinho e quem era bandido na eterna batalha entre o bem e o mal. A certa altura, um dos personagens disse o seguinte: “Bem que eu te avisei que ela era do mal. Você devia ter me escutado. Agora é tarde, estamos lascados. Vai ser um inferno!” Literalmente.

Quando eu era jovem, chegada à espiritualidade — me considerava uma “xamã” e criava “joias de poder”, podem acreditar — e inclinada para o lado da esquerda — que para mim era obviamente o “lado certo” — fiz um juramento para mim mesma de nunca mentir. Funcionou por um tempo, mas tive que cortar um dobrado para me desvincular da minha educação: minha mãe sempre me ensinou que uma “mentirinha carioca” não faz mal a ninguém; e uma tia que sempre considerei minha segunda mãe fez o que podia para destruir minhas “iluminadas” ilusões, afirmando que “neste mundo, só o dinheiro importa”.

Minha tia finalmente venceu. Esta semana, imaginem, fiquei com preguiça de sair lá fora para “comungar” com a Lua Cheia do Solstício. No final das contas, é só mais uma lua cheia.

Tudo bem. Como já insinuei mais acima, meu “juramento” não durou muito. Em certo momento tive uma experiência definitiva, enquanto trabalhava como diretora de arte numa agência de publicidade, numa reunião do tipo “comunitária” que estava na moda naquela época — capitaneada, aliás, pela hoje famosa Regina Navarro Lins, aquela do “poliamor”. Regina nos encorajou a dizer qualquer coisa relativa aos colegas de trabalho que estivesse nos incomodando. Fui a única ingênua o bastante para dizer o que estava sentindo.

Foi um desastre. Embora popularidade nunca tenha sido o meu forte, depois das minhas desajeitadas confissões fiquei mais impopular ainda. Minha presença se tornou insustentável, e acabei saindo da agência.

Hoje em dia, sem nenhum juramento para perturbar, fico à vontade para dizer o que quiser do jeito que eu quiser. Mas ainda luto para desviar o olhar daquilo que considero verdadeiro. Em geral prefiro ser honesta, mas, vamos combinar, isso não tem me ajudado muito. Principalmente se considerarmos que preciso ganhar dinheiro.

No Brasil, país que deixei para trás numa imensa crise política e econômica — eu deveria acrescentar “moral e ética”, mas acho que não daria para suportar —, seria bem fácil entender quem estava do “lado certo”, apesar do barulho feito pela esquerda, “esquerda retrógrada”, como se diz em inglês. Seria impossível para uma pessoa bem-intencionada ter dúvidas sobre se os que são culpados de uma monstruosa corrupção, lavagem de dinheiro (não é de espantar que a ação da Polícia Federal que os está desbaratando seja chamada de “Lava-Jato”) e, pior, de levar o país à bancarrota, são ou não os “caras certos”. Mesmo que a tendência de muitos, particularmente os intelectuais e especialistas, seja para a esquerda, e apesar de a “receita” deles estar claramente falhando. No mundo inteiro.

Entretanto, agora que estou fora de casa, sozinha no imenso e malvado mundo — honestamente, eu não esperava que fosse tão malvado — as coisas já não parecem tão claras. E apesar de me sentir compelida a observar, analisar e emitir minha desinformada opinião terceiro-mundista, estou bem consciente do meu conhecimento insuficiente, do choque que sinto ao ser todos os dias confrontada com a hipocrisia, de minhas surpreendentes reações automáticas que sinto vergonha de compartilhar no Twitter. O que, é claro, faz de mim uma hipócrita a mais.

E aqui estamos. Esta é uma semana crucial para o destino do mundo, com a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia. O resultado parecia duvidoso, principalmente depois do indubitavelmente horroroso assassinato da parlamentar inglesa Jo Cox, que tornou todas as opiniões contrárias ao que ela advogava monstruosamente erradas. E mesmo que eu tenha poupado os meus leitores da minha opinião politicamente incorreta, por conta da qual eu mesma me odeio até esquecer que existo, ainda assim a saída da Europa venceu o plebiscito.

Como uma eterna estrangeira neste imenso e malvado mundo, me sinto como um morcego, voando no escuro e contando apenas como a minha bússola interna para me orientar. E pior, prestes a me transformar em vampiro. Infelizmente, essa tétrica escolha não é exclusividade minha. O famoso Airbnb, por exemplo, considerado a “joia da coroa da nova economia”, está sendo asperamente criticado porque alguns de seus associados se recusam a alugar suas casas para certos pretendentes; mas, vamos combinar, ninguém pode ser forçado a receber em sua própria casa alguém de quem não goste. No campo do social, pega mal denunciar alguém com base em suspeita de “raça”, mas, por outro lado, se o FBI não tivesse dispensado a ficha de Omar Mateen, o ataque de Orlando talvez não tivesse ocorrido. Morcegos. Vampiros. Sabem como é.

Voltando a Hillary: no final das contas, você votaria numa pessoa que oculta seu racismo para conquistar o voto dos “moralmente superiores”? Ou seria melhor votar em alguém que usa em seu discurso um racismo que não sente, só para conquistar o voto da escória americana? Escolha difícil.

Enquanto isso, correndo na esteira (a uma velocidade bem superior do que na verdade aguento, devo admitir), escrevendo este texto na cabeça e assistindo a “Supernatural”, tudo ao mesmo tempo, não admira que acabei me distraindo e nem percebi quem venceu a honorável batalha do bem contra o mal. Super natural, não é? Acontece o tempo todo no nosso multitarefa, palpiteiro e excessivamente conectado mundo sem fronteiras, e muito menos limites.

***

Uma nota: embora a crônica já estivesse pronta com o título “Todo mundo mente”, acabei inspirada pelo slogan de Donald Trump num de seus discursos esta semana, no qual ele acusou Hillary de praticar a “política do proveito próprio” enquanto estava a serviço do país como secretária de Estado do governo Obama. Francamente, nós, brasileiros, podemos ensinar aos americanos uma coisa ou duas a respeito dessa tal política, que de um jeito ou de outro sempre termina mal.

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