Virando a casaca impunemente

Adolf Hitler talking to Grand Mufti Haj Amin el Husseini. (Photo by Keystone/Getty Images)

Adolf Hitler conversando com o Grande Mufti Haj Amin el Husseini. (Foto Keystone/ Getty Images)

Deixa eu esclarecer logo de uma vez: nunca gostei de Hillary Clinton, ponto final.

Quando, em 2008, dei tudo de mim para ajudar a eleger Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos — tá bem, um monte de palavras vazias e, pior, em Português, uma língua que ninguém lê —, eu já tinha mencionado as “lágrimas de crocodilo” às quais Hillary tinha apelado para descrever sua reação teatral à dor das mulheres, ou à dor de uma mulher em particular: ela mesma.

Hoje, quando a vejo virar a casaca a torto e a direito para atender a qualquer inútil expectativa de sua audiência dedicada, nada tenho a acrescentar. Embora pudesse ter, caso escolhesse acreditar no que a mídia da oposição diz sobre ela o tempo todo.

Vocês aí poderiam me perguntar, que negócio é esse de “mídia de oposição”?

Em 2008, tenho que confessar, eu odiava a Fox News com todo o ódio de que era capaz, exatamente como o canal de notícias é hoje odiado pelos chamados “esquerdistas”. Quer dizer, a mídia de “oposição”. Naquela época, não hesitei nem um minuto em enfrentar bravamente o meu marido republicano, já que para mim tudo parecia fazer o maior sentido: era eu contra ele e a favor de metade do mundo.

Ganhamos, eu e o tal meio mundo. Eu não tinha nenhuma dúvida de que estava completamente certa, e meu marido completamente errado. O que, como vocês sabem, é o melhor fundamento para manter qualquer casamento: a mulher estar certa e o marido errado. Isso enfatiza os nossos “direitos femininos”, pondo as coisas em seus devidos lugares, isto é, concedendo ao homem da casa suas famosas últimas palavras: “Sim, querida”.

Vida que segue. Estamos agora morando nos Estados Unidos, Alan e eu. Onde me sinto cada vez mais deslocada nesta temporada eleitoral.

Deslocada, em primeiro lugar, bem, porque estou mesmo. Pior, me sinto terrivelmente deslocada, porque, desde que coloquei os pés neste maravilhoso país, comecei a ver as coisas de um jeito diferente, a tal ponto que comecei a ter uma certa dificuldade em me reconhecer.

Portanto, já não “voto” a favor dos liberais. Não odeio mais a Fox News. Já não detesto tanto o meu marido republicano, nem estou mais a fim de confrontá-lo, no quesito “política”, pelo menos. E acreditem, isso tudo não só porque agora, mais do que nunca, minha sobrevivência depende da sobrevivência dele.

— Alan, tô super preocupada contigo — eu disse, depois do enésimo ataque de tosse.

— Tá nada. Você está preocupada é com você mesma. O que você faria se eu sumisse de repente?

Ele está certo. Bem, em termos.

Minha dependência dele tem crescido exponencialmente, não só porque agora sou estrangeira em minha própria casa, mas porque, mais e mais, não me vejo neste mundo sem ele. Estou velha demais pra sair por aí procurando um novo amor, ah, melhor esquecer. Vendo pelo lado bom, até se poderia dizer que se trata de fato de um “amor de verdade”.

Talvez eu devesse comprar um carro novo, sei lá, que eu pudesse dirigir mais à vontade do que esse velho Mercedes comprado no ano passado, eu disse a mim mesma no meio da noite, com todo o deprimido pessimismo de que uma noite insone é capaz. De qualquer maneira, isso não mudaria o fato de que eu tenho que abastecer sozinha, coisa que em geral só acontece nos Estados Unidos, caso vocês não saibam.

Eu podia enfiar tudo isso junto no mesmo saco com minhas recentes inseguranças financeiras, mas nada disso explicaria por que mudei tanto minhas posições políticas desde que me vi residindo em solo americano.

E então entra em cena Donald Trump.

Comecei a prestar atenção no sujeito porque o Alan pareceu gostar dele em algum momento. E não, Alan não faz parte da turma da #importanciadohomembrancodemeiaidade com suas perorações raivosas, principalmente porque ele já nem é de meia-idade, é simplesmente… velho mesmo. Eu poderia dizer, “velho e sábio”, exatamente o tipo que te convence, num piscar de olhos, de que “está sempre certo”, e estaria até sendo justa com ele. Mas que foi engraçado ver que, quando o candidato “dele” foi violentamente atacado por seu “próprio partido”, Alan começou de repente a virar a casaca, ah, isso foi.

Mas, cá entre nós, se fosse pra virar agora, para que casaca a gente se viraria? Ted Cruz?

— Cruz credo — eu diria, em bom mineirês. O que poderia ser traduzido como “Deus me livre”, ou “toc toc toc”. E já que tocamos no assunto, de qualquer lado que se olhe política não é de jeito nenhum um “presente de Deus”, não importa o que digam todos esses candidatos humanamente imperfeitos.

