PT, saudações

jackmaPara o Beto Lansky, de quem me lembro muito bem.

Há coisa de um ou dois dias me deparei com um post no Facebook de um amigo americano: “Alguém aí sabe alguma coisa sobre o IPO do Alibaba?”

Fala sério. Na minha cabeça, que quando se trata de saber o que os outros estão sabendo, ou pensando, ou entendendo, infalivelmente se equivoca, evoca um desconhecimento abstrato, não existe ninguém neste mundão de gente “conectada” que desconheça a famosa e tão recontada história das 1001 Noites, “Ali Babá e os quarenta ladrões”, principalmente no Brasil, é claro.

Pois também desta vez eu estava enganada. Alan me informa que a leitura obrigatória do clássico persa foi substituída pela Disneylândia há mais de 40 anos, e pelo que se tem visto no mundo, ele não está errado. Já o brilhante empresário chinês cujo nome não sei, e é melhor não saber para não ser processada, tenho certeza de que está muito bem-informado, tendo escolhido a dedo o nome do seu “império” conectado, agora também multibilionário (tornou-se esta semana, graças a Wall Street, uma “parede” como o próprio nome diz, o “segundo homem mais rico da Ásia”) e rindo por todos os buracos de seu rosto desdenhoso, hilário. E até bem simpático, uma característica indispensável para os… deixa pra lá. Menos no Brasil, é claro.

Taí: enquanto todo mundo se distrai com a epidemia de Ebola e as decapitações de americanos no “Estado Islâmico”, que, aliás, não nos dá a menor bola, os chineses acabam não só de invadir, mas de comprar a América pelo seu calcanhar de Aquiles: a febre de consumo. Ah, é, ninguém mais sabe o que é “calcanhar de Aquiles”! Vão pensar que é algum produto novo à venda no Alibaba!

Mas agora, falando sério, tem uma coisa que aprendi quando era menina, pois é, naquele tempo em que a gente ainda aprendia muita coisa: se alguma coisa parece suspeita, é porque é!

“Você compraria ações de Ali Babá?”, perguntei, desta vez no meu próprio Facebook. E um amigo de infância, meu colega da escola primária em Belo Horizonte, prontamente respondeu: “Por que não? Eu comprei ações da Petrobras!” Touché.

Voltando aos sinais, quando eu “era” xamã, aprendi que tudo que a gente via na rua era sinal de alguma outra coisa certamente mais profunda e importante, bastava “aprender a ler” os tais sinais. E como tudo o mais que eu aprendi na minha longa, eclética e movimentada vida, isso também é verdade, vejam, por exemplo, a Petrobras, com aquele olho esquisito de seu leva-e-trás. Francamente, essa nem Harry Potter deixaria passar.

Claro que muita gente vai reclamar, dizer que sou uma pessoa horrível, impiedosa e preconceituosa, não ligo, tô nem aí. Se com toda a feiura de que não tem culpa o sujeito fosse uma doce criatura, eu obviamente não estaria escrevendo nada disso; ou se os chineses, outro exemplo, nunca houvessem envenenado pasta de dente e brinquedo de criança, ou falsificado por tantos anos tudo o que aparecia no universo operacional, eu jamais difamaria sem prova jurídica o seu novo herói nacional.

Isso, pra nem mencionar aquele mais recentemente divulgado “consultor financeiro do PT”, Claudio Mente, não, gente, é o nome dele de verdade — como disse aquele mesmo colega primário, digo, da escola primária, o Brasil é o país da piada pronta! E também nisso a nossa imprensa é imbatível, embora seus trâmites investigativos aborreçam a nossa presidenta, em breve ex.

O que me leva ao outro tópico desta crônica, que era para ser doce, não tonta: o proverbial bom humor e “olho vivo” do brasileiro querido. Pois é, depois de velha dei para escrever crônicas “divididas”, reparem não, é a aflição da partida, ou se quiserem, do “autoexílio”, coisa que está se tornando comum, imaginem que outra amiga, desta vez colega da faculdade, me confidenciou que está de mudança para a Austrália! Está generalizada a bandalha, digo, a debandada. Percebam que envolve apenas a geração passada, daqueles entre nós que eram obrigados, coitados, a ler e aprender tantas coisas chatas e ultrapassadas, como as clássicas 1001 noites, por exemplo. Nem vou mencionar a sugerida edição de “James Joyce para crianças”, que absurdo, nossa mãe.

