Tudo aquilo pelo que vale a pena lutar

Cartoon by WikiLeaks.

Cartoon by WikiLeaks.

Tudo bem que o Alan tenha lá suas dificuldades para mandar um e-mail e viva me pedindo socorro, seja para classificar as mensagens de acordo com a data ou o remetente, ou para anexar um arquivo, uma foto no corpo da mensagem, o que costuma ocorrer com frequência com gente “da nossa idade”. Mas Alan, vamos combinar, não é candidato à presidência dos Estados Unidos. Na verdade, está aposentado já faz uns dez anos, não trabalha (embora esteja ralando para construir a nossa casa), nem muito menos tem chance de influenciar pessoas, a não ser, talvez, a mim e aos dois filhos. O que não quer dizer que ele não seja um sujeito brilhante, capaz de um profundo entendimento dos acontecimentos e capaz até mesmo de prever com bastante exatidão o que está para acontecer.

Agora, cá entre nós, o que você acha de um presidente americano que não tem uma mínima noção a respeito de como enviar e receber e-mails? Ok. Boa parte das pessoas não entende nada de tecnologia. É gente que até sabe usar um computador, ou um celular, mas caso ocorra qualquer imprevisto ou problema, chamam o técnico para consertar.

Não é o meu caso. Já pedi ajuda algumas poucas vezes, é verdade, geralmente ao webmaster da KBR. Por sinal, só contratei um webmaster quando o site da empresa cresceu a ponto de se tornar impossível de controlar, a não ser que a pessoa trabalhasse nisso em horário integral. Nosso site, imaginem, hoje em dia tem mais de 500 páginas!

Por essas e outras tenho acompanhado com grande interesse toda essa polêmica em torno dos e-mails de Hillary Clinton. Comecei esta semana pesquisando uma coisa chamada “domínio”, que é a parte de um endereço de e-mail que vem depois do “@”, e descobri que o domínio que ela usou em seu servidor privado, “clintonemail.com”, foi registrado pela primeira vez em 2009, o que faz sentido — é o ano em que ela foi nomeada Secretária de Estado. Em seguida foi renovado em 2015, o que quer dizer que, pelo menos, ela pretendia continuar usando. E hoje em dia está válido e ativo até janeiro de 2017. Se isso não caracteriza “intenção” não sei o que caracterizaria.

Os dados do registrar (organização na qual você registra um domínio e paga uma taxa para mantê-lo funcionando) acusam que o domínio de Hillary está hospedado num servidor chamado “worldnic.com”. Mas quando a gente acessa esse servidor, recebe um alerta dizendo que “seu computador pode estar sendo alvo de hackers” e não é seguro continuar. Caramba.

É bem verdade que o domínio de Hillary não tem um site no ar. E, por falar nisso, acaba de ser revelado pelo próprio Julian Assange que os russos não têm nada a ver com nenhum hacker envolvido com os e-mails vazados. Quer dizer, hoje em dia, nos EUA, as pessoas mentem com a maior tranquilidade, e não estão nem aí para as (sérias) consequências de suas mentiras.

Dito isso, podemos prosseguir para o próximo ponto: a derrubada de uma candidatura por conduta sexual inadequada.

De Donald Trump? Nada disso. De Anthony Weiner, (ex-)marido de Huma Abedin, braço direito de Hillary, que está sendo acusado pelo FBI de trocar mensagens sexuais com uma menor. Francamente, nada tenho a dizer sobre esse pervertido reincidente, a não ser que foi através da investigação desse crime que o FBI descobriu milhares (650 mil) de e-mails no computador que ele, aparentemente, compartilhava com sua mulher, e que contêm e-mails pertinentes ao caso de Hillary. E foi isso que reacendeu a questão do servidor no porão de Hillary.

Embora eu não tenha conseguido me transformar numa mosquinha para pousar num pedaço de bolo na cozinha de Hillary, não tenho a menor dificuldade de imaginar a cena. Ai. Meu. Deus. Ela estava tão certa de ter se livrado de vez desse maldito problema!

— E essa agora! — grita ela, desalentada. — Que mulher idiota! Que homem mais asqueroso!

Não sei, mas imagino que ela esteja falando de seus amigos mais fiéis, de seus aliados mais confiáveis. Nunca confie num homem inclinado à perversão, alguém capaz de te mandar uma mensagem pedindo para você “tirar a roupa e se tocar sexualmente”. A não ser, é claro, que ele seja seu amante e vocês sejam ambos solteiros e descomprometidos, namorando num mundo que troca mensagens o tempo todo. Eu mesma já passei por isso, devo confessar; e somado a algumas outras atitudes românticas isso mudou radicalmente a minha vida. Melhor: arranjei um marido e um excelente companheiro.

Agora, como pode alguém esquecer que para todo e-mail enviado tem alguém recebendo do outro lado? E que essa pessoa tem seu próprio computador e seu próprio jeito de lidar com ele? Pior, pode ter um cônjuge com eventual acesso a essa máquina, e esse cônjuge pode, por sua vez… ah, melhor deixar pra lá.

Conclusão: não importa o resultado dessa eleição, algo precisará ser mudado na nossa rotina conectada diária, isso é certo.

É claro que o presidente dos Estados Unidos não tem que se virar sozinho com seus problemas de celular ou computador, mas agora consigo entender, e até concordar, que era mesmo perigoso para um presidente continuar usando o seu Blackberry como fazia antes de ser eleito. E continua sendo. Não sei se vocês ainda se lembram dessa discussão, que ocorreu com Obama logo depois de sua vitória em 2008.