Como eu já disse, apoiei Obama no passado com toda a minha energia, e isso “nos” colocou numa situação na qual “nosso” presidente parece excelente, quase um nobre, mas o mundo lá fora ficou bem mais perigoso do que antigamente, antes de ele ser eleito. Para nem mencionar “toda essa zona que está aí”. Só assuntando. E daí?

Daí que desta vez eu bem que poderia prestar mais atenção — menos intuição e mais razão, ou seria o contrário? Quer dizer, se a razão serve para alguma coisa, e parece que não. Mais terra e menos sonho, se é que me atrevo a sonhar, agora que o meu curto futuro é aqui nos EUA. Quer dizer, pelo menos enquanto tenho marido, contra o qual não estou a fim de me indispor.

Mas, e se a mídia “de oposição” estiver certa? E se as teorias mussolínicas e hitlerianas estiverem certas? Honestamente, eu nunca me perdoaria.

Pô. Peraí. Ainda estou lendo o New York Times, tá certo, mas se tivesse o mínimo de juízo teria parado esta semana mesmo, depois do agressivo editorial que o jornal publicou contra Donald Trump (em tempo, poderia ter sido contra qualquer outra pessoa). Eu estava acordada no meio da noite quando comecei a ler os primeiros comentários, ainda de gente a favor de Trump, ou pelo menos gente que não o pinta mais feio do que o próprio diabo. E aí começaram os inimigos de Trump, que no site do New York Times estão em franca maioria.

As pessoas aqui nos Estados Unidos só leem aquilo que combina com suas ideias preconcebidas, como, aliás, em qualquer parte do mundo. Só que aqui nenhum lado é predominante, pelo menos em se tratando da mídia. Então achei melhor ficar no meu canto, como alguém que vê as coisas de fora, uma simples observadora. Até quando der. Porque com certeza vai chegar a hora em que terei que assumir uma posição, e aí vamos ver no que vai dar.

Isso não me impede de questionar por que isso tudo justo agora, quando finalmente consegui me instalar neste sonhado primeiro mundo, neste país bacana… que parece estar indo ladeira abaixo, como todos os outros países neste mundo. A estupidez humana, francamente, jamais cessa de se expandir, agora mais ainda, com o incentivo do acesso ilimitado a formas de espalhar nossos próprios palpites mal-informados sobre tudo aquilo que interessa. Para a gente mesmo.

Tenho saudade do tempo em que a gente podia ler no New York Times e em outros jornais artigos sofisticados, maduros, ter uma visão mais intelectual. Nosso veneno se espalhou, minha gente, e os envenenados somos nós mesmos.

Agora, cá pra nós, se Trump for eleito e o mundo se acabar, conforme a previsão dos arautos do apocalipse da esquerda; pior ainda, se Hillary for eleita e o mundo se acabar, conforme a previsão dos arautos do apocalipse da direta… estou com sorte, posso sempre voltar para “casa”, não é mesmo? Onde, para meu grande prazer e simultâneo pesar, o mundialmente famoso “herói da esquerda e pai dos pobres” acaba de ser indiciado por seus crimes de corrupção. O que, muito a propósito, não é nada inesperado quando se trata de políticas populistas e esquerdistas. Desta vez, o resultado é um país quebrado, desprovido de toda esperança possível no curto prazo. Então, digam aí, quem é o verdadeiro diabo? E no que ele realmente acredita?

Só o tempo dirá. Se, é claro, conseguirmos sobreviver ao nosso próprio inferno autocriado.

Ah, melhor deixar pra lá. O bom conselho que dei a mim mesma enquanto estava acordada, na noite passada, bem que estava certo: teria sido bem melhor não ter escrito nada. Ou talvez, por causa da minha depressão sem esperança, eu até tenha levantado alguns pontos dignos de lembrança, merecedores de alguma consideração, no final das contas. O mínimo que se pode fazer é escrever o que verdadeiramente se passa em nossas mentes, antes que a gente se deixe contaminar de uma vez pelo pânico alheio, se é que vocês me entendem.

Só pra terminar: quando a realidade está em perpétuo movimento, mudando constantemente conforme o vento, a coisa certa a fazer é virar a casaca mesmo. Exatamente como a verdade, que se transforma a cada momento. Pelo menos até o dia da eleição, para a qual ainda falta um bom tempo.

Enquanto isso, sigo me virando. E você também deveria estar mudando.

Quanto a Donald Trump, não nos faria mal nenhum ressaltar que, apesar de o sujeito ter com certeza tocado num nervo exposto do eleitorado, Hitler e Mussolini só poderiam ter prosperado em seus países arrasados, pobres, famintos e humilhados, o que nem de longe é o caso nos Estados Unidos. Além do quê, como conta a lenda, o pesadelo do Holocausto pode muito bem ter sido baseado no fato de Hitler ter umas “mãozinhas” bem pequenininhas.

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