Truta amarela, ou Letícia, a bela

aecioleticiaNo Hortomercado de Itaipava, Alan reclama da cor meio suspeita da truta que estou comprando.

— É que o lago está baixo — diz o João truteiro. — Muita seca neste inverno.

Deixa eu explicar que aqui em Itaipava, quase como em Brasília (aqui nunca é um inferno), existe efetivamente uma seca em todo inverno, mas…

— Uai, João, não estou achando este ano tão seco, não, tem chovido vários dias…

— É porque a senhora está em Correias, no Rocio é diferente!

O Rocio é a uns 8 km daqui. Desconfio que algo que está errado, ah, já faz muito tempo que eu desconfio que algo anda errado.

Já vou logo alertando que, ao contrário da crônica passada, esta aqui não tem a ver com conhecimento da realidade, histórico, nada — a não ser, eu juro, os diálogos citados —, mas com algo bastante aleatório que vem me afligindo estes dias e que não posso definir, mas posso sentir, que me aperta a garganta e me deixa ansiosa, certa de que algo grave está por vir.

Ontem mesmo tive uma conversa arrepiante com um grande empresário aí que é meu amigo íntimo, a quem posso fazer esse tipo de pergunta, dá uma olhada:

— Assim que o PT sair do poder, outros podres vão começar a estourar. A Petrobras está falida, a gasolina terá que subir 50%. O sistema de energia elétrica está quebrado, a conta de luz vai ter que subir 50%. Vamos ter aí um caos de um ano pelo menos, mas vai ter que ser assim, tá todo mundo aceitando.

— E isso de a Marina ser eleita, o que você está achando?

— Bem, temos que aceitar. A gente não pode fazer nada. O quadro já está definido. O que não podemos é deixar o PT prosseguir com seu vandalismo, eles têm que sair de qualquer maneira, se for com Marina, que seja. Seja quem for que estiver no poder será culpabilizado pelo PT por tudo de ruim que irá acontecer, digamos, dirão que Marina em menos de 30 dias quebrou o país, destruiu o sistema elétrico.

— E o seu dinheiro, como está?

— Está todo investido no banco, tudo certinho como manda o figurino.

— Não vai comprar umas barras de ouro, pelo menos?

— Não, vou deixar assim mesmo.

— E se fizerem alguma coisa maluca, como o Collor fez?

— Depois passa.

Pergunto a ele sobre a passividade de Aécio, por que ele teria desistido antes do tempo, e recebo a mesma resposta: está tudo resolvido, ele não pode fazer nada.

Desligo o telefone e me sinto terrivelmente deprimida. Meu amigo empresário não é o único que está pensando assim, tenho outros amigos não tão ricos nem tão importantes mas também bastante inteligentes que estão pensando da mesma maneira. Estão todos conformados, com um inusitado e inexplicável “espírito de manada”.

Parece que o Brasil inteiro está sendo dominado, está embriagado com algum tipo de droga mental, exagero na comparação, como estava a Alemanha inteira à época da ascensão de Hitler ao poder. Todos aceitam e acreditam em coisas absurdas, totalmente inaceitáveis, uma espécie de delírio coletivo gerado por uma propaganda tão bem engendrada que a gente não consegue perceber, não consegue enxergar um palmo adiante do nariz, perdidos numa névoa de drogados.

Curiosamente, faz parte dessa lavagem cerebral um crescente antissemitismo até nos lugares mais absurdos, imaginem que esta semana a Fundação Bienal de São Paulo DEVOLVEU dinheiro de patrocínio a Israel, não, Hitler nada tem a ver com isso. Mas escuto de uma amiga muito culta e sofisticada a história de Alice Miller, uma escritora e pesquisadora suíça especializada em abuso infantil, que  morreu há pouco e teve que ser enterrada às escondidas por ter descoberto e publicado que o avô de Hitler era judeu, imaginem, toda aquela desgraceira que dura até hoje, tanta gente acreditando piamente no “mito do judeu errante”, porque um judeu safado estuprou sua empregada e a engravidou de um bastardo, isso, Hitler não passava de um judeuzinho bastardo cheio de ódio apoiado por forças desconhecidas, digo, não divulgadas, que exploravam a sua raiva, matem-me se quiserem, quem seria no Brasil de hoje o bastardinho revoltado?

Caramba, até aquela besteira há séculos desmentida de “Protocolos de Sião” está sendo infiltrada na realidade drogada dos brasileiros em manada. E todo mundo aceitando, acreditando que não pode fazer mais nada. Marina, de quem não gosto e em quem não votarei, foi acusada num artigo de ser emissária do “sionismo”, bancada por George Soros, podem acreditar, pois a maioria já está acreditando, assim como acreditam na seca que está nos matando, ops, matando as trutas do Rocio, tudo em nome não sei de quê que deveria estar avacalhando sem remédio a vida na terra, fechando os nossos olhos para tudo o que há de bom e que não inclui um governo Marina no Brasil.

Gente de bem, do meu nível de elite —ah, vocês perceberam, digo isso a sério, não com a jocosidade lulopetista “de zelite”, sou de elite mesmo, nasci numa boa família, fui educada nos melhores colégios e faculdade, viajei, falo inglês correntemente e tenho uma cultura acima da média, além de ganhar dinheiro suficiente para ter uma vida confortável, sem exageros nem gastos dementes, VW velhinho etc. —, está aceitando como um ponto positivo, deletério jogo do contente, o fato de se “preservar Aécio para daqui a 4 anos, quando Marina tiver esgotado sua incapacidade de dominar o caos que virá”. Mas eu não consigo.

Tenho 62 anos, 60 e meio dos quais vividos num Brasil que embora a ele eu tenha com insistência me dedicado nunca me proporcionou uma sensação de confiança no meu país, tantos absurdos tive que presenciar e aceitar, desde ditaduras e suas terríveis torturas a planos econômicos dementes, moedas delinquentes e sabe-se lá quantas empregadinhas estupradas gerando poderes impensados e inconsequentes com toda a sua carga de raiva reprimida a um ponto indecente, bons psicanalistas saberiam explicar isso, não fosse a Psicanálise uma desprezível invenção de judeu que todos devêssemos boicotar.

Não tenho mais quatro anos para aventuras e desacertos, meus amigos, a bem dizer não tenho mais nem quatro semanas de Brasil para me deprimir. Mas mantenho aqui meu negócio adorado que é boa parte da minha vida, família e amigos que ou não me escutam quando digo que aí tem truta ou apesar de me ouvirem nada podem fazer, ou imaginam que assim é.

O próprio Aécio Neves, que pessoalmente não conheço, mas com quem simpatizo — agora um pouco menos porque sei que usou botox para conquistar eleitores, quando lhe bastava convencer a todos de que tentará livrá-los de seus temores —, parece ter desistido antes do tempo, entregado a partida aos bandidos antes de ter começado o verdadeiro evento, não faça isso, Aécio!

Cada cabeça uma sentença, sei lá o que Aécio estará pensando, com seus gêmeos recém-nascidos prematuros para se preocupar. Deveria explorar suas benesses e dramas domésticos para nos aliciar, sua Letícia bela que a gente nunca vê participar de nenhum palanque, afinal de contas, não está todo mundo apelando para o que tem de mais grave e impactante? Por que devemos ser inundados com imagens de gente feia quando há alguma beleza para ser apreciada? Será parte da trama?

Ok, digam que enlouqueci, se quiserem, que minha teoria da conspiração é tudo que eles querem para provar seu ponto, mas que aí tem truta, repito, tem. Ainda bem que por enquanto só a truta é amarela.

E um bom domingo procês.

 

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