Tudo é relativo

Arco-iris na Notre-Dame depois de varios dias de chuva.

Arco-iris na Notre-Dame depois de varios dias de chuva. (Foto Alan Sklar)

Alguém aí acredita na comida orgânica do supermercado?

Eu não. Mas posso garantir que há menos de uma semana me deleitei com o primeiro peru orgânico verdadeiro da minha vida, sem trocadilho: foi caçado em frente à porta de casa, temperado e cozinhado (ui) por meu filho Erik, numa especial deferência à nossa presença em sua cabin pré-fabricada no meio da floresta da Carolina do Sul, de onde, ele me conta orgulhoso, os confederados mandaram os sanguinários ingleses tomadores de chá para a puta que os pariu. Estava a ave, segundo ele mesmo revelou, congelada há uns quatro meses aguardando a correta ocasião, e fomos nós os contemplados, não é uma delícia? O peru, preparado com variadas especiarias num estranhíssimo baú a gás com raios infravermelhos, estava impagável (priceless). Inenarrável. O peito foi inteiramente degustado na mesma noite pelos Sklars, “três judeus em torno de uma mesa”, Erik lembrou, e fez a brachá. Gostei (a mãe verdadeira é gentia).

No dia anterior ao meio-dia, sentado na cozinha todo camuflado, o rosto pintado como o de um selvagem em verde e preto, de volta da caçada aos patos também selvagens que vivem nos lagos daquelas bandas (quando não estão congelados, devido ao atual “esfriamento global”), bebendo rum barato num copo de água com o nosso filho como marinheiros de verdade, Jim, um amigo do Erik, tinha nos alertado para o fato de que as coxas desses perus da floresta (ainda sem trocadilho) são duras demais para serem comidas. Mas desafiando o bom senso dos que fazem faz da caça diária uma atividade comum que lhes garante a sobrevivência, fiz da carne restante um bom risoto para a faminta família, teimosa, eu.

Deu certo. “Com amor tudo dá certo.”

Resto, aqui.

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