Um dia de Deus (e outro do buscador)

Não sei se vocês sabem, mas domingo passado, enquanto eu escrevia vocês liam a crônica… bom. Aqui tem que dar uma parada, ou vocês não vão entender nada.

Venho publicando crônicas aos domingos no Porque a gente é assim, há pelo menos 36 domingos (se liguem: vai virar livro). Aqui, embora seja a minha número 3, é praticamente a estreia desta entidade irônica que é a cronista Noga Sklar. Não acreditem em nada, mas é tudo verdade. Divirtam-se. Agora sigo.

Eu queria que esse wordpress aqui tivesse aquele lápis que aparece riscando quando a gente escreve besteira no skype, sabem como é? Pois eu ia escrevendo que domingo passado foi dia de Deus porque alguém escreveu no Facebook que era alguma data relacionada a Newton, aniversário, ou dia da descoberta da gravidade, sei lá o quê, mas devia estar errado, porque agora não estou encontrando nada, nem uma leve referência ou mera maçãzinha. Quase como Deus ele mesmo… mas deixa pra lá.

Primeiro, a primeira explicação: o que tem Sir Isaac a ver com Deus? É que Alan sempre me diz — a cada vez que eu afirmo pra ele que deus não existe e ele fica irritado com isso* — que pra ele a gravidade é que é Deus. Depois, a segunda explicação: eu já andava querendo escrever que eu andava querendo falar com Deus, mesmo que pra isso tivesse que ficar a sós, apagar a luz etc. Eu e Deus (ah, tá bom, a inversão foi só pra nós dois aparecermos com letra maiúscula) volta e meia nos estranhamos, quer dizer, quase o tempo todo. E quanto mais velha eu fico, mais constante fica esse tempo de ateia, agnóstica, descrente, digam aí. Por mais que eu sinta que me aproximo da morte, que é quando as pessoas gostariam de verdade que Deus existisse (pra amenizar o medo daquilo que desconhecem), sinto cada vez mais essa inexorável certeza de que nada mais há além dessa nossa vidinha aqui na terra mesmo, com nossas dores e prazeres obrigatórios se alternando sem que a gente possa interferir no curso deles consideravelmente. Nada a fazer a não ser prosseguir, um dia atrás do outro, tentando não se dar por vencido nas batalhas da sobrevivência.

De uns tempos pra cá, tudo o que tem sobrado de minha velha e desgastada crença nos altos desígnios — para alguns: divinos — não passa de um incômodo vício de linguagem — que procuro disfarçar com uma letra minúscula que, cá entre nós, não consegue enganar ninguém: é quando digo “graças a deus” isso, “graças a deus” aquilo. Pois no outro dia consegui o antídoto pra isso, vejam como funcionou a contento: substituí o vago agradecimento por um consistente “felizmente”, o que pretendo continuar fazendo daqui para frente. E Deus com isso?

Pois é. Nem com isso, nem com nada ou ninguém mais que me concerna particularmente (hum, muito estranho, botem “concerne” no lugar; deve melhorar, mas errado não está), ou vocês acham que se um “Deus” existisse teria tempo para tanta e tão gratuita sandice? Nem eu.

Mãos, de Rosane Chonchol, técnica mista com colagem, 10/10 cm.

Meu mais recente conluio com Deus — ok, desculpem, mas esse papo (de) sagrado encoraja este tipo de linguagem aí meio pomposa, se é que vocês me entendem: Deus não fala em jargão de malandro de rua, embora o preconceito seja incorreto vernacularmente — deu-se, com o perdão da cacofonia, já faz alguns anos, quando uma parente com quem eu me importava bastante estava bem mal numa cama de hospital. Bati um papo privado com o lado divino que persiste na gente e prometi que, caso a parente se recuperasse a contento, eu cortaria o cabelo comprido que, segundo ela, não me caía nada bem devido ao avançado da idade, coisa com a qual muita gente poderia concordar, vamos combinar. Fui atendida. E cumpri a minha parte.

Agora. Num aparte que pouco tem a ver com o resultado do embate, hoje não tenho tanta certeza de que a petição assinada em prol da cura alheia tenha beneficiado as partes envolvidas, francamente. A morte, muitas vezes, é um substituto bem menos contundente do que anos a fio de meia vida, vocês me entendem, dolorosos demais para todos a quem afete a rotineira agonia de conviver com um doente, ah, melhor parar por aqui. Não temos sapiência suficiente nem pra saber o que de verdade é bom pra gente, não é mesmo? Viver é enganar-se, já dizia um poeta. Ou seria outra coisa?

