Submissão

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Desculpem, mas na selva de cartuns que se formou não consegui mais identificar o autor deste, salvei a imagem mas não anotei o nome.

“Não tenho esposa nem filhos, não tenho carro, nem crédito. Prefiro morrer de pé a viver de joelhos”, declarou ao jornal Le Monde o jornalista Stéphane Charbonnier, cartunista, 47 anos, ao ser ameaçado de morte por radicais islamistas. “Charb”, árduo defensor da liberdade de expressão doa a quem doer, foi assassinado quarta de manhã em Paris ao lado de seus colegas de redação, no escritório do semanário satírico francês Charlie Hebdo, uma introdução desnecessária à compreensão desta crônica. Afinal de contas, quem em todo o mundo civilizado ignora agora o que aconteceu em Paris?

Confesso que quando acordei — mantendo a duras penas  a mesma rotina, ainda escrevo às sextas pela manhã — ainda hesitei quanto ao tema que abordaria. Pensei que talvez fosse mais compensador escrever sobre as miudezas que me aporrinham hoje, projeto de arquitetura, briga de estilo com o futuro condomínio, pequenas revelações de invasões urbanas e indecisão de marido — mas fui logo chacoalhada pela notícia de mais uma violência, um sequestro numa delicatessen judaica nos arredores de Paris, aparentemente vinculado ao atentado da véspera.

Agora, quando efetivamente escrevo, a polícia francesa colocou um ponto e vírgula nos dois lamentáveis episódios e três criminosos estão mortos: os dois suspeitos do atentado ao Charlie mais um dos sequestradores da mercearia kosher. “Suspeitos”: é aí que mora o grande problema.

Depois de ter falhado na proteção a Charbonnier, a polícia francesa teve atuação exemplar, devo ressaltar. Mas a verdadeira criminosa mascarada, a intolerância religiosa, apelidada por muitos de “guerra santa” ou “assassinato em nome de um deus”, continua à solta por aí, ninguém quer saber onde e finge que não a viu; e a vítima verdadeira de todos esses atentados contra a humanidade continua a sangrar, e ninguém por enquanto sabe por quanto tempo ela irá se preservar: a liberdade de opinião.

Não sei se vocês perceberam, mas no parágrafo lá em cima invoquei os radicais “islamistas”, uma amável deferência em nome de uma gigantesca comunidade global que diz tentar se destacar da irracionalidade comunal, mas nada faz para conseguir isso, ao contrário, em certas ocasiões especiais se posiciona claramente, aos gritos pelas ruas, como a “torcida organizada do terror”, vamos combinar. Mesmo assim, separo os islâmicos dos “islamistas”, esperando que também para vocês esse “istas” soe como uma espécie de doença, uma infecção civil que temos pacificamente observado contaminar nossos melhores ambientes, como Londres e Paris, onde criaram o impositivo conceito de “no-go” — nada a ver com meu nome, por favor — regiões onde é melhor você não pôr os pés se tem algum amor à vida, à arte, à cultura e à civilização, enclaves extremistas governados não pelo país que os abriga, mas pela Sharia infame, lei que atropela séculos de equanimidade jurídica para retroceder aos tempos bíblicos do olho por olho e dente por dente, francamente. Morreram e ainda não sabem, desencarnaram junto a seu autoprofeta Maomé na caverna inclemente, nos idos dos anos 600, zumbis, matem-se se quiserem.

Charbonnier, por sinal, candidato da hora a “último dos justos”, reagiu contra a proposta do governo francês para reprimir manifestações islâmicas em Paris: “Se temos o direito de nos expressar, eles também têm”. Na verdade, as ácidas críticas do semanário se estendiam a todas as religiões, uma tentação racional de que sofro também, mas ninguém precisa ser assassinado por isso.

A frase a seguir copiei da Wikipedia — onde fui pesquisar a morte de Maomé para a crônica — por seu tom apocalíptico de profecia que muita gente por aí vê se materializando, como Michel Houellebecq, por exemplo, em seu novo romance Soumission, no qual um muçulmano assume o governo da França em 2022 (o livro de Houllebecq está sendo visto como uma espécie de pivô do atentado por ser o objeto da capa da semana do Charlie Hebdo, algo devido provavelmente ao fato de Bernard Maris, também morto na quarta-feira, ser seu amigo): “O ataque [de Maomé e seus acólitos a Meca] transcorreu em geral sem contestação e Maomé tomou a cidade com pouco derramamento de sangue. Ele destruiu os ídolos pagãos e enviou seus seguidores para destruírem todos os templos pagãos remanescentes na Arábia Oriental”.

Pois é. Acho que o problema dessa gente é uma falha cultural na interpretação. Enquanto a maioria de nós, no Ocidente, consegue enxergar as sagas da Bíblia como simbólicas, menos que históricas (ou mais, de acordo com o grau de crença e o ponto de vista) — um exemplo conveniente é a destruição do bezerro de ouro, ídolo cuja adoração é proibida pelo segundo mandamento —, os islamistas houveram por bem estender essa “sagrada” devastação à vida contemporânea real. Para eles os tempos do Alcorão não terminam nunca, continuam aqui e agora como se nunca devessem ser olhados de fora, a nível metafórico, digo. Por falar em “submissão”, juro por deus — um conceito tão desgastado depois desse mais recente atentado que é melhor incluir qualquer deus fora disso —, ouvi Anjem Choudary, um imã radical de Londres, declarar sem o menor constrangimento: “Islã não quer dizer pacífico, quer dizer submissão. Submetam-se à Lei Islâmica e teremos paz”.

E há um motivo bem definido para essa “santa” violência — eu diria jihadista, mas a tradução não deixa — induzir esse estado de ódio que me afeta profundamente e determina minhas reações por vezes algo dementes: tudo isso está intimamente ligado a um crescente antissemitismo (que na verdade nunca foi abrandado, apenas camuflado), oficialmente reconhecido nesta sexta no discurso de François Hollande, presidente francês, transmitido também ao vivo pela TV, quer dizer, no fundo no fundo, embora tenha o privilégio de ainda permanecer viva, sou também uma vítima direta desse fundamentalismo que em algum canto inútil da minha psique esperei que ficasse confinado ao grave ano de 2014. Ledo engano. 2015 entrou com tudo isso que vocês estão vendo aí, e temo que antes de melhorar, como esperam milhares de bem-intencionados evolucionistas sociais, tantas agressões à nossa mais básica noção de humano civismo ainda devem piorar muito.

Dezesseis de meus irmãos foram mortos covardemente entre hoje e ontem. Je aussi suis Charlie. Long live Charlie.

Um bom domingo procês.

 

PS: Muito a propósito, a título de curiosidade, Alan e eu, que temos um passado como joalheiros, discutimos como a tal destruição do bezerro é tão simbólica quanto impossível na prática. Vocês sabem que temperatura é necessária para se destruir pelo fogo uma massa de ouro desse tamanho?

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