Como todo mundo ainda não sabe e já cansei de não contar, Alan e eu vamos nos mudar no dia 3 de outubro para os Estados Unidos, pois é, desta vez tô indo mesmo, não é factoide, minha gente, meus caros amigos. Já compramos a passagem. E como acontece quando morre alguém querido, não dou um mês para ter esquecido todos os pruridos, a roubalheira, o ódio à Oi e ao PT e a não sei mais o quê que me obrigava a reclamar por histéricas horas no telefone, e mais ainda os ícones deste governo diariamente derrubados, tão óbvios que chegam a ser caricatos, “o Chico sabe”.

A gente nem consegue acreditar de tão na cara que tudo está, sempre esteve, vamos combinar. Só não acreditamos porque era coisa demais em que se acreditar, e a mente se recusa, teimosa feito uma mula empacada, a se entregar.

Pois na minha memória da “pátria amada adorada”, do meu “solo mãe”, tenho certeza, restará apenas a doçura do brasileiro, a boa índole, a honestidade da nossa gente incomum, deste povo que, como me contou no outro dia o novo proprietário da nossa casa, ele mesmo uma doce e empolgada pessoa, faz a gente ir às lágrimas com seu empenho em crescer, melhorar, se o governo não atrapalhar, é claro.

E é só o que o governo tem feito, desculpem, mas o malfeito ainda não morreu por isso posso deplorar, espero que o matemos sem dó nem piedade daqui a apenas dois domingos.

Quanto ao mais recente “escândalo” do IBGE, sei muito bem o que dizer antes que a minha boca seja para sempre silenciada, ou morando no bem-bom do exterior eu não me interesse em criticar mais nada, do que duvido muito. De duas, uma: ou a petralhada meteu a colher autoritária para se beneficiar, ou como, no final das contas, a correção não os beneficiou em nada, é a outra coisa que ainda não comentei.

Imaginem que na sexta passada eu estava no Horto de Itaipava tomando uma cerveja com uma amiga e colega de infortúnio, digo, de profissão, quando ela comentou comigo o que significava na verdade, no papel, no vamovê, o tão falado “aparelhamento do PT”. Pois me contou que eles invadiram as universidades, as posições de destaque, os cargos não só de confiança, mas também de mérito e conhecimento, com demanda de perseverança, e neles fizeram a maior lambança, rima maldita — categoria em que penso que também se encaixe o IBGE. Seu diretor, confrontado ao vexame — o timing  foi perfeito, vamos combinar — se diz “desconfortável” com o erro, como tantos expostos neste país. Se fosse no Japão, haveria uma onda interminável de haraquiris (não é um drinque com cachaça), lá não tem essa de “acabar em pizza” como tem por aqui. Por outro lado, também não conhecemos a fundo o humor japonês, não é mesmo? Só aqueles loucos HQs.

Era hora de ir. Levantei-me da mesa e não tinha dinheiro pra pagar a conta. Minha amiga me disse que fazia questão, mas eu fazia também, de convidá-la para aquela mísera cerveja, digo. Fui até a delicatessen onde compro tantas delícias e sou amiga do rei, digo, de algumas das pessoas mais dedicadas que conheci aqui, peguei uma grana emprestada que adicionei à minha conta — pendurada, mas sempre pontualmente depositada — e voltei ao boteco para saldar a minha dívida, sob o olhar espantado da minha amiga, vocês me entendem, ela é novata nas regras do paraíso de Itaipava.

É desse Brasil que terei saudades, pois na América tenho certeza de que os relacionamentos que criarei não hão de ter essa franqueza, essa graça, essa intimidade espontânea, essa malemolência que é coisa só nossa, com ou sem o odiado PT, saudações.

E um bom domingo procês.

Publicado também aqui

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *