#thepakalolokid

"The pakalolo kid" em ação

“The pakalolo kid” em ação

Esta semana aqui em casa também decretamos uma trégua de 72 horas, que como aquela outra no “mundo real” foi rompida antes do fim, mas, bem, felizmente durou bem mais do que duas magras horas, e foi só um começo. Também morreu menos gente, isso eu posso garantir.

Nas guerras daqui de casa geralmente há um morto que é mais um zumbi, isto é, morre um bocado de vezes e nunca se sente morto o suficiente para assim permanecer: a ilusão de que o Alan um dia vai mudar. E ele até muda. Geralmente por pouco mais de duas horas, durante as quais se transforma num docinho de coco. Um motek, como diria mamãe.

Não sei se vocês sabem, mas entre as muitas qualidades do Alan, além de ele ser um escritor que não escreve, um escultor que não esculpe e um desenhista que não desenha (entenda-se, ele está “aposentado”), está a de ser um “comediante em pé” de mão cheia, ou pé nas costas, sei lá. Ele tem um “número” em que imita a voz esganiçada de uma mulherzinha (fazer vozes diversas é uma especialidade do clã Sklar, sendo minha cunhada Cheryl o maior expoente da categoria, uma bem-sucedida dubladora de L.A., isso eu garanto que vocês não sabiam, e um doce de pessoa), e ontem à tarde ele estava fazendo a tal mulherzinha visitando a nossa casa com a intenção de comprá-la. E claro, criticando tudo.

“Mas onde é o lavabo? Não tem? Ah, preciso no mínimo de mais umas duas suítes, senão minha família não cabe!”

“Meu cachorro não sobe escada! Meu gato tem medo de macaco! Meu filho é muito levado, vai quebrar a cabeça nesse vidro!”

“Essa casa é até bem bonita, mas tem sol demais, não é? Vou trazer a minha filha pra ver semana que vem.”

Ri tanto que quase morri de dor de estômago, o que nas atuais condições de sofrimento diário devido à guerra em Israel é um feito e tanto. Desopilei.

Outro morto-vivo que não se cansa de morrer por aqui é Barack Obama, que o Alan — cá entre nós, e não espalhem pelamordedeus — detesta. Despreza. Alan nunca se cansa de criticá-lo, e minha hesitação em apagá-lo do meu panteão de heróis faz com que assuma essa eterna zumbidade nas nossas batalhas domésticas. Uma das bombas de efeito mental que Alan gosta de explodir é que “o cara”, na juventude, foi não só um “entusiasta da maconha”, uma coisa que B.O. até confessa em seu livro Dreams of my father, mas também… se preparem. Um traficante.

Eu fico quieta. Tô cansada de briga.

Mas voltando ao Alan, duas das poucas palavras que ele aprendeu em português são “cachaciero” e “maconiero”, imaginem aí por quê. Por outro lado, um dos slogans mais usados aqui em casa é o clássico americano “any pill goes”. Explico: o Alan, coitado, quando tinha uns 22 anos mais ou menos sofreu um acidente e morreu, e por isso ele gosta de afirmar que só tem 48, pois aos 22 “nasceu de novo”. E deste acidente ficou com a sequela de uma dor crônica que não o deixa dormir, daí a necessidade de aditivos, alguns legais e outros também, porque sendo o Brésil um país moralista eu me recuso a adquirir os ilegais. Mas mesmo só com os legais, sofro.

Esta semana, por exemplo, fomos vítimas do terrorismo da “malha médica” (saudades de João Ubaldo): com essa confusão de Copa seguida da guerra em Israel fiquei tão fora de prumo que esqueci de marcar hora no cardiologista, et voilà, Alan acabou sem suas drogas redentoras, pois o doutor recusou-se a nos dar uma receita sem “vê-lo”, isto é, sem… deixa pra lá. Schmok.

Sobrou para mim, claro.

Apelar para o álcool, que era um hábito normal (cachaciero, lembram?), ficou mais difícil, Alan meio apavorado porque quando bebe, agora que passou dos 70, deu pra desenvolver uma amnésia, não se lembra do que comeu nem do pão que devorou… pra nem mencionar quantas doses tomou. Maconha, nem pensar, e sem nenhuma pílula para aliviar… Alan resolveu beber leite! E é dessa trégua que estou falando, entenderam? Rompida depois de quatro dias quando ele retomou a velha vodka, entregue em domicílio pelo supermercado. Lechaim!

Agora estou pesquisando um novo drinque infalível, que mistura leite com vodka, com um toque de limão. E batizaremos de “Sossego”, na linha do “Manhattan”. Por que não?

(Um parêntese: Alan sempre odiou o leite brasileiro, mais próximo da água do que aquela piada australiana, mas, recentemente, encontramos a  “Shefa”, uma marca de que ele gostou, e o leite, como todo mundo sabe, e pra quem não sabe já vou informando, tem propriedades calmantes, eu tomo também.  E ainda não botaram tarja preta.)

Neste ponto preciso fazer uma interrupção cultural. Não sei se vocês têm lido, mas nos Estados Unidos a mídia está pegando pesado com um lobby favorável à liberação da maconha, da qual, pudesse tê-la legalmente, Alan certamente se beneficiaria. Enquanto remédio, digo. Mas entre os múltiplos artigos defendendo a liberação (deu até no Washington Post, traduzido pel’O Globo), que by the way defendo também , ao discutir se o álcool é mais perigoso que a maconha ou vice-versa, estão esquecendo um fator muito importante: o vício, meus amigos, está na química neural de quem se vicia, não na substância viciante.

Eu, por exemplo, que no meu passado distante já me considerei alcoólatra, sou capaz de beber, comer chocolate e até fumar maconha sem que a nenhum deles me prenda. Já o Alan… Caramba! Tem uma personalidade tão viciada que esta semana, como eu já previa, na falta de todas as outras vias… acabou se viciando em leite!

— Noga! Já encomendou minhas garrafas de leite? — ele me pergunta, pois sabe que é dia de supermercado (pela internet), me pergunta é pouco. Passa o dia todo me cobrando.

Pois o cara é tão fissurado que acaba sendo azarado, e embora eu tenha encomendado seis garrafas de um litro, só entregaram uma! Ele ficou de-ses-pe-rado!

Bem, voltando a Obama, recentemente Alan o apelidou jocosamente (sim, redundância, eu sei) de “pakalolo kid”, sendo “pakalolo”, e eu tenho certeza de que todos os maconheiros sabem, o nome da erva em havaiano, quase tão manjado quanto aquele gesto descolado (shaka, hang loose).

Agora, vamos combinar, acusar o Presidente dos Estados Unidos de ser maconheiro e ex-traficante é um pouco pesado, né não? Porém, pensem bem, com todo esse movimento irreversível de liberação, por qual obra de seu governo vocês acham que Obama será lembrado? Plano de saúde? Lei da imigração?

Ironia, licença poética: vai dar na cabeça “pakalolo kid”. Obama será glorificado, para todo o sempre incensado, e estamos conversados. Ficará mais eterno do que os judeus enterrados no Monte das Oliveiras à espera do Messias, que a esta altura já deve ter desistido de descer um dia, e não posso culpá-lo, quem iria querer retornar a este mundo tão perdido?

E quanto ao Alan, agora, com Mary Jane à vontade, o homem  só pensa naquilo: quer voltar a viver nos Estados Unidos. Mas diz que é por causa dos filhos.

Os homens são de morte. E é para lá que eu vou.

Um bom domingo procês!

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *