Sérgio Britto, meu vizinho

Nossa. Fiquei um par de horas sem consultar a internet e morreu um bando de gente. Joãosinho Trinta, tudo bem, já vinha doente faz tempo. Mas Sérgio Britto, apesar de velho, ops, idoso, realmente me surpreendeu. E entristeceu.

Eu conhecia o Sérgio pessoalmente. Era meu vizinho no Leblon. Nem lembro direito como o conheci, mas teve alguma coisa a ver com o Walmor Chagas me ligando um dia em casa de mamãe, onde eu estava morando por uns meses, pra perguntar não sei o quê:

— Noga? Aqui é o Walmor Chagas.

Achei que era pegadinha, mas era o Walmor mesmo, querendo saber algo sobre centros culturais.

Depois ficamos amigos, Sérgio e eu. Eu tinha um “bar cultural” na Visconde Silva, o Graal, onde a gente fazia umas loucuras como a “primeira peça de teatro que andava pela casa”. A coisa começava com uma mulher semidespida deitada num sofá bem na entrada, milagre que não fomos todos parar na cadeia por atentado ao pudor. Até fui, uns tempos depois, por conta de uma denúncia da vizinhança de que no Graal se cultivava um certo “culto dark“. Argh. A Rosângela Alvarenga, hoje autora da KBR, deve se lembrar bem disso. Foi lá, e por aquela época, que a conheci. Era 1987.

No andar de cima fizemos um espaço para exibição de videos, e é aí que o Sérgio entra. Ele tinha na época uma coleção excepcional, não só de filmes, mas de shows, concertos, óperas e balés gravados diretamente em Nova York por um amigo. A gente babava. E o Graal exibia.

Foi graças ao Sérgio que conhecemos a Pina Bausch, o Robert Wilson e um tanto de outros numa época em que ignorância cultural no Brasil ainda era mato. O vídeo da Pina rendeu um folclore que está no meu livro Hierosgamos e, por tabela, me ajudou a seduzir o Alan, quem resistiria? E quando Pina, saudosa Pina, veio ao Brasil, contei a história pra ela.

Assim, o Sérgio, talvez até sem saber, está no cerne de muitos grandes prazeres e realizações que tive na vida.

Depois o Graal fechou, não resistiu à pressão contra o culto dark e, porque não dizer, ao fato de meu parceiro Claudio Martins ter me abandonado lá sozinha e ainda por cima ter levado a máquina de escrever. Ainda pedi socorro ao Zequinha, ex-barman do Cochrane’s, que na época morava em Brasília. Ele veio de lá só pra me ajudar, juro por deus. Mas no dia em que vi um rato se encolher para entrar no açucareiro do bar, desisti. Fui-me embora pra nunca mais voltar.

Viajei pra Londres e trabalhei com o Ron Arad, designer de móveis, mas não fiquei por lá. Voltei para o Rio, trabalhei com o Maurício Sette na Fundição Progresso e conheci a Pina pessoalmente, tudo gente morta, não é à toa que esta tarde está tão deprimente (quer dizer, o Ron não sei, este só morreu pra mim provavelmente).

Depois que fechei o Graal transferi a assinatura do especialíssimo videoclube do Sérgio Britto para mamãe. Gente, isso coloriu a vida dela por muitos, quase todos os últimos anos de consciência desperta. Ela ficou amiga do Sérgio e da Chica, que cuidava da casa e do Sérgio, que acabou vendendo o apartamento na Cortes Sigaud, nos fundos do nosso prédio, e se mudando para Santa Tereza. Nunca mais o vi.

Mas não faz tanto tempo assim, quer dizer, deve fazer sim, porque ando trabalhando tanto que perdi a noção de tempo, liguei para o Sérgio pra ver se ele me convidava para uma entrevista no programa dele sobre artes e literatura, sobre o próprio Hierosgamos, pela data devia ser, porque acabo de encontrar na minha agenda de 2007 — eu sabia que se procurasse, encontrava, mas não quer dizer que tenha sido realmente em 2007, sou caótica com essas coisas e reuso a agenda velha o tempo todo, ainda uso essa de 2007 até hoje — que era para eu ligar para Sérgio Britto em fevereiro, produção Ana Vachiano. Ele tinha dito que sim, teria prazer em me ouvir, mas a agenda estava cheia.

Nunca mais liguei. Não só porque me custasse a vida pedir esse tipo de coisa aos amigos, mas também porque devo ter enveredado por outros caminhos. Aquele telefonema foi meu último contato com o amigo que morre hoje, depois de estar internado por um mês, não que seja uma tristeza tão grande, afinal de contas, foi-se aos 88 depois de uma vida produtiva e brilhante como poucas. Mas às vésperas de eu mesma completar 60 anos, e enquanto mamãe, com quase 83, há quase 8 mal sabe que continua viva, sei lá, essas coisas deprimem. Se ainda estiver viva, a Chica deve estar muito triste.

Não é bom assunto para a última semana útil do ano. Vou fazer como o Alan sugeriu: juntar numa só tarde todos os filmes deprimentes que vimos durante o ano e sugar de uma vez da tristeza tudo aquilo que ela tem pra dar. Se ainda existisse a videoteca do Sérgio, esse evento daria o que falar.

Nem precisou começar a sessão para eu já ficar com dor de cabeça.

 

 

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