Tigresa

(O preço de não ser [mais] vegetariana)

 

Pois é, fui vegetariana por trocentos anos, junto com todas as outras limitações que eu inventava antigamente para tornar minha vida razoavelmente vivível (ui!), mas agora que não preciso mais disso, nem tenho tempo pra nada disso (santo excesso de trabalho), levo uma vida normal.

Em termos. No apagar das luzes de 2011, briguei com meu açougueiro de anos. Telefonei pra ele às 10 da manhã de uma sexta, como sempre faço:

— Matheus, tem filé-mignon aí?

— Tem.

— É fresco?

— É.

— Então prepara um pra mim, pequeno, do jeito que eu gosto, limpa, tira o cordão, faz picadinho.

Ok. Chego ao açougue (ok, quase me escapou, mas em deferência a três anos de bons serviços vou omitir o nome do estabelecimento, apesar de que, na Praça de Corrêas… bem, deixa pra lá) umas duas horas depois, Matheus coça a cabeça:

— Esqueci o seu filé-mignon!

(Parêntese: o Matheus, além de ser um gato, e muito jovem — ele é filho da Regina, a verdadeira açougueira —, tem o nome do meu ex-marido que antes de odiar mortalmente eu amei de paixão.)

— Mas vou providenciar já, já… — e eu tô de olho.

Vejo o Matheus pegar um filé-mignon resfriado e embalado que eu detesto, mais uma carninha suspeita que rapidamente foi cortada em cubinhos para “emular” o cordão do verdadeiro filé-mignon fresco, mas fico quieta. Vejo o tal resfriado embalado a vácuo ser deslizado junto com o picadinho falso pra dentro da sacola plástica mas fico quieta, ok, é fim de ano afinal, dia de relevar,  junto também com a carne moída de primeira (será? já fiquei duvidando), pesada e cobrada com muito gosto.

— Taquí, desculpa qualquer coisa…

— Quê isso, Matheus, Regina, obrigada, feliz ano novo procês.

Deixei os óculos no carro e por causa disso vou lá na máquina, na confiança, e tasco a senha do meu cartão de crédito, com a pulga meio atrás do toco, digo, da orelha.

Chego ao carro e a primeira coisa que faço é pegar os óculos e conferir a conta: R$120,00, mas como é que é? Pô, peraí! Filé-mignon congelado e pelo dobro do preço? Assim não dá. Voltei lá, despejei o esporro reprimido, recebi o dinheiro de volta (ele fez questão de me entregar cash, nem tentou cancelar a compra no cartão, consciência culpada, será?) e voltei pra casa muito frustrada, fim de ano sem o fatídico filé-mignon.

Pois hoje, sete exatos dias depois, foi a vez de descolar açougueiro novo, coisa que não desejo a ninguém, muito menos aos vegetarianos de plantão. Liguei cá, liguei lá, todos apenas resfriados (como, não custa lembrar, detesto!), quando resolvi passar num Mr. Bife, ou Sr. Bife, sei lá o quê, seja o bife que for, perto da pracinha de Corrêas, Alan de mau humor porque não tinha onde estacionar.

Vai daí que o filé-mignon fresquíssimo, com data de abate e sexo do animal registrados no rótulo (era macho), vindo de Três Rios — onde ficam o frigorífico, o matadouro e a sede da rede de lojas (tá certo, pensando no abate e horrorosas coisas do tipo, tô quase voltando a ser vegetariana) —, custava apenas R$26 o quilo, uma pechincha.

O único problema é que não tinha Matheus, digo, não tinha açougueiro, e eu teria que limpar a peça e tirar o cordão eu mesma, mas, bem, e daí? Já limpei mais de 100 filés-mignons na minha vida pregressa de ex-vegetariana, não vou morrer por causa disso. E me recuso a ser enganada desse jeito.

Além do mais, filé-mignon limpo e mergulhado na vinha d’alhos com alecrim fresco da minha própria horta (sorry, periferia), guardei as gordurinhas para a gatinha que Alan está condicionando, é todo dia kitty, kitty, kitty — devo confessar, a gata-bebê é uma gracinha irresistível, noutro dia quase morri quando a vi mamar da mamãe com a patinha no pelo da dita, eu que sou ex-urbana, graças a mim mesma, não estou acostumada a esses mimos da natureza —, uau, a gatinha comeu tudo em um segundo, faminta, a bichinha… sendo treinada para ser tigre.

Grrrrr.

 

 

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