A shitproof country

A fossa séptica obrigatória em Paris  Mountain.

A fossa séptica obrigatória em Paris Mountain.

Como vocês sabem, as coisas às vezes são mais difíceis do que parecem, e não é só no Brasil. Porque, como todo mundo sabe, aonde a gente vai a gente se leva consigo, e cá estou, com novas demandas, novos problemas, novos desafios.

O Brasil está em chamas, e, francamente, nada temos a ver com isso, plural majestático, claro, brasileira aqui só euzinha mesma, o que às vezes, confesso, dá uma certa nostalgia. E se, por um lado, lamentamos que isso esteja acontecendo, por outro temos aquele diabinho fazendo coceira no ouvido esquerdo e nos dizendo: “Bem-feito! Votou, agora guenta!” E depois do “rol de honra” do “circo Petrobras”, está impagável, dizendo também: “Aqui se rouba, aqui se paga!”

Fico satisfeita ao ver a energia cintilante dos protestos, a disposição para a luta, tantas coisas que andavam acomodadas e adormecidas, é, pois é, reclamar dá uma força danada, e muito assunto pra cronista. Mas eu, sinceramente, não me comovo com o movimento pessoalmente, embora deseje que sigam em frente, pois no meu caso é puro cansaço de tanta insegurança nacional. E também, confesso, pura conveniência pessoal.

Queremos ver um Brasil pujante, premente. Mas o que vemos no cotidiano da mídia é um Brasil se estabacando, indo pro brejo para dizer o mínimo, quer dizer, o mínimo que contam pra gente. Não tem importância. O que conta é o que a gente sente.

E por falar nisso, o que estariam sentindo os milhões de petistas, dilmistas, apoiadores de Dilma, Dilminha, Dilmão e o caralho a quatro, entre eles membros e ex-membros de minha própria família, podem acreditar e desculpem o palavrão? Vergonha? Desolação? Queria, além do tal diabinho, ser uma mosquinha na alma dessas pessoas — eu poderia acrescentar: “se é que alma elas têm”, mas seria maldade de minha parte —, (in)voluntários algozes do nosso eterno son(h)o de Brasil. Danem-se.

Volto para o meu próprio umbigo. O que estou fazendo da minha vida aqui?

Confesso, amigos, estou muito bem, tranquila por ter me autoexilado tão a tempo e com tanta competência, claro, tive um pouquinho de sorte também, mas não seria a sorte  um dos principais componentes de um “destino” bom? Algo intrinsecamente entranhado a uma entidade bastante duvidosa, que teria, do “alto de sua sabedoria”, uma visão mais geral, um panorama amplo e menos restrito do que a vida nos tramaria? Ah, por certo Richard Dawkins riria um bocado das minhas mal-ajambradas e esfarrapadas ilusões, o vi na TV outro dia, intrigante como sempre:

“Mas”, inquiria o entrevistador, o não menos instigador Brian Greene, físico detentor do Pulitzer, coisas de elite e de primeiro mundo, vocês me entendem, mas voltando à entrevista, “nem numa hora de extrema necessidade você recorreria a Deus?”

“Rsrsrs, hã hã”, Dawkins se divertia. “É claro que eu talvez dissesse ‘Meu Deus!’ em algum momento, mas seria apenas vício de linguagem”.

E é assim que também me sinto, me liberando finalmente da responsabilidade de escrever como uma agnóstica em todos os momentos, mas isso está desviando novamente o rumo da minha prosa, voltando, pois.

Algumas coisas têm me perturbado também. Uma delas é que não consigo me livrar do peso que o “pacote Alan”, voluntariamente ou não,  colocou sobre os meus ombros por longos dez anos de Brasil, como passaram rápido, nossa mãe.

Um dos aspectos da minha vida que mudou radicalmente  é que Alan agora é uma “entidade independente”, dirige seu Mercedes por aí bem vestido em seu novo sobretudo de pelo de camelo, dirigindo-se livremente a todas as pessoas, e, concomitantemente, pretendendo mais do que nunca dirigir-me. A mim. Mas eu não me vejo dirigida, embora assim lhe tenha prometido, e o que são promessas? Palavras ao vento para serem descumpridas, depois que o principal objetivo já foi atingido, e nesse caso o que mais me importava era tirar das minhas costas o peso da responsabilidade pelo velho estrangeiro, que ele, aliás, nega, diz que nunca existiu, então tá. Bom pra ele. Já esqueceu.

