Quarenta anos no deserto

redmoonmc2Nesta segunda, como vocês sabem, nós judeus comemoramos a nossa Páscoa, aliás, o que estou dizendo, a Páscoa de todos nós, aquela que bíblica e historicamente mudou o destino de boa parte da humanidade — a parte boa da civilização contemporânea, eu diria, se não houvesse a obrigação de ser politicamente correta, pelo menos a parte do planeta conhecida como “ocidental”, onde o sol sempre se põe.

E onde também, Alan me informou indagorinha, felizmente a tempo de ainda incluir na crônica, veremos na madrugada de terça  a rara “lua de sangue”  “red moon rising”, ele alerta, desta vez se  referindo à preocupante ascensão de vocês sabem quem. Será que conseguiremos sobreviver? 

Fosse em outros tempos e eu já estaria me preparando para a “intensa grande cruz em signos cardeais” que dominará os céus, e que se sobrepõe exatamente à minha. Nossa. Não estou suportando me manter cética, até enviei um email de emergência para a minha “astróloga de plantão”, tá feia a coisa.

Nesse dia, há mais ou menos 1981 anos, o jovem Mestre Yeoshua comemorava o Pessach com seus discípulos em Jerusalém, quando…

Pois é. Paradoxalmente, Pessach é a celebração da liberdade, da evolução, da consciência de já não sermos escravos, termos deixado os grilhões para trás. Mas, por uma dessas ironias do destino, quarenta anos vagando no deserto nos aguardavam, antes que sequer pudéssemos imaginar, ainda que muito de longe, um significado aceitável para o conceito de “Terra Prometida”.

É verdade, já escrevi muitas crônicas sobre isso. Até poderia afirmar que meu crescimento, e as mudanças que atravesso por falta ou excesso de cometimento, podem ser medidos por meus textos de Pessach em tantos anos de cronista, taí, uma boa ideia para um “novo” livro: Páscoas, as passagens.

A Páscoa sempre foi muito importante para mim, digo, na infância e adolescência, antes que o indelével relâmpago da vida me marcasse, me dividisse entre antes e depois, deixando em mim essa cicatriz, esse traço invisível a não ser na escrita, “o sentimento objetificado”, para sempre perneta emocionalmente. Se me deixou mais ousada ou demente, não sei.

Nunca antes parei para pensar nos múltiplos paradoxos de Pessach, entre outras coisas a simbolização de tantas e tão diversas fomes num festim de fazer inveja a Harun-Al-Rashid. É a terceira maior comilança do ano, depois do Natal e de Thanksgiving, certamente a maior de todas no judaísmo, nossa, tô muito citativa hoje, tudo para esconder debaixo de camadas de preferências diletantes a frustração galopante que me afeta neste Pessach particularmente, tudo somente por minha própria culpa, claro. Por minha máxima culpa me aventurei por mares nunca dantes navegados, inventariando necessidades nunca dantes cogitadas, e, francamente, já estou velha para tais montanhas-russas de sentimento, coisas que já não aguento e das quais deveria me poupar.

São muitos os desertos que atravesso nesta Páscoa, erva amarga, uma passagem pesada que também há de passar, mas enquanto não passa… francamente, é de amargar — entre eles o deserto político que tantos de nós, brasileiros, estamos sendo obrigados a ultrapassar, amalgamado, é claro, ao meu intenso desejo de mudar.

Mas o destino não anda, tem seu próprio passo para avançar. Não acredito em destino, vocês poderiam me lembrar, e é verdade, algumas das mudanças por que passei me deixaram avessa à espiritualidade, mas a tradição tem sempre muito para ensinar, algo que meu avô, por exemplo, se dedicava a praticar.

Eram boas as páscoas de meu avô, devo lhes contar, a família reunida, a cantoria, uma alegria que não custava a contaminar, o vinho doce permitido até para nós, crianças; nosso primo mais velho marcava a presença do Profeta Elias, que a cada domicílio judeu visitado acrescentava um gole a um cérebro já bastante tocado, e nos perguntávamos, “ficará bêbado na noite de Seder o Profeta Elias?” Ríamos. E quanto aos judeus cativos na Rússia, impedidos na época de se esgueirarem de trás da Cortina de Ferro? Se dependesse de cada um de nós, de nossos ocidentais banquetes pascais, o prato vazio a eles dedicado os alimentaria de significados para o resto da vida, pelo menos espiritualmente.

Tudo isso ficou no passado. A cortina de ferro “não existe mais”, embora bloody Putin venha fazendo o que pode para rependurá-la. Os judeus da Rússia faz tempo deixaram seu cativeiro para trás, muito deles levando consigo sua psique de alcatraz para as santas terras de Israel, onde se tornaram… ah, deixa pra lá, não posso contar o que os russos fizeram quando chegaram lá, de acordo com os malvados comentários da nossa família.

Havia, e há, uma indiscutível sabedoria na ideia de se deixar o tempo passar, deixar a lembrança se apagar, a cicatriz das correntes clarear. E foi essa a premissa de nosso longo atravessar: apenas as mentes livres dos grilhões, isto é, que deles sabiam apenas de ouvir contar, poderiam entrar na Terra Prometida, garantindo um novo começo muito necessário para o sucesso da conquista, pois o trauma da perda, do jugo, como me disse o Alan esta manhã, fica impresso nas ondas do cérebro como a queimadura de um curto-circuito magnético. Atingido pelo raio, o tronco às vezes sobrevive, e até chega a brotar. Mas, mesmo oculto, o dano do fogo permanece.

Quarenta anos, durante os quais o entorno desértico chega a se transformar em estilo de vida, se torna intrínseco, segunda natureza.

Pois qual não foi o meu espanto quando constatei, também esta manhã, que quarenta anos completos se passaram desde que meu avô se foi, num dia de Pessach, levando consigo a alegria do Seder — daquele Seder dos meus primeiros tempos, pelo menos, antes que a vida me obrigasse a migrar solitária pelos áridos desertos do amadurecimento.

Este, portanto, é um Seder marcante, especial, em que a ordem das coisas poderá, se o imponderável se apresentar, finalmente pôr um fim a tantas promessas vagas que nunca abrimos mão de buscar. Afinal de contas, por baixo da ferida a pele custa a cicatrizar, principalmente para os que, como eu, insistem em cavoucar. Mas enquanto houver vida, esta não cessa de se renovar, fiquei séria, desculpem, não deu para escapar.

Bom domingo! Chag sameach!

 

 

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