Síndrome de Tourette

Imagem roubada da internet. E daí? O roubo é livre!

Imagem roubada da internet. E daí? O roubo é livre!

O Brasil está confuso. E eu também.

Juro que hoje, primeiro de junho, mês da Copa, embora não seja adepta de futebol minha melhor intenção era me apresentar arrumadinha, bem-comportada e fazendo o jogo do contente para a turistada. Afinal de contas, sou das pessoas mais qualificadas deste país  para fazer isso, isto é, mostrar o Brasil com suas cores mais caprichadas.

Somos um país de merda!

Moro no paraíso. Por mais indignada que esteja, vivo num ambiente onde impera a beleza, a floresta exuberante, a passarada instigante e uma macacada engraçada que a cada manhã vem aproveitar as bananas meio passadas que oferecemos como desjejum. Idílio puro, pra nem mencionar o imponente maciço de granito com um triângulo entalhado que domina a nossa paisagem, um dos maiores do mundo.

Ao meu redor, as pessoas são simpáticas, prestativas. Tentam compensar, com sorrisos e o melhor serviço possível, os descaminhos de um país onde só desajustes, abusos e injustiças têm se manifestado. O depósito de bebidas, por exemplo, gostaria mesmo de manter seus preços inalterados, mas não pode. Há uma inflação artificialmente criada pela majoração de impostos, se é necessária não sei, mas tornou-se imperativa pela farra dos gastos nos sendo cuspida a cada vez que saímos de casa.

Gostamos de tomar no cu!

Ah. Mostrar a cara. A cara do Brasil está maculada, e a cada vez que a colocamos  para fora podemos estar certos de que lá vem paulada. Mas o brasileiro médio, como alguém pontuou muito bem, não é um sujeito indolente, conformado em ser incompetente, conivente com a corrupção e satisfeito por mostrar ao mundo que fazemos tudo com um jeitinho inconveniente que é idiota, tudo bem, mas é só nosso.

Pois é. Pretendemos a vitrine, mas viramos telhado de vidro. Não que isso tornasse as pedras obrigatórias, bem, a não ser que o que desse pra ver olhando pra dentro fosse exatamente aquilo que a gente se pudesse esconderia.

Se não cagamos na entrada, cagamos na saída!

Claro, eu entendo. O Brasil é enorme, e, evidentemente, tem muita gente contente, sabem como é. Tem gente se apaixonando, trocando de emprego, sendo promovida e com filho nascendo ou se formando. Tem gente publicando livro (e a gente editando, ainda bem) e há filmes estreando, assim como novos capítulos sendo exibidos na novela das oito (que, brasileiramente, começa às nove). Tem gente ficando doente, mas tem também gente se curando. O inverno está chegando, com tardes coloridas, clima ameno e dias mais aconchegantes. A vida segue, impávida, colossal e indiferente. Como sempre foi.

Quanto a mim, eu sei, ando deprimida demais da conta. E são dois os principais motivos para isso: o primeiro, bem mais impactante, é que já passei por muita pauleira neste Brasil que “não é para principiantes”, mas pela primeira vez na minha (longa) vida estou com vergonha do país onde cresci, e até da língua em que até hoje escrevi, vergonha do meu marido americano e dos filhos que compartilhamos, e esta sensação é muito humilhante; o segundo, que eu até preferiria nem confessar, para não dar munição aos meus inimigos, é que de alguma forma intuí tudo isso que está acontecendo e por diversos fatores não consegui me evadir a tempo. Woe is me.

Padrão Brasil! Brasil bundão!

Mas esta semana, como eu já ia dizendo, pretendia varrer toda a dor para baixo da grama dos estádios ainda sendo plantada (vai dar tempo), pedir ao povo para não reclamar mais de nada, apagar os incêndios, dar cerveja de graça aos manifestantes e distribuir pelos quatro cantos do campo aquela corneta agoniante, caiar as manchas num mutirão retumbante, agitar bandeiras e até, vou bem mais longe, ouvir a discurseira com aparente alegria.

Ah, é verdade. Além de toda a burrice e maldade, a presidente do nosso país é tão covarde que não vai discursar como é praxe nesses eventos internacionais. Sim, amigos. Infelizmente acredito que não há somente o crime e a incompetência, há também a maldade, a leniência, uma espécie injustificável de tolerância imoral no comportamento oficial, um desejo de vingança e um inexplicável impulso autodestrutivo, pois a quem poderia interessar a derrocada pública do Brasil? E a década de doze , de um jeito ou de outro, acabou perdida.

Dilma cagona! Joga ovo podre na Dilma!

Bem. O resultado de tudo isso é que venho tentando há semanas fazer graça com uma situação muito sem graça e venho fracassando miseravelmente. Nem a crônica da semana tem me oferecido algum alívio, logo, fracassei também como cronista, e me afundo cada vez mais a cada tentativa. O Brasil vem me matando aos poucos, vem matando em mim a energia que me faz resistir, sacudir a poeira, seguir em frente enfrentando qualquer brabeira. Não está dando. Estou à beira de me tornar um farrapo humano.

Noutras crises existenciais pelas quais passei havia sempre uma saída me espionando, ou eu não estaria aqui escrevendo hoje, e foram crises duras, meus amigos, cuja solução, no entanto, dependia sempre de mim para comigo mesma: Reage! Sai da cama! Inventa alguma coisa! Eu reagia. Saía. Inventava. E aqui estou, cercada de pássaros e flores, mas nem mesmo este privilégio, conseguido por meu próprio intermédio, está dando conta de conter a minha onda. Há tanto oxigênio lá fora, mas selei as janelas do paraíso e estou me intoxicando com o gás malicioso das más notícias, como todo mundo.

Caga na moita, macacada!*

O Brasil está me envenenando, e, claro, só estou me entregando porque sou fraca, sem caráter e de difícil discernimento. Ou, por outro lado, ando tão cansada que tenho me deixado cozinhar como aquele sapo cuja história vocês conhecem bem: a água vai esquentando e ele vai suportando, sem que perceba aos poucos se acostumando à própria miséria. Mas não acaba fortalecido, não, deixemos Nietzsche fora disso. Acaba mesmo cozinhando, digo, termina invariavelmente morto e engolido.

Uso o pouco de energia crítica de que ainda disponho para perceber que o Brasil parece estar sofrendo de uma espécie cívica de Síndrome de Tourette, aquela doença que, apesar de tão triste, acaba provocando o riso de quem a assiste, como rimos também de quem quebra a bacia escorregando numa casca de banana, sabem como é: uma maldade infantil, intrínseca, porém humana, simplesmente humana. E tudo que se tem declarado em público, muitas vezes num impulso mal pensado — ou pelo menos é no que tento acreditar —, termina atraindo a atenção para nossos aspectos mais delinquentes e subservientes, acorda, aí, gigante viciado no fracasso.

O Brasil pensa com o cu e fala pelo rabo!

Francamente. Não consegui ser convincente, nem hipócrita o suficiente para lhes desejar um bom domingo. Hoje começa o mês da Copa, gente! Vamos em frente!

 

* Nenhum exemplar avariado da vasta fauna brasileira sofreu ofensa ou abuso enquanto eu escrevia. É tudo crônica, se é que vocês me entendem.

 

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