Uma cultura de excessos

(ou, em outras palavras, os excessos da falta de cultura)

greek ministerFala sério, eu deveria estar me preocupando com vestidos e sapatos para me apresentar condignamente aos “machitunim” — digo, cossogros, mas o termo em iídiche é muito melhor — numa próxima viagem ao Canadá, mas não consigo tirar da cabeça as disputas do mundo entre políticas liberais e neoliberais — estes últimos, por ironia do destino, hoje conhecidos como “conservadores”, ou será que estou completamente equivocada?

A verdade é que devo aos meus leitores uma dolorosa confissão: depois de anos me autotreinando para desenvolver uma discreta capacidade de confiar na minha própria sagacidade, ufa, me deparei esta semana com a crescente frustração de não estar entendendo nada que se refira à revolução em curso, o que até, vamos combinar, é razoavelmente normal, pois como se pensava antigamente, para entender uma mudança crucial que rebobina as engrenagens da sociedade como as conhecemos é preciso estudar, pesquisar, pensar. E aguardar a poeira baixar e novas teorias ganharem corpo (e prêmios) em forma de livros e teses comprovadas, vem-me à cabeça imediatamente a velha ideia de “capitalismo de mercado” de Adam Smith, a misteriosa “mão invisível” da qual brevemente ouvi falar, embora já esteja empoeirada nas melhores estantes da mídia intelectualizada há mais de dois séculos, ou talvez por isso mesmo.

Hoje em dia isso está fora de moda, aguardar, digo, assim como outra comprovada teoria mais conhecida como “cada macaco no seu galho”: todo mundo quer enfiar sua colher prateada no mesmo mingau desandado da civilização, e ai de quem ouse limitar o acesso a todo tipo de informação. Equivocada, em boa parte das vezes.

Tenho conversando muito com o Alan, bom conselheiro como todos os maridos impositivos, e nossos debates têm ido bem além da obrigatória especulação sobre a cor dos cabelos e dos olhos dos nossos futuros netos, porque, afinal de contas, Alan duvida um pouco de que reste algum mundo para esses futuros humanos queridos ainda sem data para encarnar. Mesmo assim, não consigo avançar.

Esta semana, imaginem, descobri que havia cometido um erro terrível, vexatório: com a minha habitual segurança semanal de cronista, andei declarando que detestava as tintas esquerdistas de Alexis Tsipras, atual premier da Grécia que não sai dos sites de notícias, simplesmente porque não “ia muito com a cara dele”. Mas eis que descobri por acidente que a “cara” que não me inspirava simpatia não era a de Tsipras, mas sim de seu mal-humorado ministro das finanças! Que, por sinal, acabou renunciando depois da grande vitória do plebiscito (deixem-me esclarecer, não importa se foi “sim” ou se foi “não”, o plebiscito em si é que está sendo considerado a grande vitória de Pirro, digo, do povo grego) para dar lugar a uma opinião mais moderada, ou pelo menos mais preparada para não virar comida na mesa de jantar de Mutter Europa, não sei. Porque, vamos combinar, o comportamento do ministro original me parecia bastante extremado.

Com isso, consegui o milagre de estar certa (o ministro renunciou), apesar de na verdade estar completamente enganada (não era de Tsipras que eu não gostava): o Tsipras real parece até bem simpático, mas se é competente, não sei.

O que sei é que se estivesse guiada simplesmente pelo bom senso, grega fosse e teria votado “não”, declarei no Facebook num primeiro momento sem reflexão. Para descobrir, depois de dois “curtir”, que na verdade teria votado “sim”, à austeridade, à responsabilidade, a compactuar com as (duras) regras da comunidade como a boa careta que me tornei, em outras palavras, concordando com aqueles novos liberais que na verdade não são “liberais” em absoluto, mas “conservadores e tradicionais”.

Julgando pelas regras habitualmente violadas do “common sense”, me parece que decidir recuperar um país de uma longa e reiterada falência não deveria incluir uma disposição de gastar mais dinheiro, ou de tomar mais dinheiro emprestado, algo assim como pagar um cartão de crédito atrasado com os recursos obtidos com um cartão de crédito novo, pretendendo com isso um “novo começo” que apague os finais errados. Mas isso, como vocês sabem, só funciona para gente comum, aquele pobre tipo faceiro que ainda acredita que a melhor maneira de ganhar dinheiro é se dedicando ao trabalho, um conceito nada liberal, por sinal.

O “liberal” a que os entendidos se referem não significa, como poderia parecer, deixar rolar para ver como é que fica, numa postura amplamente “permissiva”, mas o seu contrário, isto é, forçar as coisas a tomar um rumo desejado pelo governo e teoricamente baseado no “bem-estar do povo”, algo que frequentemente resulta no “bem-estar dos eleitos pelo povo”, típico cavalo de Troia, não o vírus de computador, mas o presente dos gregos comumente confundido com “democracia”. Entenderam?

Nem eu. Tenho me sentido muito por fora ultimamente, e a melhor coisa seria desistir, relaxar, deixar o mundo acontecer sem tentar me encaixar na apocalíptica performance dos acontecimentos diários, em outras palavras, recolher-me à privada ignorância e não palpitar sobre nada mais. O mundo estaria bem melhor se não tivéssemos que ouvir tantas e tão diversificadas opiniões, vamos combinar.

No nosso Brasil a coisa não está diferente. Os esquerdistas de sempre andaram instilando suas crenças de que a disposição neoliberal do nosso ministro das finanças é de sangrar o bode, ops, desculpem, sangrar ainda mais a já sacrificada vítima dos despautérios financeiros, nisto entendido o pobre povo brasileiro. Mas de Brasil acredito entender um pouco, e não é disso que se trata (sangrar), mas sim de encontrar um bode bom para expiar a culpa que os verdadeiros culpados já não conseguem ocultar — o que é muito bom, pelo menos um bom começo, embora os princípios sejam sempre mais difíceis do que os inconfessados fins, isso, para nem entrar na total falta de mérito dos meios.

Isso posto, Brasil e Grécia não sei se são tão diferentes assim, pelo menos no que diz respeito a um “governo desastroso”, ou, para ser mais exata, à eleição popular de um governo que viria a ser no futuro próximo um desastre fenomenal, algo que está se tornando bastante banal nos quatro cantos do caos institucional em que a terra está se transformando, e a gente rapidamente precisa fazer alguma coisa, mas o que, eu não sei.

É o exato oposto do que teríamos desejado, porque, vamos combinar, de seus males mais profundos o homem é sempre o único culpado. E não estou falando de desastres ambientais, nem dos efeitos residuais da pesada mão humana que de invisível não tem nada, ou muito pouco — agora não só sobre os mercados, como também sobre a vida no planeta em geral.

Não. O mal que nos corrói por dentro não é o excesso de poluição, como poderia parecer, mas sim o excesso de opinião, do qual não vejo a menor possibilidade de nos livrarmos num curto espaço de tempo, e para isso eu mesma tenho colaborado ativamente, se é que vocês me entendem.

Shalom!

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