Um ano daqueles

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Pois é, incrível, estamos de novo naquela época do ano em que, se a gente deixar, as coisas nos carregam para relembrar. Está meio cedo, até, mas por razões que ao longo desta crônica garanto que vocês vão entender, tirarei uns dias de folga na semana que vem, desta vez folga de verdade, não “no expediente de editora” para privilegiar o “expediente de tradutora” ou de “designer”, ou outro papel qualquer a que me dedico rotineiramente, se é que vocês me entendem. Vou parar para preservar a sanidade mental, e até mesmo, se eu conseguir, cumprir minha própria recomendação de me afastar por uns dias da rede social para poder refletir sobre os fatos que tantos reflexos mantêm sobre nós no dia a dia corrido e hiperconectado, ufa.

Amigos, tudo que tenho a dizer sobre este ano que termina poderia ser resumido numa só frase, curta e grossa: “Eu mudei”. Mas vou mais além, citando algumas coisas que me deixaram marcada, não todas, porque neste caso não seria uma crônica, mas uma saga, ou, como bem disse aquele amigo de Facebook, “uma porrada atrás da outra”.

Parece ainda mais incrível, mas juro que aquele atentado que matou os cartunistas da Charlie Hebdo aconteceu neste 2015, enquanto estou escrevendo estou duvidando de que seja verdade. Porque foi um ano que, francamente, começou mal e termina pior, no quesito terrorismo, pelo menos, com os novos ataques de Paris e da Califórnia.

Em 2015, o terrorismo islâmico, com todos os pingos nos Is (caramba, isso vai ser intraduzível de verdade), conquistou um lugar sem nenhuma honra entre os nossos maiores medos cotidianos. Para quem mora nos Estados Unidos como eu, não houve assunto de maior relevância, misturado a seus efeitos “menores” como as crises de imigração e refugiados que tomaram conta do debate eleitoral por aqui. O que merece uns dois ou três parágrafos à parte nessas minhas convolutas rememorações.

Neste ano em que obtive tantas conquistas como uma nova imigrante e portadora de um Green Card — daquele de 10 anos, felizmente bem diferente do visto temporário concedido desastrosamente à “Mãe Radical” de San Bernardino, francamente, eu, que nada tenho a esconder, tive muito mais medo de ser “reprovada” ou até mesmo “repatriada” do que a radical desalmada, vamos combinar — percorri uma trajetória de opinião da esquerda para a direita que antes seria impensável, mas que ocorreu, naturalmente, com base na minha vivência diária americana. Ou, talvez, por instinto de sobrevivência no estrangeiro, isto é, por amor ao meu republicano marido igualmente de 10 anos, comemorados no dia 10 de dezembro (numerologistas, falem agora ou se calem para sempre).

Por causa disso, comecei a ver as coisas sob outro prisma, e a me sentir mais confortável com um modo conservador de ver a vida, optando, por consequência, por torcer pelos republicanos nas próximas eleições, sem ter ainda conseguido escolher este ou aquele, porque, cá entre nós, parece que a classe política foi pro brejo no mundo inteiro, não apenas no Brasil. No debate desta semana, por exemplo, meu escolhido original, Jeb Bush, tropeçou tanto nas próprias palavras e ideias que pensei que fosse desistir de sua candidatura ali mesmo, no pódio, por pura vergonha da própria inépcia.

Quanto ao favorito Donald Trump, ainda não o vejo presidente dos Estados Unidos de jeito nenhum, mas reconheço seu importante papel em trazer para o debate umas questões que já andavam atravessadas nas nossas gargantas faz um bom tempo, lá enfiadas de modo sufocante pela ditadura do “PC” — não “personal computer” como poderia parecer e até faria todo o sentido, mas “politicamente correto”, um acrônimo novo que aprendi ontem. De toda forma, e cabelo engraçado à parte — algo em que o candidato, aliás, faz a maior questão de não mexer —, comparar o candidato a Hitler é uma armadilha tremendamente ofensiva na qual vários queridos comentaristas liberais têm caído, e ofensiva não para o candidato, que a tudo ignora solenemente, nem para o povo, que continua optando por ele tranquilamente, haja vista sua subida nas pesquisas, mas para o imaginário americano.

