Pombas e falcões

Aplomado falcon_Dennis DowSTAMP400Onírica nefelíbata gaivota/ Ondula sobre os mares sua derrota.
Ulisses, James Joyce, tradução Antônio Houaiss

“Por 12 anos estivemos construindo esses túneis e esperando o momento certo, quando estaríamos treinados e prontos. Decidimos que esse momento seria o Rosh Hashaná [ano novo  judaico] de 2014, porque a maioria dos soldados iria para casa (…). O Hamas inteiro entraria nos túneis para capturar Israel. Por cada túnel enviaríamos duas, três dúzias de terroristas armados que sequestrariam civis, mulheres e crianças, e os trariam para Gaza, então Israel não poderia bombardear os túneis por causa de todos os civis lá dentro. E desta forma ocuparíamos o país inteiro e governaríamos Israel e mataríamos todos os sionistas. Planejamos isso durante anos, e estava para acontecer dentro de dois meses. Os ataques em Gaza destruíram nossos planos”, diz um email que circulou esta semana, com esse depoimento de um  militante do Hamas feito prisioneiro (o  texto original em hebraico, mas li em inglês).

Pois é. Bem que eu tinha planejado escrever esta crônica com o cessar-fogo ainda em vigor, mas parece que não vai acontecer. Pena. Sofro. Por outro lado, 32 túneis foram destruídos, e isso não há como reverter.

Tá bem, vocês podem ir logo dizendo que não se pode confiar no que circula na internet, e eu concordo, em gênero, número e grau, vejam, por exemplo, o “terrorismo de Wikipedia” perpetrado pelo PT, imaginem, que mandou gente “invadir” os perfis de jornalistas e alterar os dados que estavam lá criticando o governo. Não sei se este mundo está mesmo perdido, parece que sim. Mas quanto ao Brasil, não tenho dúvidas.

Já essa coisa de “pombas e falcões” — escovando o português, “gaivotas e gaviões” —, vou explicar, é como sempre se dividiu tradicionalmente a política de Israel, desde os tempos de Ben Gurion. Ao contrário das tendências totalitaristas da vizinhança, Israel sempre professou uma democracia radical, mesmo ao preço de tornar-se perigosa para a sua própria sobrevivência, como agora, por exemplo, quando apesar do inimigo belicoso há ex-soldados que criticam abertamente o seu próprio exército.

Não sei se vocês sabem que onde há dois judeus há três partidos políticos, e isso é tão verdade que até na mínima comunidade dos meus tempos de Belo Horizonte, pasmem,  havia dois clubes e duas sinagogas. Meu avô, amigo de Tancredo como já disse, e está na hora de lembrar, era líder de um deles, o mais “progressista”, gosto de acreditar, mas certeza não tenho.

Como todo mundo sabe, sempre pendi para o lado das “pombas”, defendendo meu ponto de vista com unhas e dentes e uma porrada ocasional, quando o lado oposto, no caso, meu marido republicano, abusava de seu direito de insistir em ser racional, como na(s) eleição(ões) de Obama, por exemplo. Teve muito arranca-rabo aqui em casa.

Mas esta manhã, pensem bem, estava pensando em que se fundamentam esses dois conceitos, digo, pássaros no céu. E “pomba”, pasmem, pombas! Em qualquer idioma que se analise… tem a ver com ingenuidade, idiotice. Por que será? Segundo o velho Aurélio, e isso está no meu livro Santa Molly — escrevi, mas na época não percebi, pomba ou gaivota [gull], não importa, foi o que Joyce quis dizer de qualquer maneira —, “pomba” em português tem também o sentido figurado de “pessoa ingênua, sem maldade”. Sem maldade? Na Bíblia, no Livro de Oseias, que segundo os evangélicos expõe o “coração de Deus”, aparece o mesmo conceito, vejam só: “Ephraim é como uma pomba, bobo e sem noção”, tradução livre, claro.

Pomba da paz, então tá.

Pois o mundo, meus amigos, está eivado de maldade. Infelizmente. E quem andar por aí propagando que isso não é verdade, estará apenas se iludindo. Quem acredita no papel de “agressor” atribuído pela mídia ao Estado de Israel pode ver na história dos túneis o que há por trás. Pois é. Há sempre alguma coisa por trás do bem e do mal.

Tem ainda essa tendência a favor da maldade, que, sinceramente, não sei de onde vem. Será que estão certos também os propagadores das várias teorias de conspiração? Isso eu tampouco sei, mas tudo, absolutamente tudo que vemos e lemos hoje em dia — embora eu deteste essa ideia do absoluto e “sempre” e “nunca” sejam palavras-chave que sempre (!) corto nos textos que edito —  é manipulado por quem publica.

Nesse caso de Gaza, por exemplo, duvido que alguém tenha visto um certo vídeo de um jornalista indiano, gravando ao vivo, por trás da cortina de seu quarto de hotel, a instalação de um disparador de mísseis no coração de um bairro chique de Gaza povoado de civis, é isso mesmo, bairro chique, à beira-mar cheio de palmeiras, parece o Leblon. Mostrar apenas aqueles escombros — destruídos pela guerra, é verdade, mas, bem, trata-se de uma guerra — todos amontoados é como dizer que na Zona Sul do Rio só existem favelas. E não estou inventando nada, taí no link para todo mundo ver, apenas “escolhendo” o que quero mostrar, manipulando, entenderam?

O mito da “pomba”, vamos combinar, teve seu supremo altar na era hippie que imperou na minha juventude, vocês se lembram, a turma da “paz e amor”. E no meu caso, não tenho como negar, foi o que me fez acreditar na “Nova Era” de Obama, depois de ter acreditado piamente em todos os mitos da clássica Nova Era, aquela em que a paz haveria de imperar. Não rolou, ao que parece. Só nos resta lamentar.

Ou então, em último caso, já que alertas não têm nos faltado, acordar, deixar de lado essa bobagem de pomba, pois só falcões muito bem treinados podem nos salvar. Depois, talvez, muitos anos depois, e nem assim estou mais propensa a aceitar, a gente possa de longe pensar que o ser humano criará vergonha na cara e deixará de lado sua violência nata, desesperada e desesperadora, que Rousseau que mané que o quê. Tudo isso não passa de vã filosofia, vamos combinar. E pelo visto, é o que de fato nos impede de voar.

O preço da nossa liberdade, infelizmente, é a eterna militança.

E um bom domingo procês.

 

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