Welcome to America

greencard1No meio da noite, Alan me sacudiu com força:

— Noga, qual é a data do nosso casamento?

Coitadinho, estava preocupado com a entrevista, já era a terceira vez que ele me perguntava isso.

— Não se preocupe, Alan, homem nenhum sabe a data do casamento! Isso é coisa de mulher!

Eu, que sou sempre tensa, estava estranhamente tranquila, talvez pela certeza de estar dentro dos conformes para a concessão de um Green Card com base no casamento, mas, devo confessar, intimamente temia com alguma angústia um revertério inexplicável, talvez por conta da minha firme, porém altamente criticada decisão de fazer tudo sozinha, sem contratar um advogado, como já contei. Vinha até evitando mencionar o assunto.

Finalmente chegou o dia. Acordamos às seis da manhã, bem antes do despertador, banho, café, batom, roupas de seda, brilhante no dedo, pérolas no pescoço etc. Até os brinquinhos de brilhante de mamãe decidi desencavar, dormi com eles para não me atrasar, tudo para “provar” que tinha como me bancar, afinal de contas, esta parecia ser a principal preocupação, tanto do Alan como dos formulários da imigração. Todos os originais de todos os documentos originalmente enviados com os citados formulários já estavam classificados na pasta, fechada há uma semana para não esquecer nada, conforme recomendava a carta que nos informava da data. Cá entre nós, sou muito organizada, tenho uma capacidade superior para lidar com papelada, ou nem poderia ser editora afinal de contas.

Para nada. A “oficial” em serviço mal olhou os formulários, nada pediu e nem perguntou quase nada. Foi listando e conferindo nomes e endereços. Depois veio o clássico questionário a que como turistas já estamos acostumados, se já roubamos, estupramos, matamos, traficamos armas ou drogas, estivemos na cadeia por qualquer motivo ou envolvidos com o Partido Comunista (não necessariamente nesta ordem), que, cá entre nós, nem existe mais.

— Alan, nos Estados Unidos é proibido por lei ser comunista? Cadê a sociedade pluralista?

A diferença, segundo ele, é que como fizemos o juramento — quase ia me esquecendo de mencionar que antes de a oficial nos convidar a sentar levantamos a mão direita e teve o tal juramento, caramba, como se (per)jura nos Estados Unidos, só esta semana foram duas vezes —, qualquer resposta mentirosa seria considerada crime passível de punição legal. Não me preocupei com nada disso, sou completa e concretamente ficha limpa como todo mundo sabe, até a Polícia Federal brasileira que emitiu o atestado com tradução juramentada que eu havia anexado.

— Onde vocês se conheceram? — perguntou a oficial.

— Na internet — respondi. E fiz questão de mostrar uma versão impressa do meu romance Sem graus de separação, tudo para demonstrar a estabilidade da nossa relação.

Alan ficou danado. Ele fica apavorado toda vez que eu menciono o romance por causa do erotismo explícito, acha que o texto só tem isso — deve ser tudo de que se lembra —, coitado, já que até hoje não pôde ler o texto acabado, fica mais preocupado ainda porque estamos na caretíssima, supercatólica Carolina do Sul.

— Guarda isso! — como se o livro fosse um perigoso explosivo.

A prova cabal de que somos casal veio afinal quando ele resolveu contar o caso da construção da nossa casa no Brasil, onde o empreiteiro deu como garantia o seu “bigode”, Alan nunca perdoou. Eu enfiei a minha colher, fazendo graça para a oficial:

— Mas, você sabe, essa ideia veio dos filmes do Velho Oeste, onde o mocinho tirava um fio de seu bigode como garantia de seu caráter — eu tinha lido a história numa crônica do novo livro da Priscila Ferraz em que estava trabalhando naquele momento.

— Não sabia — disse a obesa, porém bastante simpática oficial (eu não podia deixar escapar esse veneninho, sorry, folks).

Ah, pra quê. Alan ficou possesso.

— Fica quieta!

E ela:

— Deixa a sua mulher falar, assim é que fico sabendo das verdadeiras coisas.

Ele ficou mais possesso ainda.

— Esta é prova de que temos um verdadeiro casamento! — concluí.

Também para assuntos de imigração existe uma ferramenta infernal chamada “Google” — é que nem nos casos de câncer e outras doenças terríveis, todo mundo tem seu bedelhinho para meter, sabem como é. E eu tinha lido que ao final da entrevista, se tudo tivesse corrido bem, já sairia de lá com um carimbo no passaporte.

Mas nada disso aconteceu. A oficial fofinha disse que “aparentemente” estava tudo bem, mas ainda deveria dar uma checada final que provavelmente não revelaria nada, já que a primeira passada nada havia revelado. Balde de água fria.

— Estando tudo ok, hoje à tarde despacharei o seu processo. Até o final da semana você deve receber uma carta de boas-vindas, e em mais três semanas o seu cartão oficial, e aí poderá pedir o número da Seguridade Social. Seu Green Card será válido por 10 anos, já que vocês são casados há mais de dois.

— E em três anos posso pedir a cidadania americana, não é?

— Correto — ela respondeu gentilmente. — Isto é, se vocês conseguirem se manter casados!

Como sou brasileira de coração, saí de lá meio jururu. No Brasil já estamos acostumados, “everything that can go wrong will go wrong”, não falha nunca, se é que vocês me entendem. Nem consegui relaxar.

Já no carro, Alan tentou me angustiar, disse que eu falava demais, não tinha nada que ter contado aquela história besta do bigode do caubói e muito menos mencionado que havíamos começado a KBR há quase sete anos na Amazon, com base na cidadania americana. Dele, é claro.

— Mas a Priscila escreveu! Ela deve saber!

Segundo ele, tenho talento suficiente para avacalhar até um almoço grátis, uma expressão favorita americana.

— Quer ir a algum lugar, tomar um drinque para comemorar? — no fundo no fundo, não parecia preocupado de verdade.

Estava aliviado. Confia no seu país. Para ele, se a oficial falou, estava falado.

— Você acha que eles ainda podem mudar de ideia, Alan?

— Claro que não. A imigração americana não comete enganos.

— Ah, estou cansada, quero ir para casa.

Passamos na loja de bebidas (aqui nos EUA, para quem não sabe, não se pode comprar bebida destilada no supermercado, só vinho e cerveja), compramos uma garrafa de uísque e fomos para casa, onde trabalhei no livro da Priscila, já bastante atrasado, pelo resto do dia, como se nada tivesse acontecido. Mas minha vida já havia se transformado.

No dia seguinte contei a história para ela.

— Você viajou, nunca escrevi nada disso, não sei do que você está falando.

Mas eu podia provar, afinal de contas estava no livro, e com certeza eu é que não tinha escrito.

Para me consolar, resolvi checar o andamento do meu processo na internet, e lá estava a linda mensagem de confirmação:

“No dia 11 de maio, 2015, registramos o seu status de residente permanente e enviamos a carta de boas-vindas. Siga as instruções. Seu novo cartão de residente permanente deve chegar pelo correio até o dia 10 de julho de 2015.”

Oba! E um bom domingo procês!

1 Response

  1. TeoFranco says:

    Parabéns!

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