Pode ser prático. Pode ser rápido. Mas algo me diz que, no que se refere a qualquer informação confidencial e altamente pessoal, teremos em breve que alterar nosso comportamento, o que poderá até mesmo incluir nossa vida sexual. Infelizmente, teremos que regredir, minha gente, voltar àquele tempo em que as pessoas se tocavam e conversavam pessoalmente, frente a frente, ou será que ninguém se lembra mais disso?

Bom. Vamos prosseguir, agora para o último assunto em pauta. Semana passada, no Brasil, a maioria dos prefeitos eleitos poderia ser qualificado como “conservador”, na maior queda anunciada do PT desde que o partido foi fundado, e não me admira. Mas me deixou matutando: o que teria acontecido com a nossa querida esquerda?

Ah. A esquerda… tudo o que há de mais bacana, de mais justo, tudo aquilo pelo que vale a pena lutar… Tradicionalmente, a esquerda sempre esteve à frente da justiça social, das questões ambientais e de uma miríade de outras coisas cruciais, coisas que verdadeiramente importam, e precisam ser reexaminadas e redefinidas periodicamente. Para ser mais exata, faz tempo que a esquerda monopoliza essas questões, se é que vocês me entendem.

O pessoal de esquerda, vamos combinar, sempre foi tudo de bom, não é mesmo? Foi o poder da esquerda, dos progressistas, dos liberais — não importa o nome que se use — que sempre esteve à frente da batalha pelos direitos civis, direitos das mulheres, proteção das minorias. Sempre foram de esquerda os intelectuais, artistas, escritores, gente que se dedica a refletir sobre a vida e tenta sempre evoluir, nos empurrar para a frente, para um mundo mais justo que favoreça igualmente a cada um de nós, e por isso foram perseguidos, injustiçados, muitas vezes com violência, torturados e até assassinados: são nossos mártires sociais, e não devemos jamais esquecer isso. Jamais. Foi essa gente que sempre batalhou a nosso favor e melhorou consideravelmente nossas condições de vida; primeiro sonhando, depois realizando seus sonhos revolucionários. E isso foi sempre o máximo.

Mas, vale refletir um pouco mais longamente sobre isso: toda vez que a esquerda conseguiu o poder, o resultado foi invariavelmente um desastre. Uma vez no poder destruíram países, sociedades, famílias, culturas inteiras. Perderam o rumo, essa é que é a verdade, e com seus delírios descuidados, sua falta de noção de realidade, quase acabaram nos destruindo a todos. Quero dizer, destruindo a raça humana, principalmente ao tentarem, com seu idealismo exacerbado, manipular e interferir em tudo, até mesmo na nossa biologia.

Estranho, não? Não são essas exatamente as mesmas pessoas que sempre admiramos, os mesmos revolucionários que adoramos, respeitamos, queremos imitar?

Sim. Mas sabem aquele velho ditado, “cuidado com aquilo que você deseja?” Pois então. Uma vez no poder, não havia nenhuma força expressiva para contrariá-los, quer dizer, uma oposição forte o suficiente para controlá-los, para impedi-los, ao menos por um tempo, de realizar seus sonhos mais caros, mais ousados — e mais alucinados —, sonhos que, embora representem o avanço da humanidade, precisam ser refinados, filtrados, cortados pela metade ou menos que isso, para que sobre somente aquilo que realmente pode funcionar e nos favorecer de verdade. Entenderam? Ouso dizer que não mais que 95% desses sonhos admiráveis são realmente realizáveis.

Mas, uma vez no poder, convencidos de que são simplesmente o máximo, o que há de melhor e mais avançado, acreditando que tudo que fazem é perfeito, maravilhoso, impossível de ser criticado… tudo isso só poderia resultar numa coisa: um de-sas-tre.

Pensem bem: façam uma lista de todas as questões sociais (ou políticas, ou econômicas) que nos últimos tempos pretenderam fazer a sociedade “avançar”, e vocês verão que tudo acabou em desastre, como no Brasil, ou o fará em breve.

Então, vejam bem, a não ser que isso lhes pareça extremamente ofensivo e vá contra os seus valores mais caros, o melhor para todo mundo neste momento é recuperar um certo grau de conservadorismo, conservador nesse caso querendo dizer preservar aquelas coisas que sempre funcionaram desde que o mundo é mundo. E, generosamente, deixar para a esquerda a gloriosa tarefa de confrontá-las e combatê-las à vontade.

Não se preocupem, sempre haverá gente suficiente para se revoltar, para sonhar, para sugerir ideias incríveis que, eventualmente, resultarão na evolução social. E serão ainda mais eficazes se tiverem que lutar por isso, que resistir heroicamente ao ponto de se deixarem destruir por seus ideais, e assim, automaticamente, acabarem repensando e reduzindo até atingir um resultado na prática. Para isso serve a juventude!

Acreditem, não nos faz bem nenhum conseguir as coisas com muita facilidade, apesar de todas as evidências em contrário. Eu que o diga. Somos provavelmente condicionados a desvalorizá-las caso isso aconteça, e, caso a situação permita, a perder a proporção e a noção de limite, mais ou menos como ocorre com os drogados.

A vida toda tive dificuldade para conseguir o que eu queria, e claro que sempre odiei isso, sempre me senti uma degraçada, injustiçada. Mas, paradoxalmente, acredito hoje em dia que esta é a melhor maneira, e assim deve ser para o bem de todos e a felicidade geral de qualquer nação.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *