Sou retrógrada sim, e daí?

pra-esquerda-pra-direitaHá muitos anos, eu estava almoçando no Shopping Leblon com uma amiga escritora, hoje bem mais famosa e merecidamente apreciada, quando ela me surpreendeu com a declaração de que adorava o funk e tudo que ele significava. O funk era um instrumento importante, minha amiga afirmou, para que as mulheres (especialmente nos bairros mais pobres do Rio, onde o gênero é muito popular) pudessem reafirmar sua independência e energia, e por que não dizer, perseguir a igualdade social.

Fiquei espantada. Para mim, o funk é associado a um estilo musical que enfatiza letra por letra, quer dizer, em cada letra de seus versos, o que as pessoas esta semana estão chamando de “cultura do estupro”, um slogan que se espalhou nas redes sociais com a rapidez de um rastilho de pólvora, adquirindo em seu caminho novas e surpreendentes associações com as ideias de esquerda que ainda lutam para prevalecer no país, apesar da indiscutível legalidade do processo de impeachment.

— Mas as letras são tão violentas — argumentei na época. — Tão prejudiciais para os valores femininos.

Não consegui convencê-la, e honestamente duvido de que conseguirei convencer muitos de vocês de tantas coisas que hoje em dia me espantam, talvez porque eu mesma me espante com frequência com o meu novo, recém adotado “arsenal” de ideias e conceitos morais conservadores.

Antes de prosseguir, deixem-me concluir com alguns pensamentos sobre a cultura do fun… ops, do estupro. Semana passada, uma garota de 16 anos apareceu num vídeo divulgado em algum lugar na internet (eu mesma não assisti). Estava nua, deitada inconsciente numa cama suja, enquanto uma voz masculina em off dizia algo como “Amassaram a mina, intendeu ou não intendeu?” — a quantidade dos que “amassaram a mina” variando no noticiário de cinco a 33.

Não resta nenhuma dúvida de que um evento desses constitui um pesadelo moral, embora não seja uma raridade nesse tipo de ambiente, onde consumo de drogas, sexo grupal e um tipo específico de rap violento são coisas normais. Mas nesse caso em especial, quero ressaltar a rapidez com que dele se apropriaram os defensores da afastada, que sem demora o associaram a “um governo retrógrado que excluiu as mulheres e está planejando cancelar os programas sociais”, entre outras coisas.

Cheguei a ler o seguinte comentário, se referindo ao presidente interino e à nova Secretária da Mulher que inicialmente se declarou contra o aborto legal: “que desgraça se abateu sobre nós… puta merda… e o canalha ainda manda tirar o “presidenta” (sic) de todas as comunicações oficiais… que machista escroto… caraca!”

Caramba. Contrariando a “cultura da mandioca”, o “canalha” que nos governa tem na verdade demonstrado que ama o português, com mesóclise e tudo. Que atraso! E assim temos vivido, acredito, nestes tempos que poderiam ser definidos como “governados pelas redes sociais”. O que era antes domínio de análises bem-informadas e bem fundamentadas hoje foi tomado pelas opiniões ignorantes e apressadas que podem “colar” ou não, dependendo, não da validade de seu conteúdo, mas do número de seguidores de seu autor. O que termina resultando numa mixórdia descontrolada de fatos e numa forma deturpada de conhecimento amplamente aceita como verdade, numa velocidade correspondente à de sua “viralização”.

Agora voltemos a algo bem mais básico, mais estabelecido e muito mais perigoso que tive que enfrentar nas últimas duas semanas, enquanto editava um livro cujas ideias reiteram enfáticamente tudo o que venho criticando nos últimos tempos e que tanto vem me incomodando, como a ênfase que vem sendo dada a “novas configurações familiares” e vários “tipos de pai”. Sofri mais ainda porque não posso deixar um livro de lado simplesmente devido ao fato de que seu conteúdo me incomoda, muito pelo contrário. Sou pela absoluta liberdade de expressão, o que, por outro lado, inclui a minha própria. E tendo dedicado todo o cuidado à edição do material, me sinto agora no direito de exercer a minha crítica.

Feita essa ressalva, lembro que os textos acadêmicos de que o livro se compõe são, como todos os textos acadêmicos, baseados em outros textos já publicados faz tempo, o que nos leva a concluir que a atual revolução dos gêneros já vem de longa data e está muito mais enraizada na nossa psique “moderna” do que poderíamos supor, coincidindo talvez com a revolução feminista que ocorreu há quase 50 anos. Isso mesmo.

Eu até poderia, em princípio, aceitar arranjos familiares “não-tradicionais”, mas fiquei revoltada com o fato de que, para tornar esse “novo” tipo de liberdade aceitável, a principal estratégia dos referidos autores é destruir o vínculo natural que existe entre uma mãe e o cuidado de seu filho durante o período de lactação. Me desculpem se estou me repetindo, mas nesse contexto específico o instinto maternal é descrito como um “biologismo” prejudicial, uma linha de raciocínio muito perigosa, na minha opinião. Se permitirmos que ela floresça, pode ser que num futuro próximo ela acabe resultando no abandono do velho (e ultrapassado) hábito de gerar crianças através do coito heterossexual, um fato da natureza que, se assim eu puder insinuar, deve deixar muitos revolucionários de gênero bastante irritados. Como assim, deixar que a natureza aja assim, tão despoticamente?

