Trem descarrilhado

alx_zica-rio-carnaval_originalSério, eu estava cá tentando imaginar o estado de ruína absoluta (com o perdão da redundância) em que o Brasil se encontra como algo à parte do meu exílio voluntário… quando tudo se transformou numa história mais pessoal do que eu planejava: uma amiga querida descobriu-se grávida durante essa onda de alarme envolvendo a gravidez no país mais infestado dos últimos dias.

Eu e Alan conversamos, e ele me aconselhou a escrever sobre o tema, caso eu assim decidisse, de forma mais científica e sem nenhum viés em particular, uma missão impossível.

Pra começar, não sou cientista. Pior, mais grave, sou fiel praticante e disseminadora de disse-me-disse, mais inconveniente ainda devido ao meu hábito de exagerar. Pelo menos no Brasil, o que escrevo pertence ao gênero literário amplamente conhecido como “crônica” (não reparem, eu agora escrevo para estrangeiros), também caracterizado por um ponto de vista muito pessoal.

Não que a grande mídia seja muito diferente, nada disso. Sempre que a gente tenta se aprofundar em tudo o que foi publicado, ou ainda está sendo anunciado, é o que a gente encontra exatamente: mais disse-me-disse.

Nada disso me espanta. Vivi minha vida toda nesse país que o Alan não conseguiu deixar de apelidar como “a terra de Absalokhes” (sorry, não faço a menor ideia de como devo escrever isso), onde, de acordo com uma antiga, politicamente incorreta canção em iídiche, “vive um negro mit [com] um tokhes [traseiro] branco”.  Cá entre nós, não tem nada de ofensivo nisso. Trata-se apenas da descrição de um país onde praticamente todos os aspectos da vida diária estão repletos de mentiras e impossibilidades.

Ok. Poderíamos muito bem estar descrevendo o Brasil de hoje.

Mais surpreendente ainda é que de repente, não mais que de repente, a altamente marginalizada comunidade científica brasileira (um oximoro, diriam alguns) passou a ser vista como legítima e precisa pelo primeiro mundo. Pelos Estados Unidos, para ser exata, cujo presidente, às vésperas de não sei que evento terrível, ofereceu de imediato outra de suas miraculosas intervenções, com as quais pretende salvar o mundo de si mesmo. Ou, pelo menos, de sua grave doença largamente disseminada.

Não me levem a mal. No campo das doenças infecciosas, principalmente as transmitidas por mosquitos, a ciência brasileira com certeza tem seus luminares. Como Carlos Chagas, por exemplo, que não só descobriu uma perigosa doença em 1909, como também a descreveu e nomeou — doença de Chagas — embora não tenha encontrado a cura.

Tudo o que posso dizer sobre o Aedes Aegypti de um ponto de vista mais pessoal é que nos encontramos certa vez, há mais de 10 anos. Sim, eu tive dengue, naquele momento a única doença transmitida por este determinado mosquito. Meu Deus, como passei mal.

O tal mosquito sempre foi descrito como uma praga de verão, prosperando à vontade em águas paradas, acumuladas devido às pesadas chuvas da estação, e também naqueles pratinhos sob os vasos de plantas. Éramos instruídos a manter bem secos os tais pratinhos, e no auge da epidemia, agentes de saúde do governo eram autorizados a entrar nas casas para esvaziá-los e espirrar inseticida. No inverno não se ouvia falar em dengue, tudo bem que no Rio, como todo mundo sabe, o “inverno” dura uns dois dias, três, com sorte.

Agora, falando sério, ao longo desses mais de 30 anos em que morei no Rio de Janeiro, nunca se ouviu falar de dengue nos meses de inverno — junho, julho e agosto. O que nos leva a suspeitar dessa pressa do governo Dilma em emitir um alerta mundial, que acabou resultando em milhares, milhões de cancelamentos de planos de viagem, afetando os próximos Jogos Olímpicos. Por quê?

Deus me livre e guarde de tentar interferir na mui desejada saúde das nossas gestantes, mas, francamente, não consigo parar de me perguntar: por que agora? Por que desse jeito, considerando que o vírus da zika foi detectado no Brasil pelo menos desde a Copa de 2014? E não é só isso. Enquanto o pânico se espalha, parece que o país inteiro está condenado, transformado num inferno, afundado debaixo de um negro enxame de mosquitos infectados. Quando na verdade o foco é bastante limitado a determinado Estado, mais ainda, uma parte desse Estado no sertão do nordeste, uma das regiões mais pobres do país. Onde, aliás, boa parte dos casos suspeitos de microcefalia foi, na verdade, declarada como dissociada do vírus da zika.

