Sem crônica

Neste domingo, meus amigos, não tem crônica. Pensei e repassei mil assuntos, detalhes cotidianos ínfimos, gracinhas, temores, nenhum deles suficiente para dar liga e assar aquele bolo convincente, grande e seco por fora e fofo por dentro, sabem como é.

Fiquei tão preocupada que depois de trabalhar feito uma condenada, o dia todo sem comer nada, tomei dois pratos de sopa de cebola congelada — o meu e o do Alan, que como em todos os sábados passou o dia beliscando feito galinha sem galinheiro, e ao fim da gastronômica jornada picada se declarou inapetente — e uma taça de vinho, desmaiei na cama sem passagem pelo chuveiro — já explico por que — com uma escala breve  no petisco televisivo, mas nada adiantou. Acordei duas horas depois com Alan me enrodilhando, e já logo me derrubando com a tão temida pergunta:

— Sobre o que será a crônica deste domingo?

Foi o que bastou. Passei o resto da noite numa insônia intermitente, oscilando entre vários desassuntos prementes.

Pensei em contar pra vocês que passei a semana tão incomodada com pequenas inconveniências que a próxima (semana ou inconveniência, tanto faz) se afigurava como um oásis de fartura. Nosso sofá de couro vermelho, por exemplo, depois de quase 3 meses no estaleiro, deve chegar de volta amanhã. Esse sofá, como vocês sabem, mais do que a montanha à nossa frente é a marca registrada da KBR. Comecei a afundá-lo ao escrever minhas crônicas sobre o Ulysses, não o Guimarães, nem o da Odisseia de Homero, mas o de Joyce mesmo, é, li aquele tijolo. Depois disso, a escrita sentada num canto do sofá não pararia mais. O advento da KBR complicou consideravelmente as coisas, somado à leveza do Alan, que no mesmo canto curtia suas insônias com um copo de uísque, fez com que com o tempo, sob a pele descamada e maltratada, um buraco se abrisse. Ninguém nunca quis se sentar do outro lado, sei lá por quê. Ficou intacto, intocado.

O resto, aqui.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *