Yom Kipur à la carte

Acabo de receber um convite para o jantar anual de Rosh Hashaná (ano novo judaico) em família na próxima quarta-feira. Não pretendo comparecer.

Estou muito ocupada para ir ao Rio, uma premissa, claro, já de antemão equivocada, pois o objetivo primário de qualquer ato litúrgico, ou data tradicionalmente festejada — da mais singela, como o domingo (no caso judaico, já que estamos falando nele, o sábado), à mais sagrada, como o Yom Kipur aí do título —, é justamente este: nos tirar da rotina massacrante, do hábito prejudicial e impactante de fugir dos problemas, dos prazeres, dos questionamentos, do que for que nos mergulhe num cotidiano mais desafiante, nos entupindo de coisas para ter e fazer, ufa. Já cansei só de escrever.

Ando cansada, é verdade. E tão estressada que andei tendo alguns episódios preocupantes de perda total de rumo e prumo, se é que vocês me entendem, porque eu, francamente, até bem há pouco não entendia.

Ao bendito (sem ironia, juro) e bem-vindo excesso de trabalho como editora na KBR, juntaram-se esta semana outros fatais ingredientes do bolo, bolo mental, digo, como uma nem um pouco oportuna — egoísta, exigente e hedonista — crise conjugal das boas, daquelas que desembocam em avessas loas e num antagonismo latente que se pensar bem, e sentir melhor, fatalmente se verá que nem sequer na verdade existe.

Fui com calma. Tentei, pelo menos. Ainda estou indo, mas aonde, sinceramente, não sei, e não quero falar sobre isso agora. Embora a minha premissa de cronista seja acompanhar o dia-a-dia com tintas bastante realistas, em tempo quase real, sinto que pelo menos quanto aos últimos acontecimentos tenho a necessidade de um mínimo distanciamento, o tempo de destrincar os dentes, depurar a língua ferina, relaxar o maxilar trancado e resistente.

Cheguei muito perto do radical desentendimento, mas no último lance do jogo, recuei estrategicamente: medo e dúvida pousam na crista de um possível arrependimento e atiro sem dó — dó de mim, digo —, pela janela do próximo futuro, a possibilidade, a mera probabilidade de libertar-me de uma vez deste conturbado, porém profundamente conectado casamento. Não sei o que fazer.

Mas de volta à inevitabilidade do momento: quem faz tempo segue em livros a minha saga, sabe que fatalmente, por mais que Deus e suas (nossas) carências divinamente civilizadas tenham perdido toda premência ou significado ultimamente, nesta época do ano retomo o contato com a sabedoria ancestral, claramente funcional, de um periódico acerto de contas com a minha própria mente. À parte os ritos originais da tribo, transmitidos por prévias gerações regularmente, e a necessidade latente de submeter-se a um poder superior, acessível somente por via da oração penitente, acho o máximo, quase divina, a ideia de um retiro meditativo de dez dias para avaliar os anteriores 355, sabem como é, pecados ou não, múltiplos e ao alcance de qualquer coração: o período transcorrido entre o ano novo (Rosh Hashaná ou “cabeça do ano”, literalmente) e o dia do perdão (Yom Kipur, ou “dia da reparação”, traduzido livremente); do jejum, se for pra encará-lo mais superficialmente.

Pois é. O jejum: uma parada radical, o ápice da experiência do crente, uma entrega total aos desígnios da divina mente, um dia onde nada importa mais do que o balanço final de tudo o que se passou até ali com a gente — heshbon hanefesh, a “contabilidade da alma”, literalmente — sem as distrações do prato cheio à nossa frente; a não ser, é claro, o prato frio do tempo perdido, das intenções frustradas, de tudo que se tentou e nenhum resultado nos trouxe a não ser um amargor de derrota inclemente. Como a vingança, por exemplo, ou um relacionamento rompido.

O caso é que embora eu tenha finalmente me livrado de superstições implantadas pela educação, pela constante supervisão, pelo treinamento intensivo da sociedade se impondo à minha cabeça inocente — como noções de crime, pecado, castigo e perdão, pondo em risco a vida moral do sujeito em questão, submetida ao teórico julgamento de uma entidade acima de qualquer questionamento ou hesitação, argh —, gosto da sensação de aprimoramento proporcionada pela simples ideia deste mesmo julgamento que desprezo, descarto, despejo na gaveta oculta do puro condicionamento.

Tudo bem. Já não jejuo. Já não rezo. Já não espero ser perdoada ou aceita por uma autoridade qualquer, real ou de ficção, o que for, confesso: me desliguei disso completamente. Mas daí a quebrar solenemente o jejum que já não faço rodeada de estranhos na mesa de um restaurante barulhento, como me propôs ao telefone a parente encarregada de preservar os rituais familiares de antigamente… há uma distância dolorosa e deprimente. Desse jantar, tampouco pretendo participar.

Me recolho solitária à ignorância do meu próprio futuro: não sei o que virá, o que vou sentir, o que o “destino” me reservará, quer dizer, o que sem querer estou inconscientemente a planejar para mim.

Desculpem. Venho tentando fazer graça pelas últimas três crônicas desta minha movimentada vida (que por minha vontade nunca soberana deveria ser calada e tranquila), mas tenho sido incapaz. Daqui a pouco eu consigo. Prometo.

O que falta pra fechar este capítulo do livro, um livro que escrevendo ou não a gente sente que vai sendo escrito, é a crença poética de que, a cada novo ciclo, certo Deus nas alturas nos envia a renovação periódica desta assinatura a que chamamos vida. Que na próxima semana “Ele” decida renovar a sua, a minha, a nossa.

E um bom domingo procês. Fui.

 

 

3 Responses

  1. Noga, querida.
    Bom Dia. É sempre muito bom podermos contar o que nos vai pela alma.Crises acontecem. Como dizia Vinicius, a vida vem em ondas como o mar. Infelizmente tem ondas que quase nos afogam. Falar sobre elas, desabafar, desopilar o fígado ajuda muito!!!! E você sabe fazer isso com poesia. Parabéns! beijo grande

  2. aviva.avritzir says:

    Noga achei a sua cronica linda!!! mesmo tendo se libertado dos rituais judaicos, não adianta, na essência toda a sua cronica é uma elegia ao judaismo.Parabens!! quanto a crise conjugal, elas veem e passam ,a vida continua.Se realmente voces estão bem juntos vão achar um meio termo que satisfaça aos dois.
    Quero desejar à voces um SHANA Tová repleto de saude, alegria e realizações.bjs Aviva.

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