Um detalhe que deixa muito claro um certo tipo de “desvio feminista” é o uso insistente do formato “os(as)” que resulta, simplesmente, num péssimo português. As autoras mulheres, que constituem maioria no campo da Psicologia, parecem tão preocupadas com detalhes gramaticais insignificantes (como, por exemplo, o fato de que em português todas as formas no plural são masculinas, o que qualificam como uma “injustiça”) que através de seus conceitos e afirmações acabam por ignorar o fato de que não apenas estão permitindo, mas estão na verdade incentivando a formação de um contexto social no qual os pontos fortes e o poder natural das mulheres estão sendo simplesmente negados em favor de “outras minorias”. Em outras palavras, certos grupos minoritários estão tentando se apossar das nossas exclusivas características biológicas, tão antigas quanto a própria humanidade, em nome de não sei bem o quê. Isto é, daquilo que nomeiam como “liberdade de gênero”, um conceito de gênero completamente desvinculado das limitações de nossas características sexuais.

Num dos ensaios que editei, a autora cita determinado pesquisador, bem famoso na área, por sinal, que em tese estudou a família humana através dos tempos por meio de imagens, e chegou à conclusão de que essa configuração de família hoje dominante (mas não por muito tempo, esperam ardentemente os “ativistas sociais”) não é determinada pela natureza, referindo-se ao fato de que apenas “recentemente” essa ideia de um núcleo familiar heterossexual e monogâmico nos foi “imposta”. Substituindo, por exemplo, o hábito medieval de “vender crianças para as guildas feudais”; isso, para não mencionar várias formas de poligamia que raramente beneficiavam as mulheres, para não dizer nunca.

Mas claro! É o que se chama “evolução dos costumes”!

O mais triste de tudo isso é que tais teóricos(as) são bastante eficazes em “tomar parte pelo todo”, isto é, em usar o argumento de que se “alguma coisa é verdade para uma parte de determinada situação, então é verdade também para a situação toda”, uma técnica de redação denominada “falácia da composição”. Em outras palavras, são fatos tomados fora de seu contexto original, prática também bastante comum na política.

No caso dessas admiráveis novas feministas, elas estão na verdade correndo o risco de cair em suas próprias armadilhas, e se ainda não caíram, cairão em breve. E a gente cairá junto, se não fizermos algo rapidamente. A humanidade está correndo perigo, meus amigos, e não consigo imaginar de jeito nenhum como alguns humanos felizardos poderão se beneficiar disso. A não ser, é claro, se dermos rédea solta para teorias de conspiração que incluem “um governo global”, a eliminação do dinheiro vivo e coisas do gênero, tudo cuidadosamente planejado para nos libertar do peso de nossa força individual, do nosso poder de escolha.

— Agora é tarde — Alan lamenta. Enquanto eu escrevia esta crônica ele estava assistindo a documentário assustador sobre a DARPA, uma “agência militar americana de pesquisas de segurança máxima”, assunto de um livro que será publicado semana que vem nos Estados Unidos. Alan segue me explicando como a ciência e a pesquisa comportamental já foram longe demais para voltar atrás em experimentos que tentam alterar o cérebro humano, incluindo o uso de “chips cerebrais” em recém-nascidos e outras coisas igualmente assustadoras.

Juntar farinhas tão diferentes todas no mesmo saco pode ser um verdadeiro perigo, um alarmismo totalmente injustificado de minha parte, admito. Mas não é tão diferente dessas técnicas psicológicas que estão sendo empregadas para nos engabelar, com o apoio não disfarçado, mas nem por isso identificado, do poder de doutrinação recentemente acumulado pelas redes sociais.

Do ponto de vista pessoal, tenho me sentido cada vez mais à vontade com meu novo conjunto de crenças retrógradas. E daí? E apesar de não estar incluída entre os 400 escritores famosos, donos do pensamento contemporâneo — isto é, do pensamento da esquerda —, que esta semana assinaram nos Estados Unidos um “manifesto em favor da preservação da ética e da liberdade” e outras palavras de ordem semelhantes, posso garantir que existem outras mentes brilhantes por aí que pensam como eu. Apesar de que, se pensar bem, talvez não sejam tão inclinadas a “assinar manifestos” como os luminares mencionados.

Vou terminar me limitando a citar os significados de “funk” número 2 e número 3 listados no dicionário em inglês, já que a palavra “funk” é um anglicismo: (2) um cheiro forte, normalmente desagradável; e (3) um estado depressivo, mau humor, fossa; encolher-se de medo.

É isso aí, amigos queridos. Com tudo isso que temos enfrentado, estou numa fossa de fazer gosto, e fazendo o máximo para não me encolher de medo. O que significa, simplesmente, seguir vivendo.

Como, aliás, estamos todos fazendo. O que não tem remédio, remediado está, não é mesmo?

 

***

 

Uma nota: depois que a crônica estava pronta, José Eduardo Agualusa avisou no Facebook que eu estava errada, que “presidenta” existe e consta do dicionário. Ele está certo.  De acordo com outro escritor, o especialista em língua portuguesa Sérgio Rodrigues, em artigo publicado na Veja em 2001, “não está errado usar ‘presidenta’ como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente”.

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