Próximo e pessoal

Salman Rushdie em 1988, com o livro que quase lhe custou a vida e acabou lhe custando seu modo de vida

Não sei se vocês se lembram, mas para mim foi marcante e muito chocante a sentença insultante que o aiatolá não-sei-qual desferiu sobre Salman Rushdie, em 1980 e alguma coisa, taí a importância dos aiatolás e que tais que nem lembro nome nem data, fodam-se eles e as mães que os deram sem luz, sabem como é, são a vanguarda do retrocesso, fatwa neles! Feitiço contra feiticeiro e não se fala mais nisso!

Rushdie e seus Versos Satânicos, porém,  são inesquecíveis, e por isso não hesitei um tico em baixar no meu Kindle, na versão original, o novo livro do autor indo-inglês, Joseph Anton. Eu tinha lido os Versos, e em português, versão de Portugal se não me falha a memória e antes que fossem “proibidos”, mas que merda é essa de tentar proibir livros? Tá certo: bem poucas pessoas neste mundo arriscariam seu lindo pescoço por causa de um livro, e, hum, bem, gosto de pensar que estou entre elas, mas voltando às poéticas satanices, eu não sabia que os tais “versos satânicos” existiam no próprio Alcorão, e foi de lá que Rushdie os tirou. Aprendo isso entre outras saborosas sandices e alguma sabedoria relativa à maneira como Mohammed ou Muhammad criou sua religião, entre outras coisas considerada por Rushdie fantástica por pertencer a um tempo histórico, quer dizer, quando Maomé foi à montanha já existia a escrita e, bem, a divulgação para a imprensa. O resto é história, como Rushdie explica muito bem, e até aí tudo bem.

Do que me lembro nos Versos é uma passagem divertidíssima onde os acólitos de alguma seita maluca — caramba, é a segunda crônica seguida em que recorro a tais termos religiosos, Eliete Costa, minha grande descoberta literária desta semana, diria que apaguei Deus da minha vida mas tenho um trabalho danado em mantê-lo cotidianamente adormecido, será? — frequentam, como se  um templo fosse, uma boate onde queimam todas as noites até o talo uma “deusa de cera”, sob os apupos ensandecidos da turba concentrada, ui, só agora percebi isso, será que isso nos lembra alguma coisa? Loucura, sô. Literalmente.

Assim fui me deliciando com o livro num tempo admirável onde a revolução digital tornou impossível qualquer condenação de qualquer livro, se é que vocês me entendem. Em tempos de internet, não seria viável manter Rushdie entocado por oito longos anos, a gente logo abriria uma conta no Twitter e derrubava em três tempos essa assunção ridícula de que um homem qualquer tem poder sobre outro baseado na “palavra de Deus”, ora, façam-me o favor, pior ainda se a palavra de Deus se traduzir naqueles tempos bíblicos de horror e de olho-por-olho dente-por-dente, mas o que é isso, minha gente? Estamos no século XXI ou ainda naqueles tempos em que ler era coisa das elites?

Falando assim, até parece que não tenho crítica nenhuma ao livro de Rushdie, mas, bem, vocês sabem que se fosse assim eu não dedicaria a ele uma das minhas preciosas diatribes de domingo. Fui prosseguindo no livro até que a parte histórica — da criação do islamismo, digo — termina e começa a parte histérica, a da fuga de Rushdie pra longe da sentença de morte por não sei bem quantos anos ainda, nem bem pra onde, acho que foi se refugiar nos Estados Unidos — a Meca da liberdade de expressão, como todos sabem, primeira emenda e tudo o mais — e sob um nome falso que no livro a gente aprende que é um casamento informal entre Conrad e Tchekov ou sei lá como se soletra isso, o que me lembra o veto à grafia brasileira de Dostoiévski por uma de minhas autoras recentes, mas isso não tem nada a ver com a história.

Antes de descambar na mordacidade ainda tenho que contar que curti bastante o fato de aprender que uma das melhores amigas, editora e protetora de Rushdie é a nossa Liz Calder, a quem conheço pessoalmente e que além de outros famosos atos de magia — que a deixaram milionária, vamos combinar, e como todos sabem não estou falando da excelente literatura pregressa de Rushdie, infelizmente, boa literatura não faz o pé-de-meia de ninguém — foi a criadora da FLIP, um festival brasileiro de literatura pra ninguém botar defeito, a não ser os autores que são recusados de jeito, claro, entre eles esta que vos fala. Ufa.

O problema do livro de Rushdie, que além do excesso de trabalho me fez deixar de lado a leitura passados uns 20% — é assim que se conta o tamanho de um livro nesses admiráveis tempos de Kindle —, foi que a fatwa, aparentemente, apesar de ter deixado ileso seu alvo mais premente, mirou no que viu e matou o que não viu, muito mais importante, aliás: o talento literário de Salman Rushdie, RIP. Nossa, me deu até vontade de chorar agora, pela eficiência oculta dos filhos-da-puta. Ai, que meda.

Em Joseph Anton – a memoir, um livro de memórias como o próprio título diz, a gente fica sabendo que o inapagável mar de histórias de Rushdie estava sempre resvalando no pessoal mas evitando obsessivamente a proximidade radical. O delicioso Haroun, por exemplo, é o nome do meio do filho do autor, Zafir ou Zafar, ele próprio, hoje homem feito, curtindo uma fossa pela homenagem truncada de seu pai, imagino, sobreviva-se com um trauma desses. Mas isso ainda não é o pior.

O que derruba inapelavelmente o livro é o fato de que as memórias do escritor, públicas e notórias com exceção de alguns detalhes que poderiam soar picantes, são escritas em terceira pessoa, e nem o nome da peça é usado no texto, é sempre “ele”, um “ele” que tem vergonha de ser “eu” ou que por soberba oculta evita a carapuça inevitável de suas lembranças factuais, e isso resulta no típico feitiço triplicado contra seu malfadado feiticeiro: segundo o autor, a opção por terceira pessoa foi para provocar “distanciamento” e evitar uma “egotrip” que acaba radicalmente tomando conta do livro, bem melhor seria, vamos aconselhar, vestir a fantasia de vez. Na KBR, não passaria.

O que me leva à razão última de eu descrever — hoje, pra vocês — este franco ato de feitiçaria que é a heroica prática do limbo diário literário, no meu caso, nada de ego ou viagem, mas, simplesmente, a confissão escrita de uma vida loucamente sentida: relançarei esta semana, no dia 15 de novembro, para ser bem exata em todos os sentidos, 8 anos depois de vivida e 4 depois de escrita, a minha saga erótica na internet, com a qual, espero, me alçarei à altura da pornografia consentida que tem tomado conta de nossas prateleiras ultimamente, e vocês sabem do que estou falando.

Lá, ao contrário de Rushdie, dou nome a todos os bois, entre eles, o meu, o de Alan, o da xoxota, da vulva e o do pau duro, um dentro do outro pressionando inextrincavelmente como ocorre em qualquer transa erótica que se preze, sem orgasmo fingido, façam-me o favor: é meu livro pulsante e verdadeiro, sob o nome completamente explícito de sem graus de separação, que se eu tivesse prestado atenção, descreveria o longo e conturbado relacionamento de amor que se seguiu, resumido numa única frase emitida lá pelo meio do texto pela minha outra metade: “O que tem para o jantar?”

É isso aí. Divirtam-se. E enquanto o gozo não vem, desejo a vocês um bom domingo. Fui.

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