Haveria quem sabe alguma possível ligação entre esse alerta e todos os demais graves problemas que têm afligido o governo Dilma? Algum tipo de distração diabólica, talvez?

Tá bem. Desculpem aí. Melhor me ater aos fatos desta vez.

Um dos mais terríveis resultados dessa onda de mídia alarmante é que grávidas perfeitamente saudáveis, muito provavelmente não infectadas por mosquito nenhum, estão pensando seriamente em aborto — que no Brasil, como todo mundo sabe, é ilegal, podendo ter sérias consequências se a grana estiver curta demais para pagar uma clínica sofisticada, clandestina de qualquer maneira. Para não mencionar as centenas de fetos saudáveis correndo o risco de serem privados de seu direito à vida. Vamos combinar, é fácil o pânico se descontrolar.

E por que cargas d’água eu perderia meu tempo escrevendo sobre isso? O gato está fora do saco, meus amigos, e não tem como enfiá-lo de volta. Mas quem sabe eu pudesse, pelo menos, salvar do destino alguns desses “anjinhos”, almas inocentes despachadas para o outro mundo sem dó nem piedade, e sem direito de escolha.  Que vergonha. Que horror.

Li no jornal que os casos de microcefalia, uma condição congênita rara, agora associada à zika, subiram 49% só esta semana. Mas há uma chance de que não seja a doença, mas sim sua comunicação às autoridades competentes que tenha aumentado. Antes de sua associação com a zika, as mães em geral não se viam como infectadas, mas sim como azaradas. Além disso, os casos de bebês com microcefalia precisam ser associados a uma contaminação ocorrida no ventre materno um bom tempo atrás, seis meses antes do parto. Isso, para nem mencionar que em muitos casos a zika é tão branda que pode passar despercebida, devido à ausência de sintomas. Sim, a coisa é confusa. Mais ainda para as pobres mulheres mal-informadas do sertão nordestino.

Apelemos agora para um pouco de ciência, se mais não for, pelo menos para me proteger da minha própria verve especulativa. Uma amiga brasileira, médica experiente que mora no estrangeiro, descreve como obrigatório o que ela chama de “ciclo de Pasteur”: para se ter certeza de que duas doenças estão relacionadas — como, por exemplo, zika e microcefalia — é necessária a seguinte sequência:

 

  1. Coletar o suposto agente causal, nesse caso o vírus da zika, de uma criança com microcefalia.
    2. Cultivar o vírus em um laboratório.
    3. Inocular o vírus cultivado em um animal, nesse caso, um embrião animal, provocando a doença, ou seja, microcefalia.

 

Alguém fez isso? Duvido. A doutora me contou ainda que há alguns anos uma condição grave foi associada à doença de Chagas. Como agora com a zika, o vírus Trypanosoma foi encontrado em todas as pessoas com bócio, mas tudo não passou de coincidência… A região mais afetada pela doença de Chagas tinha também uma grave ausência de iodo, que era a causa real do bócio… Entenderam?

Mais estranha ainda é a completa ausência de casos de microcefalia em outras regiões do mundo altamente afetadas pela zika, como a Polinésia, por exemplo. Uma pesquisa bem superficial pode esclarecer que, apesar de que só agora se estar dando atenção ao fato, o vírus da zika foi descoberto em Uganda em 1948, levando à conclusão de que deve haver nesse caso um terceiro agente, ainda não identificado. Caso contrário, os pobres ugandenses teriam atualmente inúmeros adultos microcefálicos circulando pelo país. A não ser, é claro, que estejam todos mortos, para sempre não registrados.

A zika é uma doença grave, demandando todos os esforços no sentido de encontrar uma vacina o mais rápido possível. No entanto, no atual estado de decadência e descrédito generalizado em que o Brasil se encontra, esses alertas e as últimas notícias envolvendo a zika e a microcefalia deveriam ser tratados com um mínimo de incredulidade. Pelo menos até que o caso seja melhor investigado, de preferência antes que o pânico global chegue às raias da loucura, o que já ocorreu. Pleito indeferido.

Numa nota final, na saudosa Minas da minha infância a palavra “trem” é usada para descrever tudo, qualquer fato ou ato, ou coisa, em especial algo não descrito anteriormente, como esse trem zika aí. E que trem descarrilhado, nossa mãe. A gota d’água para afundar de vez essa terra abandonada chamada Brasil.

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