Ponto de corte

Cientista anuncia a mudança no "Relógio do Apocalipse" esta semana.

Cientista anuncia a mudança no “Relógio do Apocalipse” esta semana.

Eu via de costas os dois meninos da mesma altura, vestindo casacos, sentados no balcão de bar. À frente de cada um, um copo vazio de milk-shake. Pensei se teriam dinheiro para pagar a conta, e no sonho mesmo já fui percebendo a minha dificuldade de absorver a passagem do tempo, tudo tão corrido… Meu irmão e meu primo. Os dois, hoje, com 60 anos de idade, nossa mãe.

Não são os únicos. Tive notícias esta semana de uma tia de quem sempre gostei, irmã do meu pai, e tentei calcular (da última vez que a vi fazia bodas de ouro no moshav[1] onde mora com o marido, em 1998, junto com os 50 anos da fundação de Israel): deve estar perto dos 90. Meu tio capricorniano fez 90 também, e a lista poderia ser longa, sabem como é, na vida só se tem duas opções: morrer cedo ou envelhecer, e ninguém deseja de verdade a primeira, não é mesmo?

Mas não é disso que quero falar, e sim da pressa que o tempo tem de passar, deve ser coisa da velhice, sei lá, embora eu tenha retomado esta semana o hábito de me exercitar, tendo até arriscado uma breve corrida, algo que pretendo manter daqui para frente… desde que me meti nessa empreitada de editora tenho estado num sedentarismo de fazer vergonha à malhadora que sempre fui, digo, que fui até há uns 10 anos, e cá entre nós, é tudo mental, 40 minutos por dia não sabotam a agenda de ninguém, não é mesmo?

O caso é que um dos efeitos mais marcantes da minha mudança de hemisfério é que desde que cheguei a Greenville, não sei por que (a diferença de horário agora é só de três horas, e quando cheguei era uma hora só), perdi completamente a noção do tempo. Meu ritmo circadiano está radicalmente alterado, e fico ligada o tempo todo no horário do Brasil, onde ainda se localiza o meu expediente diário. Não consigo saber as horas sem conferir na tela do computador, acordo tarde, trabalho até muito tarde e custo a adormecer, eu que sempre acordei com os passarinhos…

Bons tempos? Não sei. O que sei é que quando mais nova “tudo o que eu queria nesta vida” era conseguir dormir até meio-dia… quando viajava com a turma era sempre a primeira a acordar, ficava horas sozinha, uma chatice… que dominei na marra quando comecei a malhar: chovesse ou fizesse sol às sete já estava na academia.

Pois nem tudo que escrevo segue o “impulso do momento”, e eu estava esperando o “ponto ideal” para escrever a última crônica do meu próximo livro — que já tem capa e tudo, apressada, sabem como é, isso parece que não muda nunca —, um evento que se repete anualmente entre janeiro e fevereiro desde 2009 mais ou menos,  após o qual em geral me concedo um intervalo na lida (sem trocadilho), umas curtas férias de escrever e constantemente me retroexaminar em público, para o deleite de vocês, ou tédio, digam aí sem medo.

Mas tudo tem se atropelado tanto em todas as crônicas deste mesmo livro, o mundo tem se atropelado tanto e atropelado tanta gente, ou tanto a gente, que eu estava, me desculpem a comparação, que nem a descrição que a jornalista Miriam Leitão fez certa de vez de Dilma Roussef, se não me engano ainda na primeira eleição, sei lá, passou tão depressa, ela disse que a candidata a presidente “não tinha ponto de corte”, um termo do jornalismo televisivo que descreve uma pessoa que “não para de falar nem para respirar”, uma contradição, eu sei, visto que ultimamente o povo tem reclamado que a presidente não está falando nada, vai entender, deve estar pasma, sem nada pra dizer.

Deus me livre. Depois então que li no jornal que a espetacular estadista redentora do nosso Brasil deixou de ir a Davos para estar presente na posse de Evo Morales, não mereço nem sequer ventilar tal absurda comparação.

Esperei chegar ao limiar de a obra da nossa casa começar, mas nos últimos dias esse mágico dia tem me parecido cada vez mais longe, e achei por bem liberar, deixar a expectativa maturar. Mais ainda quando o sonho da noite passada me alertou, ou me fez encarar, sei lá, a pressa do tempo, que, por mais que eu me apresse, insiste em me ultrapassar.

Francamente, amigos e clientes, estou precisando urgentemente das férias que não vou tirar, não se preocupem, porque com a tal mudança de hemisfério já foi muito tempo perdido, e tempo é um luxo a que não me posso dar, pelo menos enquanto a bendita obra não deslanchar, quando então, se tudo de repente se transformar (ou se nem tudo, ao menos o modus operandi da minha mente, que felizmente terá se tornado mais otimista, mais confiante no… que futuro?), terei tantas coisas boas para compartilhar, a não ser, é claro, se o “relógio do Apocalipse” decidir finalmente se adiantar os últimos três minutos que faltam para a meia-noite nuclear, toc toc toc.

Falar nisso, enquanto escrevo neste exíguo apartamento, Alan, como é de praxe, assiste ao noticiário na TV no mesmo e único ambiente onde há um lugar para se sentar, e acaba de me informar que o governo do Iêmen acaba de renunciar — depois de anunciar a renúncia no Facebook (?), confiro no NY Times —, deixando o espaço vago para a ascensão da Al Qaeda ao poder, patrocinada pelo Irã, auspiciosas notícias, seguidas de um anúncio de pizza. Tutti buona gente, hamdullah.[2]

Bom domingo e tchau procês.

 

[1] Espécie de fazenda coletiva, porém mais aberta que o kibutz.

[2] Do árabe “Graças a Alá”.

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