Silêncio de eclipse

Itchy-ThroatDevo confessar que o título desta crônica é um chute completo. Nunca assisti a um eclipse total do sol, embora seja um dos desejos que acalanto nesta vida. E como já disse em outras ocasiões, estou me preparando para experimentar o meu primeiro, da varanda da minha casa em Paris Mountain, no dia 21 agosto de 2017, estão todos convidados. Estarei viva e bem até lá? Falta pouco, vamos combinar, quer dizer, faltava muito mais quando comecei a planejar.

Será o primeiro eclipse total do sol visível nos Estados Unidos em 26 anos, e, pasmem, a Carolina do Sul, Greenville entre as cidades privilegiadas, estará na faixa da totalidade, vai planejar bem assim na…

Agora, a verdade. A escolha de Greenville para viver não tem nada a ver com esse eclipse total, de jeito nenhum, foi uma simples especulação do Alan via Google Maps, ainda no Brasil, enquanto ele procurava um local para a gente morar nos Estados Unidos que fosse suficientemente perto para a gente visitar e suficientemente longe para a gente não incomodar o Erik, nosso filho mais novo, já que naquela época o mais velho estava meio “perdido” numa ilha paradisíaca do Havaí, coisa de americano, sabem como é.

Outra verdade é que tudo muda o tempo todo no mundo. David atualmente está vivendo na Califórnia — não se sabe por quanto tempo porque é proibido perguntar —, e o Erik não sei bem, mas tudo bem, está bem feliz namorando uma garota do Canadá, tendo rompido o noivado com aquela outra da Georgia de quem em teoria morando aqui seríamos quase vizinhos, para curtir os netos e tudo o mais. Quanto a Greenville, além de ser uma cidade bastante agradável, também está se configurando como localização cada vez mais privilegiada, visto contar com um permanente manancial de água num país que está secando, como já falei. Até já me acostumei com toda aquela história de os homens não apertarem a minha mão, seria pior no Japão, é ou não é? Em Roma, faça como os romanos e estamos conversados, “all’s well that…” Brush up your Shakespeare, é isso aí.

O caso é que tudo por aqui é novidade para mim. Não sei quando vai esquentar, e se vai chover quando a temperatura subir, não sinto cheiro de chuva no ar. Não sei quando as rosas vão brotar, nem quando as devo podar — depois de descobrir em algumas caminhadas na semana passada que há muitos jardins de rosas em Greenville, oba, também poderei ter um. Mas como eu deveria adaptar aquela regra de que não se deve podar as rosas em mês que tem “r”?  Isso nos levaria a podá-las justamente quando estão começando a florescer! Ou em pleno florescimento!

Tudo bem, diriam vocês, isso é o de menos, basta tirar o “não” da frase; mas vejam, não é assim tão simples, pois poderíamos erroneamente decidir podá-las em meio à última nevasca, o que além de provocar resfriado não daria para pegar nada bem. Mas não estamos aqui para falar de flores, não é mesmo? Desculpem, é tudo metáfora.

Quando há 7 anos nos mudamos para Itaipava, o clima de lá também me pegou desprevenida, embora obviamente não no mesmo grau. No primeiro verão, por exemplo, a estação das chuvas se esmerou em nos surpreender: choveu por duas semanas seguidas! Mas como no Brasil nada é simples, nem o padrão do clima — que, aliás, a se confiar na mídia apocalíptica está em mutação no mundo inteiro —, a coisa nunca mais se repetiu, isto é, não era padrão coisa nenhuma, só coincidência, como tantas coisas nesta vida, embora a gente se apresse em normatizar tudo.

Este estranhamento dos hábitos e regras num país desconhecido pode soar como uma aventura, mas pode também ter seu lado desesperador: esta semana, por exemplo, gloriosa semana em que retomei o hábito de caminhar e até arrisquei uma breve corridinha sem me estrepar, me vi às voltas com uma agoniante coceira no rosto e pescoço. Voltei a me desesperar, e a me reestressar com as pesquisas no Google. Seria a velhice? Um novo ataque da minha tireoide contra sua generosa hospedeira, como já havia me acontecido antes? Ou uma forte alergia? (Como todo mundo sabe, eu me odeio — isto é, sou dada a pequenos males autoimunes, principalmente na pele, como já contei.) Mas cá entre nós, alergia a quê?

O que me leva sem escalas ao “silêncio de eclipse”, um silêncio total de meio de noite em pleno meio do dia, exótico fenômeno da natureza que apenas imagino, como, outro exemplo, aquele impressionante retrocesso do mar que antecede um tsunami, e que também só conheço de ouvir contar, vou explicar.

Esta semana quase sucumbi à tentação de não escrever, mas daí me lembrei, não só que tenho uma reputação a manter, como de uns tempos pra cá tenho atuado como uma espécie de “cronista exemplar” para os meus colegas de Single K, aquela maravilhosa para quem o assunto nunca falta e a disciplina semanal nunca falha, qual o quê. Máscara. Prato requentado. Afinal de contas, sou humana como todo mundo. Portanto, me sentei pontualmente para escrever. Mas a verdade, amigos, é que estou num momento crucial da minha carreira de imigrante que não desejo no momento compartilhar com vocês, só quando passar, e tudo o mais traz a sensação de ser secundário neste fim de semana, inclusive o hábito de escrever crônica, enfim, estou em pleno “recesso das águas” e não faço ideia se a tsunami virá, ou se é apenas a maré mesmo, ainda mais considerando que vivo na montanha, longe do mar, em meio a uma floresta temperada na qual nem os passarinhos consigo reconhecer.

Pois então vocês terão que se virar com este assunto que se insinua sem querer se revelar, pois se eu contar, vai que dá aquele azar. Mas pelo menos o mistério da alergia posso desvendar, caso contrário lá estaria eu me expondo no momento fatal me coçando toda, deus me livre e guarde. Tratava-se, pura e simplesmente, de uma forte alergia ao pólen do ar, imaginem. E tudo sumiu com uma pomadinha certeira, o que seria impossível sem o indispensável diagnóstico do Alan — mais ou menos um personagem “local”, com toques de estranhamento “estrangeiro”, claro: depois de dez anos afastado do seu país, ele costuma dizer por aqui que “é do Brasil”. Esta manhã, imaginem de novo, Alan acaba de me informar que o pólen é tanto, e tão disseminado, que nem preciso sair de casa para grudar-se em mim que nem praga corriqueira, pois além de flutuar no jardim também penetra pelos dutos do ar condicionado.

O jeito é aguardar a primavera passar, tudo passa, sabem como é. E um bom domingo procês, ah, é, feliz dia das mães! Falar nisso, a crônica estar escrita não é motivo para não mencionar a emoção de receber flores dos filhos pela primeira vez na vida, uau, amo vocês, garotos.

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