Fato é que Alan começa a ter vida própria, um fato que terá seu peso próprio em nosso relacionamento (algo a que boa parte dos brasileiros tem se negado, mamando eternamente nas tetas do supergordo Estado, entendo, somos todos viciados). No momento, ainda fico doente de preocupação quando ele sai, vocês sabem, o corpo chega lá muito antes da mente, embora  a mente deva obviamente planejar para que o corpo um dia chegue lá. Deu pra entender ou estou ficando demente?

Vocês nem de longe devem imaginar que planejei tudo isso, mantive um amor importado em cárcere privado — cárcere de luxo, é bem verdade — por longos mas rápidos dez anos com o único intuito de me locupletar, isto é, locupletar meu ego pulsante, e não estou acostumada a um marido que passa o dia fora tomando decisões que quero controlar, fazer o quê, é o preço que tenho que pagar.

Pois o preço da liberdade deve ser, na verdade, o poder de abrir mão da própria vigilância, algo que nem de longe poderá dar certo tão cedo no Brasil, mas que eu, no meu autoexílio por força conjugal, espero em breve conseguir. E mesmo doendo, faço questão de me forçar, quase o empurro para fora de casa, contrariando a minha horrorosa e impositiva “síndrome de mãe judia”, afinal de contas, trata-se de um marido, não de um filho, embora, claro, de vez em quando ainda se perca indo para a obra sozinho, vingança da oposição, hahaha.

E por falar nisso, parece mentira, mas amanhã, sábado passado (entendam: escrevo a crônica na sexta-feira e portanto sábado é amanhã, mas publico no próximo domingo quando já terá passado, sabe-se lá que desafios terei enfrentado, pois iremos amanhã cedinho à nossa primeira reunião de “condomínio” já com uma demanda na mão, visto que reclamaram oficialmente, por carta registrada, do início das nossas obras sem tê-los alertado de antemão), é o décimo evento comemorado do que costumei chamar de “minha república”: o encontro com Alan na internet, que representou um desvio radical, um marco indelével naquilo que antes dele eu chamava de “vida”.

Dez anos de relacionamento intenso e sobrevivi! Uma glória!

Nunca pensei que fosse conseguir, juro por Deus, olha deus na linguagem aí.

O que me leva de volta (esta crônica tem mais desvios de rota que a recente história do Brasil, embora nenhuma delas leve ao paraíso fiscal que o Brasil será forçado a deglutir) à obra da nossa casa, só para comentar que uma obra nos Estados Unidos, pasmem, começa pela fossa: antes que seja concedida uma licença de obra, é concedida uma licença de fossa — é doce o lar, mas a merda vem primeiro — isto é, os fiscais da cidade comparecem, testam o solo para ver se é adequado para absorver nossos dejetos diários — sendo uma lady delicada para não ofender vocês — e só depois de ter essa merda resolvida podemos seguir em frente, o que como arquiteta me espantou tremendamente, eu nunca nem soube direito que tipo de fossa foi colocada em nossa casa no Vale e nem determinei onde, foi tudo decisão direta do empreiteiro sem nenhum conselho das  autoridades sanitárias, que nunca por lá compareceram para conferir. Voltando da obra em Paris Mountain, me confesso surpresa e chocada com a extensão da escavação e dos materiais utilizados, mais parece uma daquelas ruínas dos banhos romanos.

Vamos combinar, é ou não é um bom conselho para o Brasil?(Júlio, não esquenta, a coisa sempre funcionou bem e a nossa merda jamais vazou para fora de seus domínios, ops, desculpem aí.) O comentário do Alan comparando o sistema sanitário americano ao brasileiro é impublicável.

Em tempo, “a shitproof country” quer dizer, literalmente, “um país à prova de merda”. E  só por ter me trazido para cá e para esse paraíso onde vamos morar, numa hora de profunda crise, Alan já mereceria ser coberto de beijos para o resto da vida, nem precisava considerar o resto dos nossos 10 anos juntos.

E um bom domingo procês.

 

Publicado também aqui.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *