Sangue, arte e cerveja

Uma das experiências mais marcantes por que passei no meu pouco comentado período de esotérica que hoje renego mas intimamente ainda reconheço foi uma terapia meio radical cujo nome não lembro, de cujas sensações nunca mais consegui me livrar. A coisa fez parte das famosas “maratonas” que frequentávamos uma vez por mês num sítio em Posse, Petrópolis, em busca de nós mesmos. O objetivo era nos “tirar da cabeça”, como vocês bem sabem, um local no qual insisto me manter até hoje, apesar de todos os esforços em contrário. Meu apelido daqueles tempos, pejorativo, é claro: “cérebro”.

Consistia em passar uns dois ou três dias em grupo num salão do qual não podíamos sair, sendo impedidos de comer ou de dormir, só tomando cerveja, ao cabo dos quais ou a gente desistia, ou acabava pirando mesmo, entrando naquele espaço privilegiado onde só os mais primitivos impulsos persistiam, “know thyself”.

Um dos exercícios lidava com a violência intrínseca a todos nós, todos, sem exceção, e quem procura acha. Escutei no outro dia alguém dizer na televisão que o humano tem certa compensação ao agir violentamente, a violência daria barato, assim, simplesmente. Uma pessoa ficava em pé, parada. Em frente a ela os demais desfilavam dizendo ou fazendo o que bem lhes aprouvesse, toda censura consumida na vigília afogada em cerveja.

Na frente da fila estava um doce garoto, meio que nosso mascote por ser mais jovem e filho da proprietária do sítio, cheio de amor pra dar, pois, ironicamente, era o amor de uma vida que todos ali procuravam, não importa o que dissessem. Postado frente a uma amiga nossa que todos amávamos ele reagiu violentamente, empurrou-a no chão ou coisa que o valha e nesse momento caiu em si, digo, caiu em sua humanidade, sentimento, e instantaneamente se arrependeu. Profundamente. Era um menino. Não era um criminoso.

Creio que se arrepende até hoje. Foi tanta a dor do garoto — repito, não era um bandido, nem um radical, apenas uma mente excitada até seu limite irracional, animal, experimental — que todos a sentimos. Excedeu seus próprios limites, e o exercício foi dado por encerrado.

Bons tempos, em que apenas “encenávamos” a violência.

Corta.

Cinco e meia. Dia ensolarado. Ando cansada, trabalhando muito, não tenho dormido direito. Parei mais cedo, vesti uma roupa decente e fomos para o teatro no centro de Greenville, onde tínhamos ingresso para o Pilobolus, um grupo de dança que eu já conhecia do Rio, porque, afinal, fui educada a pão-de-ló como todo mundo sabe e com isso adquiri uma cultura internacional que me alimenta até hoje, elite, sabem como é.

Saí de um mundo e entrei noutro, nos sentamos num bar ao ar livre para um drinque antes do espetáculo olhando o movimento de rua em Greenville, small talk, vestidinhos coloridos, sofá, brisa, folhas novinhas no ar, primavera. Outro mundo, como eu já disse, faz muito bem variar de mundo de vez em quando.

Começa a performance espetacular, dentro do esperado. Mas antes do intervalo vemos uma coreografia inédita, ainda sem nome, uma prévia de 2015. O palco é negro. No centro, uma porta. Divide dois mundos. O da arte, contemplativa, sentada na soleira na frente de casa e de dentro vem Callas com “Casta Diva”, mais um amor há muito sonhado, um encontro adivinhado, sou imediatamente captada e transportada para a minha visão da idílica montanha na casa encantada que ainda nem começamos a construir. Não estou ciente de nenhum outro mundo que não esse. Relaxo. Gozo.

Mas o idílio dura pouco. Há um trovão, uma espécie de hecatombe sonora que nos arrebata e a porta se abre para a violência. Três homens arrastando a sua truculência separam o casal, transformam Casta Diva num nada casto impositivo ruído, sangue, suor, para os quais não há possível defesa, nos debatemos atrás de alguma humanidade de cuja alma fomos brutalmente sequestrados enquanto o corpo resta abandonado no veludo macio da poltrona de um teatro. Tenso. Retesado.

A alternância entre breves momentos de calma e a explosão da violência segue seu curso intermitentemente iluminado até que a cena final retorna ao início. Porta, soleira, silêncio. Solidão. Somos um joguete do destino dos outros, que nos manipula impunemente sem que dele possamos nos esconder, oscilando para além da nossa vontade entre a calma que já foi prioridade e a violência que a todos nos atinge nesta nova idade.

Corta. Intervalo. Respiração.

Durante os últimos quinze minutos fomos levados numa viagem sem redenção, para fora da nossa cotidiana pretensão de estar no controle de tudo.

Arte é isso. Não é preciso mais droga nenhuma.

Na verdade, a genial peça do Pilobolus é a mais perfeita tradução da dicotomia em que temos vivido, querendo ou não, pois não há lugar neste mundo em que possamos nos esconder do que ocorre no resto do mundo. A não ser, é claro, se desligarmos o computador, e nos sentarmos naquela varanda encantada, silenciosa, calada, de frente para alguma montanha azulada futura e deixando para trás a violência da manada, ao som suave e há muito ultrapassado de Bellini em “Casta Diva”.

Não há castidade restante neste mundo conectado.

E assim tenho prosseguido. Toda a turbulência do mundo tenho vivido dentro do meu próprio umbigo, guerra, suor, estilhaços, destroços de uma humanidade violentada e esquecida aos quais não consigo escapar, manter-me alheia a tudo com o sangue fervendo oculto sob uma negra burca, minha própria sombra mais escura acted out naquele tumor metastático do planeta de onde toda a beleza e toda a arte que nos caracterizam enquanto humanidade foram sugadas, nossa essência sequestrada e decapitada, sendo seu resgate solenemente ignorado por uma gente radical cuja redenção nacional  não está do outro lado da porta, mas do  outro lado da vida.

Seria a nossa única possível salvação.

Um bom domingo procês.

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