Traduttori, trattoria

Eis um fac simile (coisa antiga) do trecho mencionado de Safran Foer.

Eis um fac simile (coisa antiga) do trecho mencionado de Safran Foer.

Uma das fontes mais agoniantes desta crise profunda que tenho enfrentado, pior que a velhice, que a dor do lado e os dutos ressecados, é minha mania recente de desejar ardentemente viver (e vencer) nos Estados Unidos.

Não sei o que me deu (mas garanto que muita gente por aí afora sabe). Há quase dez anos venho vivendo calmamente com metade da minha psique nos… Estados Unidos, visto que convivo diariamente com um exigente cidadão daquele país que nunca aprendeu uma palavra de português (exagero: ele diz “boitarde”, “obirgado”, “baniero” e, claro, “cachaciero”; esta semana, com as loucuras de preços da Copa, enriqueceu o léxico com “bôla”). Quanto a mim, em vez de melhorar, confesso que a prolongada intimidade tem piorado o meu inglês, precisando como nunca de uma escovada boa.

Tentei entrar na América pela porta dos fundos como todo mundo faz, isto é, com dinheiro no bolso e ainda sobrando para um bom fundo, mas nada deu certo por esse lado. Não vendi minha casa, que financiaria a casa do outro lado, e ainda tive que abrir mão do terreno em Greenville que nem cheguei a adquirir, fiquei tristíssima, mas, pensando bem, tudo tem um lado bom, não é mesmo? Vai ver tem um “anjo da guarda” me segurando no Brasil, ou então é a velha “âncora” de sempre, disfarçada sutilmente em imperceptível autossabotagem.

Acabei deprimida, não teve jeito. Daí comecei a pensar que talvez devesse fazer as coisas de outro jeito, entrar nos Estados Unidos pela porta da frente, por exemplo, com pelo menos um livro publicado, uma audiência razoável e um blog de crônicas regularmente atualizado. Fácil, não?

Meu primeiro passo então foi contratar uma boa “tradutora pessoal”, que pudesse me ajudar a construir sem muito penar a minha “persona” americana. Claro que tudo isso só veio à tona por um único motivo: como ofereço tradução dos títulos da KBR, acabei topando com uma tradutora que poderia com tranquilidade me prestar esse complicado serviço. Bem, tem outro motivo também, mas esse ainda não estou pronta para revelar, porque minha sorte é tanta, mas tanta, que um prêmio de loteria aí cujo bilhete encomendei em outubro e que deveria sair premiado neste abril passado está pendente até hoje, por problemas de saúde da presidente da comissão sorteadora, loteria literária, claro. E tome de ansiedade, não é mesmo? A decepção final, que seria uma breve contrariedade, tem se mantido em suspenso por problemas bastante alheios à minha vontade, fazer o quê.

Começamos, E. M. e eu. Antes devo esclarecer, para o bem das duas e felicidade geral da nossa mútua pretensão, que ela é excelente, muito paciente, nativa nos dois idiomas e ainda com um nível cultural que considero excepcional — claro, ou não seria a minha tradutora, e tenho que escrever isso de qualquer maneira, vocês me entendem, pois além de ela poder estar lendo esta crônica ainda há chance de que virá a traduzi-la um dia. Que saia justa, hein?

Uma vez perguntei ao Daniel Galera, que tinha feito uma excelente tradução para o português de um de meus livros favoritos, aquele cujo título no cinema se resumiu em “Tão longe, tão perto”, se ele havia trocado informações com o autor, Jonathan Safran Foer, a respeito de determinada passagem bastante intrigante, que, claro, não consta do filme. O personagem do avô, refugiado de guerra, não fala, devido ao trauma só se expressa por escrito, e isso resulta em passagens e soluções literárias brilhantes no livro, impossíveis de se tornarem cinema, claro, mas no trecho específico de que estou falando o personagem chega sozinho ao aeroporto e precisa ligar para a esposa. Como nos Estados Unidos os teclados de telefone incluíam letras e números (isso tudo anterior ao celular e sms, ou a dificuldade não faria nenhum sentido), ele “disca” tudo o que queria dizer, e no livro, como na vida, o texto vem “transcrito” em números, como isso poderia ser “traduzido”? Galera me garantiu que Safran Foer disse a ele que os números eram aleatórios, caso em que dispensariam tradução, mas eu, que sou carne de pescoço, juro que identifiquei um ou outro “eu te amo”. Em inglês isso seria “4 5683 968”, mas, em português, já seria “38 83 266”. Agora imaginem multiplicado por várias páginas. Ui.

Há casos clássicos onde os tradutores já se consideram de antemão traidores, como ocorre com James Joyce, a quem, é claro, eu não me comparo — a não ser em profundos pensamentos —, e cujas várias versões em português, cada uma com seus próprios pecados, comparei no meu livro Santa Molly (deixei de fora a de Caetano Galindo, que é posterior ao meu livro e não cheguei a conferir).

Com James Joyce eu nunca poderia ter conversado a respeito, mas com Safran Foer, bem, talvez até houvesse possibilidade. E embora na KBR eu tenha traduzido alguns autores para o inglês, nunca perguntei como eles realmente se sentem com relação à experiência, mas eu, quando me vi — e me vejo — em outra língua, fico invariavelmente incomodada, é como se me visse pelada em público, ou vestida de homem, sei lá, com toda a minha miséria revelada. Um choque.

A coisa se torna consideravelmente piorada se levarmos em conta dois agravantes: um, que eu acredito que escrevo em inglês, e, por isso, nunca deixo de “editar” a querida tradutora, minha “doppelgänger americana”; o outro, mais sério ainda, é que cada crônica traduzida desencadeia uma crise conjugal, o que demanda uma explicação adicional.

Embora a tradutora entenda muito bem a minha mistura de ironia com assuntos sérios, eivada de citações e sutis apelações, incluindo todo tipo de rimas e trocadilhos nem sempre aproveitáveis em inglês, digo, quase nunca, Alan quer que a minha escrita de primeiro mundo seja mais elevada, intelectual, desnuançada, o que sempre resulta em roubada, de duas, uma: ou ele duvida da minha capacidade literária ou afirma ter certeza de que eu deveria esquecer a maldita pretensão a ser publicada, de um jeito ou de outro uma dor danada.

Acabo forçada a me incluir no rol dos “intraduzíveis”, mas, como isso implica numa frustração bem mais aprofundada, dando um golpe de misericórdia no meu desejo de ter acesso à porta de entrada, vou adiando, poupando ao resto do mundo a minha sentida e inevitável ausência.

E como não creio em coincidências, pero que las hay, las hay, enquanto escrevia esta crônica recebi por email o resultado negativo daquela proposta de tradução literpária, ops, literária (se vira para traduzir isso, Mrs. M.! ), que mencionei lá em cima. Enquanto eu pesquisava a tal bolsa americana, percebi que no ano passado quem acabou laureada foi uma autora morta em mil oitocentos e poucos, bem, aí a concorrência fica muito ampliada, endurece ainda mais a parada. Isso, pra nem mencionar que em email enviado pela própria presidente do triunvirato universitário ela mesma me informa que não lê português, aliás, nenhuma das três, então, me pergunto, e Alan também: como será que fui avaliada? Ah, melhor esquecer. Tudo acaba em pizza de qualquer maneira. Ou em porre.

Bom, termino a crônica parafraseando Obama, até que me acostume a pensar (e escrever) como uma verdadeira americana: “Levanto, sacudo a poeira, dou a volta por cima”.

E um bom domingo procês.

 

 

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