Enquanto não desisto de vez e me torno plenamente autossuficiente, sem precisar apelar, como dizia mamãe, para essas “muletas” que o divino espírito provê para a gente, confesso a vocês que briguei e me reconciliei com Deus um bom número de vezes, enquanto a vida se ocupava com seus planos independentes. A morte repentina de papai foi uma delas, das “brigas”, digo. Já o encontro do amor, o sucesso profissional, a alegria desse mato de luxo que nos cerca cotidianamente, por exemplo, poderiam constar como “reconciliações”, embora nem todas elas tenham ocorrido exatamente: quanto mais resultados colho, à base de muito trabalho e esforço, menos os credito a alguma entidade superior como faz tanta gente.

E por que falar sobre isso agora? Bem. É que andei caindo em tentação novamente, é isso mesmo: tem coisas (até bem normais) que excedem a nossa capacidade de superação habitual, dependendo de quando e em que condições elas acontecem, sabem como é, e lá fui eu tentando barganhar com Deus uma última vez. Prometi — e se ele me atender vou cumprir — que volto a crer nele sem maiores exigências, simples assim, porque o que andei pedindo, embora pra mim seja algo precioso realmente, pra ele é coisinha simples, com 10% de chance de acontecer naturalmente, no curso normal da natureza, digo. Mas eu juro, prometo, sem cruzar os dedos nas costas nem nada parecido — isso eu posso garantir —, que não cairei naquela outra tentação de tentar explicar o milagre, caso ele venha a ocorrer, com uma leizinha  fajutas dessas que operam a probabilidade dos fatos. Fé é isso aí.

Fiquem com Deus. E um bom domingo procês.

* Pra vocês terem uma ideia de como o Alan fica irritado com isso, comecei com uma enxaqueca enquanto escrevia a crônica que só foi piorando até quase a inconsciência. Ele disse que era castigo: “Para de escrever sobre o que você não entende!” Olha o pecado aí, gente!

Agradeço à Rosane Chonchol  a gentileza de me ceder a linda imagem, aqui.

 

 

8 Responses

  1. priscila ferraz says:

    Isso já é sacanagem. A gente se esforçando para escrever bonitinho e vem você e arrasa.

  2. Noga Sklar says:

    hahaha, que isso, Priscila. só tenho mais prática… já venho ralando há anos… obrigada, querida. vc tb é ótima.

  3. Entre nos, voce me prometeu que ia rezar bastante nos ultimos 10 dias e a sua reza é forte, amiga …….e foi Deus( com D maiusculo) quem fez a KBR, atravez de Noga e Alan Sklar, afinal não parece um milagre o americano ter vindo para ca, feito uma parceria contigo amorosa e depois laboriosa?! não juntou o cafe com o leite, o pão com a manteiga?

  4. Carlos says:

    Noga, cuidado, Deus não só está vendo, como está lendo tudo o que você escreve e pensa. Lembrei daquela música do Raul Seixas, acho que o nome é “paranóia”, o únicol lugar mundano que Deus não entra é no banheiro, e se você ver um papel qualquer no chão, apanhe, pode ser um recado de Deus pra você…

    Salve,

    Carlos

  5. Caramba, Deus falando atraves da boca, alias da escrita do Carlos.

  6. Noga Sklar says:

    Como diria a Ethel Kacowicz, em “A Escritora” (não tenho fé, mas adoro essa parte):
    — Deus dirigindo…
    — Deus dando o troco…
    — Deus ultrapassando o sinal…
    — Deus quase sendo atropelado…
    — Deus de minissaia…
    — Deus pedindo esmola…
    — Deus varrendo a rua…
    — Deus criança, sorrindo pra mim…

  7. Caetano says:

    Bonito texto querida Noga. Me fez pensar nas pessoas pedindo a seu Deus, acendendo uma vela, fazendo promessas, sem perceber que “em verdade” estão apenas seguindo um ritual criado para focar nossas próprias energias mentais naquilo que desejamos. Energia vital interna, o espírito do indivíduo, apartado momentaneamente do todo universal, insuflando vida passageira numa casca grosseira, e retornando ao todo quando de sua morte. Como o todo é maior que o eu, topo chamar isso de Deus. Como a ignorância (inocência?) do ser humano é um fato, compreendo os ritos, os símbolos e as doutrinas. Focar requer um esforço. A Programação Neuro-Linguística, o pensamento-mestre da Logosofia, e a missa dominical católica, só pra citar alguns, não servem todos ao mesmo propósito? Bom domingo minha editora.

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