Somos todos infiéis

vitoria em gaza1Não sei vocês, mas neste último mês, que, felizmente, está terminando (como se o calendário fizesse alguma diferença), perdi muito tempo e energia lendo e depois combatendo o que tinha lido, tornei-me uma espécie de “militante do noticiário” contra a minha vontade, mas a favor da minha integridade. Afinal de contas, não posso deixar que digam por aí coisas tão afastadas da verdade e manipuladas para alterar a realidade.

O que é a verdade? Tá certo, ninguém sabe, mas algumas pessoas sabem mais, enquanto outras ouvem o galo cantar mas não sabem onde, ou resolvem cantar de galo com base numa lógica maniqueísta e sem sentido ou ainda fazem suas as palavras de outrem, propagando o mal que com elas vem.

Ninguém sabe mais o que é mal ou bem. Mas não quero me perder em coisas que não me dizem respeito diretamente, pois só aquilo que me é caro ao peito já é demais para se lidar, vamos combinar.

Esta semana, por exemplo — ou teria sido na semana passada, sei lá, a intensidade é tanta e tão veloz que é fácil perder-se a noção do tempo —, foi finalmente declarada uma trégua no Oriente Médio patrocinada pelo Egito, e isso foi o bastante para acrescentar mais lenha ao conflito, aos conflitos da mídia, digo.

Desde que começou essa guerra infeliz tenho chamado a atenção para o poder das palavras e sua cotidiana manipulação, é, quem não tem conhecimento de casa, o que é o caso de quase todo mundo, tem sido manobrado que nem aqueles fantoches dependurados, só que com qual interesse, não sei. A mídia, ao que parece, quer se tornar cada vez mais extremista para vender notícia, vender nem sei mais como e nem o quê, se tudo se espalha sem que a gente perceba como nem por quê.

Vai daí que depois de passar uns (30? 50?) dias condenando Israel não seria possível virar a casaca da noite para o dia, não é mesmo? Então foi preciso arrumar um jeito de não acreditar no que os nossos olhos viam: depois de terem sofrido “massacres”, “genocídios”, “destruição em massa”, os palestinos em Gaza estavam nas ruas cantando vitória! Como podia ser? Afinal, eram vítimas ou o quê?

Antes de explicar o que há por trás queria comentar a estranheza que me causaram as manchetes internacionais, todas unânimes em informar que “havia sido atingido um cessar-fogo entre Hamas e Israel”, o que seria quase a mesma coisa, descontado o exagero da comparação, que declarar que o “Comando Vermelho havia feito um acordo de paz com o Uruguai” ou coisa parecida, pois é: Israel, para quem não sabe, é um país reconhecido pela ONU, com um governo democrático, um parlamento, relações diplomáticas internacionais e uma radical liberdade garantida a seus cidadãos por força de lei — nem vou entrar naquele mérito dos Nobéis, nem da tecnologia por trás de quase toda a tecnologia que existe no mundo, nada disso, falemos dos dedos, não dos anéis —; já o Hamas seria, no máximo, um partido “político”, o que não é, nada mais é que uma facção terrorista radical que se aboletou no poder nacional para espalhar o terror na Faixa de Gaza entre seus próprios conterrâneos acachapados.

Gaza, por sinal, tampouco é um país, mas uma facção dissidente da Autoridade Palestina, esta sim um país oficial que tem dois nacos com Israel no meio, um sanduíche maldito do qual somos o recheio.

Circulou esta semana pela internet um vídeo bastante informativo demonstrando que Israel não ocupa a Faixa de Gaza, não, senhor, muito antes pelo contrário, devolveu Gaza aos palestinos em 2005, e em seguida, em 2007, “essa fatia do pão” foi ocupada novamente, desta vez através do “voto” que colocou o Hamas no poder.

Tá certo. Historicamente, é um furdunço complicado. A geopolítica do Oriente Médio não é, nem nunca foi para “amadores”, e ultimamente está mais violenta e perigosa, não só para os povos locais, mas também para o resto do mundo.  Ao escolher um “lado”, todo cuidado é pouco:  você pode sem querer estar optando contra tudo aquilo em que acredita, pior, embora esteja longe dessa armadilha xiita, ou sunita, ou sei lá o quê, ela pode vir pegar você.

Então voltando, embora pareça absurdo e contrário aos ditames da razão, o Hamas estava realmente comemorando sua vitória esta semana. Com a nossa anuência — nós, nesse caso, espectadores do show da guerra, consumidores da mídia e suas verdades parciais —, declarou-se vitorioso na guerra que ganhou mesmo, sem a menor sombra de dúvida, a que realmente trava neste e em todos os momentos: a guerra da opinião pública. Mortes? Destruição? Não estão nem aí. Chegam a provocá-las para fortalecer sua imagem de oprimidos, quando  são na verdade os opressores, os soldados do terror, ah, é, soldados, não. Não existe um “exército de Gaza”. Em Gaza existem apenas civis, involuntária massa de manobra em meio a objetivos vis, jogados como alvo de mísseis e da solidariedade dos que não querem ser omissos, mas se mantêm a salvo do choque da realidade, que de “romântica e idealista” não tem nada. É só crueldade e mais nada.

Outro aspecto que vejo escapando à sanha solidária que tem contaminado o nosso juízo mental é o fato de que, apesar de não serem visível ou formalmente ligados, Hamas e ISIS “compartilham os mesmos ideais”, entre eles o Califado fatal, esse que está por aí fuzilando inocentes por atacado e provocando pesadelos nos que pretendem para o nosso mundo um futuro de convivência pacífica. Esqueçam. Não vai rolar. Mas as cabeças, sim. Com certeza.

Enquanto a coisa estava apenas no corriqueiro antissemitismo, esse monstro de racismo que está sempre oscilando entre o ativismo e o ostracismo, ah, imagine, “não se trata de antissemitismo, mas de revolta contra um governo de extrema-direita, cruel e abusivo”, então tá bom, todo mundo levando no idealismo, mas agora está mudando, quer dizer, foi sempre assim, mas sem a distração dos mísseis explodindo fica mais claro que “assim” é esse, e os cristãos do mundo  estão percebendo que a cruz armada é para eles também.

Então, somos todos infiéis, irmãos contra o Grande Islã, estão entendendo?

Qual é a solução eu não sei, nem se solução haverá. Por enquanto,  a onda do mal está crescendo, e com a nossa permissão há de se perpetuar. A única saída é perceber o que estão combatendo: a nossa liberdade, o nosso mundo sem maldade.

E um bom domingo procês.

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