Sem essa, aranha.

Não sei se foi por todo o gênero aracnídeo ter se ofendido com meu comentário paulista, digo, na Paulista, onde a uns meses atrás, sem grandes sensibilidades de artista, enfiei tudo que é ultrapassado e derrotista na mesma teia fatalista… Terei comido alguma mosca, eu? Francamente.

Pois hoje a mosca sou eu, e sendo comida, imaginem. E não se trata daquela mosquinha curiosa que qualquer expoente do ramo daria tudo pra ter sido nesta madrugada de domingo, vamos combinar, voejando para especular o que acontece de fato por trás das telas sensacionalistas, enquanto a nossa polícia, bota aspas, pacifica, fecha aspas, a mais importante das favelas cariocas — aquela, que no início de minha carreira de cronista eu via de todas as janelas do apartamento em guerra constante sendo combatida, sem excluir a bala perdida, claro.

A coisa é tão importante que pela primeira vez neste blog, ops, livro, deixei para escrever a crônica no calor dos acontecimentos do próprio domingo, nada da já enjoada ficção mofada das sextas-feiras.

O caso é que meu encontro fatal — ou fadado, predestinado, sei lá — com a aranha maldita ainda estava para acontecer. Tínhamos nos tocado pela primeira vez no Planalto Central, quando eu, deprimida, egressa da capital e fugida de um casamento que tinha tudo para ser normal — descontado o fato de o noivo ter sido encontrado na mesma cega teia, vocês sabem, a mesma que hoje em dia a todos norteia —, mas que terminou numa inconfessável, temível e terrível humilhação, despertei certo dia com a face direita inchada, vermelha e congestionada. E não era de tanto chorar, gente, não.

O motivo era bem mais pra baixo, bem perto do chão, onde eu dormia num estrado pós-hippiesobre um tênue colchão, e nele uma aranha me mordeu. Foram quinze dias de pleno intumescimento, e nada que eu fizesse a respeito me ajudou de verdade naquele momento triste, garrafadas, rituais, curandeiros locais ou preocupados conselhos de amigos virtuais: só o tempo, a paciência e um vicioso otimismo para poder vencer, além do rosto inchado, a dor de um coração mortificado… é isso aí.

Daquela vez, escapei. Me imunizei. Sobrevivi. Voltei ao meu estado habitual, empacotei a decepção mortal e prossegui para tudo aquilo que o futuro me reservou, ah, mal sabia eu.

Para abreviar a longa história e encolher outras tantas teias, peçonhentas ou não, nas quais me meti ao longo desta bendita vida, acabei nesta existência beatífica em outro cantão selvagem do mesmo Brasil, ao lado de outro marido que àquele sucedeu — como todos sabem, um estrangeiro desta vez, que nestes amores de internet o planeta inteiro é o mesmo e único país. Pelo sim pelo não, quando se trata de amor, somos todos estrangeiros, não é mesmo?

Mas de volta à aranha, pois é, é tudo a mesma velha teia: nos reencontramos pela primeira vez naquela terça-feira banal, bem no meio do dia, quando, lavando as mãos no panorâmico banheiro de minha imaculada suíte, ela se ocultava, traiçoeira, negra feiticeira, entre as dobras muito brancas da toalha limpa sobre a bancada, foi uma enxugada e uma breve picada, nada mais do que isso.

Ainda tentamos sem sucesso algum, Alan e eu alternados, remover de meu dedo com uma agulha afiada o ferrão que nele ficara, e que nele acabou ficando esquecido até agora, há um minuto, quando o eliminei finalmente com o que ainda restava de escara, end of story… que nada!

No final do mesmo dia, buscando aquela vingança que se come fria, a peçonhenta me mordeu novamente, invisível desta vez, enquanto eu me enxugava no chuveiro. E como ela, também invisível, a mínima picada ardeu imensamente na axila, embora nada pudéssemos detectar que revelasse a causa de todo aquele estranho ardor.

Quando acordei na manhã seguinte, meu braço direito estava inchado e vermelho como a violência no Rio, pior, o vermelho e o inchaço seguiram avançando impunemente, até que ao anoitecer já tinham alcançado além do cotovelo, me deixando doente, quase terminal. Em pânico total.

Dr. Alan G. (de Google) Sklar se encarregou de me assustar mais ainda, sabem como é, como dias depois via skype o preocupado marido da minha amiga, entomologista amador, com histórias (e cruas imagens, Deo gratias por Google…) aracnídeas de arrepiar, braços e pernas perdidos para a voracidade digestiva daquele veneno incruento. Mas eu, avessa como poucos às incríveis conquistas da medicina moderna, me mantive firme, embora sonolenta, enevoada pelo anti-histamínico que tomei para me acalmar, para acalmar a coceira, digo, involuntariamente relaxada, automedicada pelas artes enganosas de um hipócrita Morfeu.

Deixei passar, embora não fossem poucos os amigos de Facebook a me apavorar, ah, tá bom. Deixem esses papos de aranha pra lá, como se de palpos se tratassem, pois se não fosse pelas bolhas crescentes do último domingo eu já estaria há muito tempo divorciada de mim, não custa lembrar. Passam-se os anos, as crônicas e os corações partidos e continuo aqui, alerta como sempre, mantendo os elísios ventos bem longe da vida que escolhi: chego aos 60, em breve, sim, mas não me deixo derrubar, embora o corpo se entregue mesmo assim, e isso, bem, só me resta aceitar. Nada tenho a lamentar (já me lamentei tanto, que nada sobrou para deplorar, argh, preciso confessar).

Já no que depender de Alan — e de algum Disraeli redivivo, Disraeli Gomes, digo, o novo herói que a crônica típica do Rio de Janeiro não se furtará, sem dúvida alguma, a registrar para a posteridade da cidade —, a esta altura, todos os mais do que avisados criminosos daquela favela da zona sul cujo nome não mencionamos, mas que já se tornou de domínio público, isto é, político, nesta pacificada manhã — é tão nova a era que se inicia que até o famoso jornal O Globoestreia site novo neste domingo, depois de 24 horas fora do ar cobrindo a “primavera carioca”, sabe-se lá o que estiveram a aprontar, ai, que emoção —, terão todos sido despachados — já começaram a aparecer os corpos — para aquela malcheirosa área da baixada ironicamente nomeada a partir do grego e glorioso paraíso, pelo qual passamos todos, na maior velocidade possível, antes de desembarcar em nosso delicioso vale perdido, onde, com a graça de Deus, nos preparamos para desfrutar uma laboriosa maturidade.

A vida continua, linda e impávida como sempre, pois nem mesmo o mais ameaçador meteorito tem o poder de afetá-la realmente. E vai procês o meu voto de sempre para mais um excelente domingo, feriadão desta vez, ensolarado e quente, e como há muitos anos não se sente, com uma grande paz na terra prometida lá embaixo… de encomenda para as próximas olimpíadas. Ufa. Já não era sem tempo.

 

 

1 Response

  1. quem comeu a aranha dela?

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