Winter blues

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Um dos grandes prazeres que temos tido aqui nos Estados Unidos é simplesmente nos deitar na grande cama que domina a sala ao longo da parede principal — pois é, por algum motivo misterioso que nos escapa, não tivemos a capacidade de comprar um sofá, deve ser nostalgia do sofá vermelho que deixamos para trás, e algumas vezes tivemos que explicar que este apartamento não passa de um acampamento enquanto construímos a nova casa, obra, aliás, que ainda nem conseguimos começar, isso, para não mencionar a nostalgia da casa linda que abandonamos no (só meu) torrão natal, devo confessar —, exaustos depois de um longo dia de trabalho (eu, pelo menos, estou sempre exausta ultimamente, deve ser a idade, sei lá, ou segundo Alan a falta de oxigênio no apartamento fechado), e assistir a um filme na Amazon, alugado ou quase grátis (pelo Amazon Prime a US$99 por ano).

Não é uma tarefa fácil como a princípio pode parecer. São milhares de filmes de todos os tipos, de grandes estúdios, produções independentes e uma não desprezível fatia de “indies”, isto é, filmes autoproduzidos, bastante amadores para dizer o mínimo, algo equivalente à autopublicação nos livros. Nosso único critério válido em princípio é a quantidade de estrelas atribuídas por outros espectadores, mas quem disse que nosso gosto regula com o deles? Raramente.

Embora Alan use seu tempo livre para assistir a todos os thrillers, filmes de mistério e crimes violentos em que põe as mãos, ou no caso, os olhos —  segundo ele para dispersar a raiva que sente de mim e evitar me matar, efeito agravado, como seria de se esperar, pela exiguidade de espaço e de mobiliário neste escuro apartamento, que fica cada vez mais escuro à medida que o tempo passa… ou seria o inverno a que não estamos acostumados? —, quando vamos assistir juntos em geral procuramos outros gêneros, dando ênfase a filmes sérios, profundos, léguas distantes dos bombásticos blockbusters com milhares de ruidosos fãs.

Temos tido sucesso, felizmente. Particularmente nesses dias meio parados de final e início de ano, quando decidimos por acordo tácito dar uma boa preferência a filmes pagos, alguns com atores conhecidos, outros nem tanto, com prioridade para lançamentos bem recentes, “descobrimos” algumas joias como o “Mr. Pip”, com Hugh Laurie, um enfoque originalíssimo sobre o valor da literatura, com foco sobre Great Expectations, de Charles Dickens;  o novo Woody Allen, “Magia ao luar” (título bobinho para um enfoque bem bacana do vazio e da indiscutível magia, ou química, que cercam o pensamento romântico); duas ou três histórias de imigrantes “salvos” pelos Estados Unidos (nada a ver com o meu “exílio de elite”, obviamente) como “A boa mentira”, título baseado também num grande expoente da literatura, As aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain; e a parábola filosófico-religiosa irlandesa “Calvary” — que Alan, por tender a uma certa “religiosidade lógica”, se é que isso existe, particularmente adorou.

Mas nada nos preparou para aquele também irlandês filmete independente que assistimos de graça ontem à noite, “The Stag”, mal e porcamente traduzido para a grande mídia nos Estados Unidos como “The Bachelor Weekend” (“Um fim de semana de solteiros” ou algo assim), ou vocês pensavam que traduções ridículas de títulos de filme eram um mal cultural restrito ao Brasil? (Eu, sim.) Era o primeiro dia de 2015 e eu já o nomearia um dos grandes filmes do ano, ano passado, digo, 2013, ih, me enrolei de vez com o calendário.

“Stag”, vejo no dicionário, é muito mais que uma “despedida de solteiro”, uma espécie de confraternização exclusivamente masculina, e é disso essencialmente que trata o filme, que é muito mais que isso. Mas que se trata de um modo puramente masculino de ver as coisas não se pode negar.

O atrativo do filme começa pela Irlanda. Embora nunca tenha estado lá (anota aí para o ano que se inicia), adoro a Irlanda e tudo que ela já nos deu, com James Joyce no topo da pirâmide, claro. Adoro a íntima relação dos irlandeses com a bebida (contato que não seja aqui em casa, se é que vocês me entendem), a mania de cantar nos bares, o amor por seu desgraçado país, onde tudo dá sistematicamente errado há séculos, mais recentemente tendo passado por uma feroz crise econômica deflagrada, pelo que estou sabendo, pela corrupção no mercado imobiliário, glória pouca para quem se concentrou no passado em construir uma identidade liberta do jugo exploratório da coroa inglesa e se debateu numa séria disputa entre a fé e o poder político tornada dramática por conta de atos terroristas. Ou heroicos, sei lá, tudo é possível quando se trata da alma irlandesa.

Essa coisa de um amor incondicional por seu país é marcante no filme, concentrada em “One”, do U2, colocando Bono como uma espécie de herói cultural nacional também, devo confessar que mesmo enxergando Bono como uma personalidade marcante no mundo do show business nunca encarei o U2 dessa maneira nacionalista, e nem poderia! Não estou lá!

Só para enfatizar, Alan acaba de pontuar: “É impressionante a diferença entre um bom filme e as porcarias que andam por aí”. E é mesmo.

Eu poderia resumir o roteiro numa expressão simplista, considerada por muitos — como aquele meu amigo que se negava a ler qualquer texto ou livro que mencionasse a palavra “coração” — um clichê deplorável: desculpem aí, mas “Stag” é um filme “com coração”.

O que me leva à mui justificada reclamação do crítico literário José Castello, para quem falta coração à literatura contemporânea, ele menciona a brasileira, mas eu estendo o conceito sem medo nenhum ao estado terminal atual da literatura em geral, contaminada pelo vírus das “trilogias eróticas” que ninguém mais aguenta e das “fórmulas” para fazer sucesso amplamente divulgadas pelo KDP da Amazon em suas newsletters (“seus”, o corretor ortográfico reclamou, pensando com certeza no conceito globalizado vindo do original em inglês, depois que expliquei ele se calou).

Pois coração é o que tem nos faltado, seja na literatura, na economia, nas redes sociais (nada a ver com fotos fofinhas de animaizinhos), nos alvos de marketing sempre ressaltados acima de tudo o mais. Paira em torno de nós um vazio de alma, no Brasil principalmente um vazio educacional, cultural, que do jeito que a coisa anda para os lados da política ministerial, só tende a se agravar.

Resta confessar (de novo!) que a cada vez que vejo no cinema um amor nacionalista, ou, por outro lado, uma vergonha do país natal, ou, finalmente, as duas coisas confundidas e misturadas, curiosamente tema central em vários desses filmes a que temos assistido (deve ser uma energia disseminada no “ar”, sei lá, ou no inconsciente coletivo inventado por Jung e tão bem traduzido pela internet, embora Jung tenha fugido da superficialidade como o diabo do conceito de pura bondade), chego a chorar, a  derramar lágrimas de (e pela) verdade — como em “Stag” o macho envergonhado, enfim cooptado pela emoção aquosa despertada pelo U2.

Acho que para uma crônica de ano novo e originalmente sem assunto já está de bom tamanho. Um bom domingo e tchau procês.

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