Como assim, o generoso, misericordioso, comunitário povo americano estaria pensando em eleger um nazista? É um escândalo, e uma injustiça. Isso, para nem mencionar que não vejo um único ponto de contato entre os Estados Unidos de hoje e a Alemanha da República de Weimar que precedeu à ascensão (e subsequente queda, felizmente) do 3º Reich. Essa gente não pode estar falando sério. Em primeiro lugar, embora dez entre dez candidatos e comentaristas se refiram à economia como “desastrosa”, eu, como brasileira, acho que é francamente auspiciosa, vamos combinar. E o Fed está aí para confirmar. Não vejo ninguém na fila para adquirir cupons de racionamento nem pessoas trazendo um carrinho de mão cheio de dólares corroídos pela inflação para comprar um pão. Os muçulmanos que estão em discussão, não vou me arriscar a dizer se justificadamente ou não, não estariam, se fosse o caso, sendo “discriminados” com base em sua raça nem em sua religião, mas na verdade com base no medo real que todos sentimos de seus irmãos extremistas, que matam gente a rodo sem nenhuma hesitação; nem muito menos tendo seus bens confiscados ou sendo tratados como animais ou ainda correndo o risco de serem assassinados em massa e em seguida incinerados, sem perdão. Isto, meus amigos, jamais aconteceria nos Estados Unidos, que arrotam com orgulho sua fidelidade à constituição.

Vou parar por aqui. Uma das minhas prováveis resoluções de ano novo seria, se fosse possível, me deixar incomodar menos pelo que escuto ou leio por aí, principalmente me manter à parte da extrema polarização política que tem tomado conta do nosso ambiente, esteja a gente onde estiver. Indo mais além, prometo trabalhar com dedicação para deixar de lado minha própria baixa estima, que envenena meu trabalho de cronista por conta das dúvidas comuns e pensamentos inconclusivos que deixo transparecer, quem me dera ter a segurança de alguns colegas que tomam como suas certezas das quais apenas ouviram falar, sem nenhum real conhecimento de causa. E olhem que nem se posicionam como “cronistas”, analistas relaxados e confessadamente tendenciosos como eu, irônicos, exagerados, sempre com um pé na impressão pessoal sobre todas as coisas, mas sim como donos da verdade única.

Quanto ao amado Brasil que deixei para trás… que tristeza! Em meio ao desânimo e à depressão que nos afetaram a todos devido aos descalabros na economia e na política (graças a Deus ainda sem medo de terrorismo), terminamos o ano com a aguardada notícia de que fomos rebaixados ao nível “especulativo”. Em outras palavras, caros amigos, perdemos por conta da corja que nos governa todas as custosas e merecidas conquistas a que fizemos jus nos últimos 20 anos, quando quase esquecemos nosso eterno rótulo de país sem futuro, imerso em terceiro-mundismo. Ilusão. Para a nossa geração, tanto de empreendedores como de cidadãos, uma condenação sem mais esperança de redenção, pois nem vivendo até os 120 como reza a Bíblia estaremos vivos para ver a reação. É isso aí, uma vida inteira perdida, tentando manter o pescoço afastado do garrote e do insistente fracasso de nossas iniciativas. Já deu.

E por falar em fracasso, depressão e terrorismo tudo junto, vou ter que terminar esta retrospectiva com uma homenagem, um comentário tristíssimo que infelizmente deu o tom final nesta jornada lúgubre. Um de nossos colaboradores mais chegados, dedicado, muito competente, essencial para a tranquilidade de nossas operações no Brasil a gente estando longe como todo mundo sabe, na semana passada tirou a própria vida. Mal posso acreditar… no dia exato em que ocorreu a tragédia trocamos e-mails pela manhã! Como pode isso? O sujeito trabalha o dia todo resolvendo problemas e à noite vai para casa e se mata, deixando mulher e filho?

Apesar de toda a minha conversa sobre bipolaridade e falta crônica de felicidade, sempre no tom jocoso próprio dos cronistas, vamos combinar que tal possibilidade devido às dificuldades nunca me passou pela cabeça. E mesmo que tivesse passado…

— Eu nunca permitiria! — Alan foi logo se adiantando, especulando que com a onda de más notícias tal reação se tornaria comum no Brasil, como ocorreu, por exemplo, durante a crise de 1929.

Respondi logo, disse que o brasileiro não é dado a esse tipo de extremo, tende sempre a buscar o lado bem-humorado das piores situações, um povo emocionalmente privilegiado, eu acho.

Alan, que tem uns episódios não relatados em sua própria história pessoal, tendo em certo momento colaborado com o tratamento de pessoas em terríveis dificuldades, me conta, bastante tocado, que em situações graves como esta bastaria um toque amigo no ombro, uma pergunta amorosa e um interesse verbalizado:

— E aí, meu querido, tá tudo bem contigo?

Pois é. O Tzadik sabe.

Nos vemos em janeiro, e tudo de bom procês!

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