Sonhos suspeitos

ashevillemusicNo outro dia uma amiga me contou, toda animada, que havia comparecido a um instigante evento destinado a arrecadar fundos para a candidatura do democrata Bernie Sanders à presidência dos Estados Unidos.

— Você teria adorado — ela escreveu. — Se formos bem-sucedidos iremos a Washington, imagine.

Ela está certa. Por mais que eu negue, tenho visto e entendido através dos anos que sou um animal político, e Sanders, um ex-hippie e ativista de esquerda, seria em tese mais um daqueles casos de um sujeito formado nos ideais que acalentávamos em nossa juventude, mais uma chance para contradizer John Lennon provando que “o sonho não acabou”, se é que vocês me entendem, mais uma chancezinha só que no meu entender Obama tragicamente desperdiçou, com sua plataforma de união e mudança, que só resultou numa divisão que parece cada vez mais acirrada. Mas posso estar enganada.

O problema é que a minha amiga também está errada, e eu não teria adorado nada. E mais, me oponho ao discurso que Bernie Sanders deseja manter vivo, mesmo pensando, no fundo no fundo, que se trata de uma alternativa menos nociva ao “furacão Hillary” — não me perguntem de onde tirei esta metáfora, porque não sei, só sei que ela me veio à mente e a aceitei.

Devo confessar. Desde que cheguei aos Estados Unidos, me torno mais conservadora a cada dia que passa, a cada dia confio mais no taco do meu marido e menos na minha pregressa, iludida ignorância sobre a realidade das coisas. Ponto para o Alan. Imersa em profundidades variáveis na realidade diária americana, vou pouco a pouco aprendendo a distinguir o que é verdade do que é propaganda, embora ainda esteja longe de um entendimento completo, razão pela qual o bom senso diria que eu deveria me manter low profile em vez de sair por aí aos quatro ventos divulgando a minha equivocada opinião, mas não aguento, não consigo me limitar às quatro paredes do meu apartamento.

Devo deixar claro, para começar, que não voto em ninguém por professar algum respeito à minoria dominante. Não voto em mulher, não voto em preto, não voto em gay, não voto em judeu. Tampouco voto em branco, quer dizer, se uma mulher, um preto, um branco ou um judeu qualquer me convencerem que estão aptos a ocupar a presidência dos Estados Unidos, voilà, não terão o meu voto, porque como residente permanente não tenho direito a votar, mas terão meu apoio escrito crônica após crônica, mesmo que eu tente escapar. Pois, como vocês bem sabem, o consciente fala mais alto do que o medo de me equivocar.

Tendo informação suficiente, porém, teria votado contra qualquer atentado à segurança do Estado de Israel, sem escrúpulo nenhum, pois acima da minha fidelidade a um país ou nacionalidade está a minha fidelidade à ancestralidade que me gerou. E ponto final. Isso, num governo ideal, deixaria de fora qualquer tentativa precoce de acordo diplomático com o Irã, pelo menos nas condições vigentes neste momento.

“Deixar o Irã inspecionar suas próprias instalações nucleares?” Como assim? Não foi à toa que Obama fez questão de manter secretas as “condições” dessa parte do acordo, que acabaram vazando de qualquer maneira, uma prova concreta de que o presidente deve estar mentindo, pois havia afirmado que se tratava do “mais robusto regime de inspeção jamais negociado de forma pacífica”.

Pois é. Não acredito de jeito nenhum em ser a primeira a estender a mão (isso, estando subentendido que eu seja uma espécie de superpotência mundial, sem motivo real para temer poderes menores e bem menos ligados à noção de justiça, liberdade e igualdade humana, entenderam?), muito menos em oferecer a outra face em qualquer situação, Jesus Cristo que me perdoe. Tampouco acredito mais em boa parte dos sonhos “civis” da minha juventude, embora no fundo no fundo ainda mantenha uns sonhozinhos pessoais bastante inúteis, mas que me ajudam a seguir levando, porque nós humanos somos mesmo incorrigíveis.

O mundo não tem estado propenso a sonhadores ultimamente, vamos combinar. A única saída é nos limitar de alguma maneira à nossa própria capacidade de sonhar, e realizar, o que dificilmente incluiria nos dias de hoje as decisões mundiais a respeito de segurança, terrorismo, economia e o direito constitucional à felicidade, algo que John Lennon em seus versos, que conferi indagorinha, descreve muito bem, dá uma olhada: “Só acredito em mim, em Yoko e em mim, e esta é a realidade”, justamente aquela realidade que deram um jeito de tirar dele pouco tempo depois. Que seja. Só acredito em mim, no Alan e em mim, e esta é a realidade.

A verdade é insuportável.

“Só nos resta seguir em frente, meus amigos, porque o sonho acabou”. E acabou mesmo.

Pois imaginem que no último domingo fui com o Alan a Asheville, uma cidadezinha na Carolina do Norte a uma hora daqui. Lá chegando, não custei a entender que era uma daquelas cidades nas quais na minha juventude, nas minhas muitas viagens pelo mundo e pelos Estados Unidos, eu daria o meu braço direito para viver. Lá estavam os cantores de rua, as pessoas vestidas de um jeito exótico, a maravilhosa arquitetura high-tech da Urban Outfiters, as incrivelmente cheirosas lojas de chás e ervas aromáticas, vários restaurantes vegetarianos, a rua principal cheia de lojinhas charmosas, roupas bacanas para se comprar, para nem mencionar a linda decoração do bar de vinhos onde almoçamos: um paraíso perfeito para hippies (não) amadurecidos, que ainda carregam consigo seus mais caros valores e parâmetros estéticos, imaginem, a apenas uma hora de Greenville!

Alan, ele mesmo um ex-hippie tornado conservador, ficou tocado, chegou em casa e foi direto ao Google pesquisar a cidade, “será que não deveríamos desistir de Paris Mountain e comprar uma propriedade lá?” Afinal de contas, são grandes as chances de que nesta futura casa viveremos até o final de nossas vidas, sabe-se lá, por que não viver realizando os nossos sonhos de juventude?

Mas a simples verdade é que, embora tenha passado um dia delicioso, não sei se me adaptaria no dia a dia a esse “sonho gostoso”. Tenho na verdade a tendência a me proteger de mais uma futura decepção, e de acordo com esta concepção, melhor manter nossa linda propriedade em Greenville, uma cidade menos hippie e mais cosmopolita de onde se vislumbra a mesma cadeia azul de montanhas que nos atraiu na primeira visita.

Estarei certa? Não sei. O tempo dirá. Enquanto isso, a cada vez que eu me decidir que quero voltar atrás e sonhar um pouco mais, já conheço o caminho das pedras, que fica logo ali. Basta ir passar o domingo lá, uma opção onírica e lírica que, certamente, não poderá se aplicar aos críticos destinos do nosso mundo demente.

Shalom!

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