Preconceito no banheiro

Bem esquisita essa associação, ou será que não?

Bem esquisita essa associação, ou será que não?

Vou começar dizendo que não tenho o menor problema em dividir o banheiro com um ser masculino, desde que ele seja limpo e atencioso e maneje com habilidade o tampo do vaso sanitário, sabem como é. O que, por sorte, é o caso aqui em casa. Caso exista qualquer intenção de num futuro socialmente mais justo unificar os banheiros públicos, eu aconselharia que se estabelecesse uma espécie de multa significativa para evitar tais possíveis delitos, e vamos em frente. Não me incomodaria em nada eliminar esse tipo ultrapassado de preconceito sanitário, que acabou se revelando uma questão tão perturbadora para tanta gente.

Agora, já que escolhemos morar na Carolina do Sul, a apenas 40 minutos de carro da fronteira da Carolina do Norte, acredito que isso pode nos definir como “porcos fascistas de personalidade limítrofe”, ops, desculpem aí, porquinhos. Pouco importa se nos mudamos pra cá porque nosso filho mora em Charleston, que é aqui pertinho, ou porque Greenville é uma cidade em ascensão, com excelente qualidade de vida. O que interessa de verdade é que o governador da Carolina vizinha é um monstro imbecil, um fanático desprezível que odeia gays — sim, escolhi este termo odioso, altamente preconceituoso (ou não?) por um motivo em especial, você pode especular qual, não estou nem aí. Voltando ao governador, cujo nome nem sei, já deve ser de conhecimento geral que ele acaba de aprovar uma lei proibindo os transexuais de usar o banheiro atribuído ao sexo que ambicionam, ou pelo menos foi o que entendi. Mas posso estar enganada, poderia muito bem ser o banheiro contrário, não é? O que não dá para contestar é que se trata de um tema bastante controverso, para todos os envolvidos e também para nós, os excluídos não-LGBT.

A verdade é que qualquer conclusão nessa direção preconceituosa estaria completamente equivocada, já que me considero razoavelmente aberta e disposta a respeitar a individualidade alheia, desde que não afete a minha própria. O que também inclui, é claro, certo nível de tolerância partidária. No meu círculo íntimo da família e amigos, por exemplo, temos de conservadores a partidários de Bernie Sanders (não eu, pelo menos ainda não), passando por vários graus de moderação.

Mas não no Brasil. Se podemos neste momento descrever os EUA como um país altamente polarizado, imaginem então o Brasil, onde pessoas em lados opostos do espectro político têm se aproximado perigosamente das vias de fato. O que, francamente, não é o pior.

Analisemos, por exemplo, três pessoas que no passado eu admirava, uma espécie de “mentores literários”, por assim dizer. Um deles acabou se opondo publicamente ao Estado de Israel baseado unicamente em slogans amplamente divulgados do movimento “boicotista”, o BDS; já o segundo se posicionou fortemente a favor do PT, e aqui um parêntese se faz necessário.

Como vocês bem sabem, eu agora só escrevo em inglês, e por aqui sempre traduzem “PT” por “Worker’s Party”. Mas eu prefiro escrever PT Party mesmo, que soa exatamente como “pity party”, traduzindo livremente, uma “situação lastimável”, não que meus “novos leitores nativos” entendam a insinuação. Fim do parêntese.

Pois o segundo amigo se posicionou fortemente a favor do PT, que agora está lutando para desacreditar provas judiciais da arraigada rede de propinas e outras práticas corruptas que se tornaram regra em nossas instituições governamentais. O que, até o momento, resultou numa crise econômica, política e moral sem precedentes que, segundo o Washington Times, coloca o Brasil “à beira do precipício”, sem solução à vista. Fiquei tão triste com esse posicionamento de meus antigos amigos que ficou difícil abordar o assunto sem cair em depressão, situação mais agravada ainda por meus sentimentos de inadequação e minha incapacidade de reagir com eficiência, isto é, no sentido de mostrar a eles como estão errados.

O que me lembra um sonho que tive há mais de 40 anos, logo após a morte prematura do meu pai. Eu tinha levado um parente ao aeroporto e estava voltando para casa numa estrada reta, desimpedida, quando apareceu de repente um enorme caminhão na contramão. Com uma placa de contramão no lugar do retrovisor. Não por acaso, é a descrição quase exata de como meu pai morreu: num acidente de carro, atingido por um caminhão que vinha na contramão, dirigido por um motorista bêbado. No sonho, fui parada por um policial vestindo um uniforme da Revolução Francesa, que me disse para sair do carro e em seguida me perguntou se “eu tinha uma criança ou uma pessoa doente para cuidar”.  Eu sabia que a resposta era “não”, mas fiquei tão confusa que comecei a chorar e fui incapaz de responder.

De volta à vida real. Curiosamente, meu terceiro amigo publicou esta semana uma descrição de como vem enfrentando seus próprios amigos, que, como os que mencionei acima, exibem um apoio injustificável a este governo e seus autoritários, ops, e suas autoridades, acusadas de corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros crimes graves. Fiquei surpresa e emocionada também, devido ao fato de a situação ser tão semelhante ao meu sonho do passado. No mesmo artigo meu amigo também acusou o ex-presidente Lula de tê-lo empurrado para a direita contra a sua vontade, um crime que ele confessou ser incapaz de perdoar, o meu amigo, digo. Eu tampouco consigo perdoar.

Para aliviar, meu sobrinho de 24 anos me contou no outro dia que, apesar de as discussões políticas serem bastante violentas no Facebook, na vida real as pessoas raramente falam desse assunto, se limitando a beber e se divertir.

Concluindo, não deve ter sido coincidência o fato de inconscientemente eu ter escolhido morar num estado conservador, embora ignorasse completamente esse lado quando compramos o lote em Paris Mountain: o que nos atraiu de verdade foi o belo horizonte, a proximidade com nosso filho e o clima bastante agradável na maior parte do ano. Culpem-me se quiserem.

Sinceramente, mesmo correndo o risco de ser injusta por estar roubando o lema do recente ataque terrorista na Bélgica, uma situação muito mais penosa, moi aussi, je suis cansada dessa m… ops, dessa situação toda. Para nem mencionar que um padre foi supostamente crucificado no califado na Sexta-Feira Santa. Mas pode ser tudo mentira, sei lá.

Cotidianamente, na verdade, gosto bastante da diversidade: tenho que confessar que, ao contrário da massa de americanos, gosto de comer muesli com leite antes de dormir, e daí? Nem vou me arriscar a acusar determinado grupo de imigrantes por bagunçar a lavanderia do nosso condomínio, já que na verdade não os peguei no ato. Ainda. Pode muito bem se tratar de  brasileiros como eu, embora eu nunca tenha encontrado nenhum brasileiro por aqui.

Quanto à minha própria condição de imigrante, vocês podem até dizer que “estou ficando americanizada”: além de escrever em inglês, este ano fui poupada daquela incômoda coceira de primavera que me acometeu no ano passado, meu primeiro em solo estrangeiro.

 

 

2 Responses

  1. Clara A. Colotto says:

    Essa crônica é fabulosa. Genial. Faz rir e dá vontade de chorar pelos comentários tão oportunos mencionados. Muito obrigada Noga!

  2. Noga Sklar says:

    Eu que agradeço, Clara querida!

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