SEP-EUA

tetoSério, eu tinha certeza de que não ia escrever esta semana. Estava muito contrariada, e tenho feito o possível para não escrever sobre coisas que me chateiam, porque isso não tem me ajudado em nada, apenas piora o mau humor. Afinal de contas, a vida tem nos batido o suficiente.

Mas ontem fui bruscamente acordada pelo nosso empreiteiro às oito da manhã… Tá bem. Tudo bem que isso soe meio absurdo, mas nessa jaula escura onde temos vivido há anos (dois anos, para ser exata), mais escura ainda nestes últimos dias do horário de verão aqui nos EUA, era praticamente noite fechada.

E eu estava sonhando, gente.

Não tenho dormido muito ultimamente, já que ainda não me integrei completamente à Sociedade Engolidora de Pílulas dos Estados Unidos da América, o que deverá acontecer em breve, assim que eu adentrar meu 66° ano de vida. Isto é, se “sabe-se lá quem” for eleito presidente e decidir preservar o INPS local e o sistema de saúde oficial, além dos direitos normais dos humanos e o de carregar armas, entre tantos outros. Como escutei mais cedo num programa de rádio, isso deveria incluir o “direito de fazer sexo e ser engravidada por uma pessoa, e de exigir que esta pessoa não seja feia nem indesejável”, e também o indiscutível direito de escolher o banheiro e de obrigar o seu médico a “fornecer uma histerectomia”, caso você esteja cansada de ser mulher neste mundo de homens, e mais, de ser encorajada a limpar, lavar e cozinhar… e a ganhar dinheiro suficiente para sustentar a casa, e ainda parecer jovem e descansada o tempo todo. Mais ainda, capaz de falar um inglês perfeito caso você seja estrangeira como eu, e ainda provar que é um gênio em qualquer tipo de atividade que você decida abraçar, inclusive a construção de uma casa nos Estados Unidos… Já basta. Cala a boca de uma vez por todas e me entrega este tão invejado pênis logo de uma vez.

Pois então, eu estava sonhando. No sonho, tinha encontrado esse escritor cujo livro estou no momento traduzindo para o inglês, com um ano de atraso. O homem é um santo, francamente. Ou quase. Trata-se, pelo menos, de um peregrino legítimo, caminhando de Canterbury (na Inglaterra) a Roma através de espetaculares paisagens europeias, vales, montanhas e ruínas. A noite passada, por exemplo, ele estava procurando um lugar para dormir enquanto eu ralava para completar a “cota” do dia. Não consegui chegar lá, nem ele, em particular nesse inspirador trecho de texto. Quando o encontrei no sonho, no entanto, ele não estava caminhando, mas andando de bicicleta. E quando ele passou por mim à toda, gritei triunfante: “Toma! Um quarto do texto já pronto, finalmente!”

Quando o ruidoso telefone tocou, ele já estava se afastando. Pulei da cama e dirigimos montanha acima sem sequer nos conceder um café, Alan e eu. Não queríamos nos atrasar para a reunião.

O problema da vez é que, sendo inexperiente em telhados como todo mundo sabe, quando vi o nosso teto recém-erigido, sob o qual supostamente viverei pelo resto da vida, levei o maior susto. Fiquei chocada mesmo, devo admitir. Não se parecia nem um pouco com o meu projeto.

Durante o meu sono precário, eu já tinha percebido — subliminar, embora fidedignamente — que havia uma janela sobrando no alto do telhado: por motivos desconhecidos, afirmava meu inconsciente, eram sete em vez de seis. Et voilà, quando cheguei lá, tinha mesmo uma janela a mais.

“¡Oye! ¿Dónde están los planos?” perguntou o empreiteiro, no seu espanhol sofrível.

