Uma base concreta

Enquanto eu estava de recesso, compilando, reescrevendo e retraduzindo para o inglês o meu romance Sem Graus de Separação (sim, tudo isso, com a ordem variando conforme a ocasião), um poderoso executivo de mídia nos Estados Unidos foi acusando por algumas de suas subordinadas de assédio sexual, e como resultado abdicou de seu posto e pediu as contas. O sujeito tem 76 anos de idade. Também assisti na TV a algumas reportagens sobre estupro, com foco especial sobre os que ocorrem com bastante frequência nas universidades americanas.

O que está havendo conosco?

Na primeira semana da minha pausa autoimposta, ainda sob o impacto de não estar escrevendo as minhas crônicas semanais, comecei um rascunho intitulado “Minha experiência pessoal com o estupro” ou algo assim.

Estupro é crime. Ponto. E eu nunca fui estuprada.

Mesmo assim, tive obviamente algumas experiências desprazerosas com sexo, desde acordar com um estranho na minha cama após uma noitada “calibrada” até ir para a casa de um estranho por me sentir solitária numa noite de Natal (como todo mundo sabe, sou judia, e na minha família não se comemora o Natal), ou tirar uma casquinha do irmão de um sujeito que eu estava paquerando sem muito sucesso.

Meu caso mais traumático foi com um sujeito para quem eu estava trabalhando quando tinha uns trinta e poucos anos e era divorciada, uma sub-celebridade (acabei de ler indagorinha no NY Times que criaram para esta sub-classe uma tal “Lista Z”) do mundo do teatro. Eu estava criando um projeto gráfico para uma peça que ele estava dirigindo e produzindo, e graças a Deus até o nome dele já esqueci. De toda forma ele era meio coroa, e já faz tanto tempo que imagino que já tenha morrido. Pois ele veio certo dia ao meu apartamento para acertar alguns detalhes, e quando eu disse a ele que estava cansada, me ofereceu uma massagem para “relaxar”. A próxima coisa de que me lembro é de seu nojento dedinho atrevido adentrando a minha vagina e esfregando o meu clitóris sem ser convidado. Que nojo! Mandei ele parar e sair imediatamente do meu apartamento. Mesmo assim me senti suja por uma semana, e nunca mais obviamente trabalhei para o sujeitinho.

Em 53 anos de amor livre, sexo e rock’n’roll, nunca gozei com um homem. Mas, bem, hum, quem me lê regularmente já sabe disso há um bom tempo.

Fico me perguntando o que há de errado com a nossa sociedade e com as nossas jovens mulheres, depois de todos esses anos de revolução sexual e luta feroz pelos direitos femininos.

Se alguém quisesse escutar o meu conselho, eis o que eu diria: garotas, não bebam em festas, ou, pelo menos, não exagerem na bebida a ponto de perder o controle e não saber o que vocês estão fazendo.

Bem, para o desgosto do meu leitorado, eu não pararia por aí. Ao contrário, também aconselharia essas meninas a não confundirem sexo não solicitado ou avanços sexuais com estupro propriamente dito, pois são coisas bastante diferentes.

Escutamos, lemos e testemunhamos tantas mensagens sexuais hoje em dia que praticamente perdemos a noção do que o sexo é ou deixa de ser e de como sexo é importante. Então deixem-me repetir: sexo é a fonte da vida, nada mais, nada menos.

Vai daí que passei as últimas cinco semanas (que começaram logo depois da convenção democrata nos Estados Unidos) longe da cena política, tanto americana quanto brasileira (que, por sinal, hoje enquanto escrevo finalmente se livrou da “presidanta” Dilma), e lidando com um assunto bem mais profundo (sem trocadilho) e mais excitante: sexo e amor na era tecnológica, e também minha jornada pessoal indo de “nunca gozar” até “gozar quando e quanto eu quiser”,  e de  “nunca ter sido amada” até “ser correspondida no amor tanto quanto eu quiser”.

Um assunto deveras empolgante, que me deixou pensando sobre o que realmente importa nesta vida.

E já tenho a resposta: é o amor.

Antes de conseguir reunir a energia necessária para lidar com este sonho de publicar meu romance em inglês que acalento há mais de dez anos — não custa lembrar que o material original que inspirou o livro era em inglês, mas para transformá-lo em literatura o único jeito foi escrevê-lo em português e encarar a minha dificuldade com a timidez relativa aos termos sexuais, para não mencionar que levei todo esse tempo para levar meu inglês ao ponto em que está hoje —, eu estava completamente envolvida nas “maquinações políticas”, como descreveu uma amiga americana. Mas nunca deixei de suspeitar do fato de que, apesar de a política ser importante, a razão para tal envolvimento passava pela minha frustração nestes primeiros dois anos de “vida americana”, durante os quais vivi uma vida meio improvisada, provisória para dizer o mínimo, carente e insatisfeita por conta de certas coisas sobre as quais não tinha o menor controle.

Uma coincidência deliciosa é que, enquanto completo esta tarefa literária, Alan e eu também estamos terminando uma fase difícil da obra da nossa casa em Paris Mountain, durante a qual tivemos que “domar a montanha”: semana que vem estaremos concretando as nossas fundações, acreditem. Eu mesma duvido às vezes! Parece um tipo estranho de sonho no qual me observo vivendo uma vida que não parece ser minha, embora seja, o que lhe confere um certo grau de indiferença que pode até ser bastante positiva, para não exagerar na dose de ansiedade. No momento estou meio inclinada a deixar de reagir a um velho impulso — que eu poderia descrever como um “tique xamânico — de enxergar em tudo o que acontece um sinal de tudo o mais. No caso, o fato de ter entendido que o amor e o sexo são na verdade os pilares e as fundações da vida humana na terra.

Curiosamente, minhas memórias de amor e sexo escrito constituem um testemunho dos primórdios dos sites de encontro, um tempo em que a capacidade de se expressar por escrito era crucial para desenvolver laços mais profundos com uma pessoa vivendo no outro lado do mundo, aumentando incrivelmente as nossas chances de encontrar o amor. Mesmo assim, o sexo hoje tão explícito, mais a sovinice de 140 caracteres e a ubiquidade de celulares capazes de fotografar tudo e todo mundo em qualquer lugar e fazendo qualquer coisa — o popular “sexting” —, conseguiu transformar esse excitante exercício erótico numa troca lamentável de mensagens sexuais muito pobres de espírito, culminando, esta semana, com a derrocada final de uma sub-celebridade americana que por conta de sua grossura ao teclado do telefone se tornou ex-deputado e está a caminho de se tornar ex-marido.

Eis o que aprendi: seja o que for que advenha em nossas vidas e nas vidas daqueles que nos cercam, nunca devemos perder de vista o verdadeiro sentido da vida. E só o que importa são as coisas que duram, e que nos iluminam, e nos fazem sentir como os animais preciosos que somos, superiores, sim, por sermos dotados de um cérebro que pensa e de um corpo impressionante, capaz de feitos incríveis.

Não devemos nos contentar com nada menos do que tudo isso.

2 Responses

  1. Clara A. Colotto says:

    Amei! Crônica linda!

  2. Noga Sklar says:

    Obrigada, Clara! 🙂

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