Eu estava em vantagem nesse caso, já que meu espanhol é bem melhor que o dele. Além disso, eu já tinha discutido o assunto com o mestre de obras mexicano no dia anterior, no meu próprio espanglês sofrível (e pior, com sotaque português), e estava toda prosa por causa disso. Mas não custei a descobrir que esse mestre de obras na verdade cumpria ordens de Marco, outro mestre de obras longe do meu alcance, que, por sua vez, obedecia ao nosso empreiteiro americano — tudo isso pelo celular, imaginem, já que Marco nunca tinha pisado na obra. Pois um minuto depois de Rodolfo e eu termos entrado num acordo sobre as janelas no telhado e outras coisas cruciais, os chefes principais estavam trocando furiosos telefonemas no celular, cada um vociferando em sua própria língua. Enquanto isso, minha mente “Bauhaus-laje-plana” estava cortando um dobrado para entender que diabo tinha acontecido com meu design sul-carolinense, “adaptado”, o mais fielmente possível, ao estilo Craftsman local, no qual eu tinha feito questão de manter o telhado o menos inclinado possível, apenas o suficiente para engabelar a comissão de arquitetura do condomínio.

A situação estava claramente degringolando. Olhando montanha abaixo do futuro janelão da sala de estar, dava para ver os pilares metálicos — que, em algum momento, deverão sustentar nosso flutuante terraço — dolorosamente espicaçando o terreno revolvido uns oito metros abaixo. Um fenômeno!

— Tudo nessa casa é fenomenal, gigantesco — declarou nosso empreiteiro americano, tentando me convencer de que o monstruoso telhado estava em prefeita ordem.

— A gente deveria cravar uma cruz bem no alto desse pé-direito de igreja — disse o Alan, sarcástico, se referindo à altura absurda.

Sendo a “pessoa encarregada” do caso, eu já tinha passado boa parte das minhas horas de insônia matutando sobre os meus lamentáveis fracassos “telhadísticos”, e tinha decidido, na calada da noite, que traçaria o que viesse, e trataria de me acostumar o melhor possível com o resultado. Afinal de contas, como uma adepta brasileira de telhados planos, eu não entendia absolutamente nada de peso de neve, nem muito menos de proteção térmica ou isolamento de janelas. Pô. Peraí. Tô realmente precisando de um tempo.

Mas o empreiteiro não iria deixar barato. Ele estava determinado, não somente a fazer o que era certo, mas também a me fazer “feliz”. E estava se empenhando ferozmente nisso.

Nossa reunião matinal durou mais de duas horas, durante as quais ele fez o que pôde para me convencer daquilo de que eu mesma já tinha me convencido durante a noite de insônia. Isso, apesar de que eu dormia profundamente, e estava até sonhando quando ele me acordou com seu telefonema.

No final, enquanto eu ralava para justificar meu erro quanto à inclinação do telhado, que tinha dado completamente errado, mas acabou dando certo, de acordo com meu próprio projeto equivocado, o empreiteiro me disse o seguinte:

— Quando eu vi seu projeto pela primeira vez, disse a mim mesmo que esta seria uma casinha insignificante, bem apertadinha, embora tenha conseguido convencer o banco de que se tratava exatamente do contrário. Mas, curiosamente, quando a gente entra nessa obra tudo parece maravilhoso, majestoso até: o teto alto, a vista espetacular, as janelas e portas gigantescas, tudo funciona maravilhosamente bem no conjunto. Portanto, enquanto você achava que estava fazendo tudo errado, acabou fazendo tudo muito certo.

— É. Pois é — respondi, ainda na defensiva. — É esta, exatamente, a definição de “arte”. Pode até ser obra do acaso, ou algo feito meio às cegas, mas dá perfeitamente certo no final.

E é o que espero que aconteça com a nossa inacreditável construção. Nesse meio tempo, enquanto estávamos mergulhados nas nossas discussões altamente filosóficas, em busca de uma melhor qualidade estética de vida, mal sabia eu que a internet tinha sido hackeada, e o nosso fragilmente maravilhoso castelo de cartas conectado estava vindo abaixo nas duas últimas horas em boa parte do território americano.

Pois é. Os russos estão chegando, é o que andam dizendo. E eles querem acabar com a festa de uma vez por todas…

 

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